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Invocação das Trevas

Os passos foram se afastando pelo corredor do calabouço da guarda portuária de Erekaster: a sentinela acabara de completar sua ronda, e ia agora instalar-se na sala da guarda, onde passaria o restante da noite. Na cela onde havia sido acorrentada no dia anterior, Brenna de Myenlane tomou uma decisão; o ritual que iria realizar consumiria boa parte de suas forças, e muito provavelmente não teria condições de tentar uma segunda vez. Caso funcionasse, havia ainda a possibilidade de que não conseguisse realizar a segunda parte do plano, mas teria que arriscar. A traição de Zadugan, tirano de Aphalyria, não ficaria impune; embora, claro, do ponto de vista das Guardiãs, a traidora era ela. Se estivesse dentro de Erekaster, também pensaria a mesma coisa, conformou-se.

De olhos fechados, concentrou-se e invocou o espírito ancestral de Syra, o deus das serpentes. Sentiu sua consciência descendo às profundezas da terra, a locais escuros habitados por todo tipo de criatura peçonhenta. Estes seres normalmente jamais vinham à superfície, mas durante a noite, baixado o Manto de Trevas que protegia a capital de Erenid, o chamado que Brenna lhes fez era um convite para que subissem - e matassem tudo o que encontrassem em seu caminho.

Era alta madrugada quando começou a ouvir os gritos dos homens e os relinchos dos cavalos lá fora: o ataque já começara. Pegos de surpresa durante o sono, os aphalyrianos despertaram para um cenário de horror, onde aranhas negras e serpentes prateadas vindas do subsolo, pulavam sobre eles. No acampamento ao redor da cidade sitiada, instalou-se o pânico, e em breve, lâmpadas derrubadas na confusão provocaram um incêndio que impulsionado pelo vento forte, espalhou-se pelas tendas.

O tirano conseguiu escapar ileso à onda inicial de criaturas peçonhentas, e montando num cavalo remanescente, ordenou que fosse dado o toque de retirada. Poucas centenas de seus homens lograram atender à convocação, visto que o grosso do exército havia perecido envenenado quase que imediatamente.

Quando a manhã raiou, pelo silêncio que reinava fora de sua cela, Brenna deduziu corretamente que os aphalyrianos sobreviventes haviam fugido para longe da cidade. Só então, realizou o segundo ritual, que desfazia o Manto de Trevas que protegera Erekaster, não somente contra o exército de Zadugan, mas também da invasão da vérmina do submundo. Quando os defensores da cidade murada viram que sua principal defesa havia se dissipado como a névoa pela manhã, temeram pelo pior; mas ao dirigir o olhar para a margem oposta do Ronane, onde estivera montado o acampamento aphalyriano, perceberam que uma grande catástrofe havia se abatido sobre o mesmo: a fumaça dos incêndios ainda subia dentre as tendas destruídas, e milhares de corpos de homens e animais estavam caídos no meio delas.

Do alto da muralha do palácio real, o regente Walkor e a Guardiã-Mestra Rowen encaravam o cenário de destruição às margens do rio.

- Isso foi obra sua? - Indagou o regente, impressionado.

Rowen fez que não.

- É obra de uma Guardiã, certamente, mas não de nenhuma de nós que estamos em Erekaster. Quem fez isso, arriscou-se muito, e talvez já esteja morta. Ousaria dizer que foi trabalho de Brenna de Myenlane, a quem todos julgávamos ter nos traído; somente ela teria a capacidade para destruir todo um exército e em seguida levantar a proteção do Manto de Trevas.

O regente sacudiu a cabeça, em concordância.

- Pela derrota infligida aos aphalyrianos, nossas tropas aquarteladas dentro da cidade poderão dar conta dos que lograram fugir e persegui-los por todo o caminho, daqui até Aphalyria. Mas darei ordens para que vasculhem o acampamento em busca de sobreviventes; talvez a Guardiã ainda esteja lá.

E efetivamente, naquela mesma tarde, Brenna de Myenlane foi localizada dentro do calabouço da guarda portuária. Estava fraca, mas bem. Depois de alimentar-se devidamente e trocar de roupa, foi conduzida à presença da Guardiã-Mestra.

- Desculpe por ter duvidado da sua lealdade - declarou Rowen ao recebê-la.

Brenna sorriu.

- Às vezes, até eu mesmo duvidava - admitiu. - Afinal, tinha que ser convincente, ou o tirano iria desconfiar...

- Agora que tudo ficou esclarecido, - prosseguiu Rowen - poderia desfazer o encantamento que bloqueou o nosso barco aéreo?

Brenna a encarou, intrigada.

- Mas eu não coloquei nenhum encantamento sobre o barco aéreo!

E perante o ar cético de sua superiora, acrescentou:

- Eu disse ao tirano que iria impedir que conseguissem ajuda externa, mas bloquear o barco aéreo era inútil para a execução do meu plano. Em nada mudaria, se conseguissem usá-lo.

Rowen franziu a testa.

- Mas então... quem?

- O barco aéreo é nosso único meio de chegar a Nalrom - ponderou Brenna. - Portanto, há algo ou alguém lá em cima que não deseja ser incomodado.

E nos domínios celestes onde transitava Nalrom, o Caminhante, de nada valeria invocar Syra, bem o sabia Brenna.

- [12-06-2020]
Alex Raymundo
Enviado por Alex Raymundo em 12/06/2020
Reeditado em 13/06/2020
Código do texto: T6975736
Classificação de conteúdo: seguro


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Sobre o autor
Alex Raymundo
Rio de Janeiro - Rio de Janeiro - Brasil, 57 anos
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Alex Raymundo