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Segredo de família

- Mãe!

Corey havia descido correndo do ônibus da escola, abriu a porta da sala, e deparou-se com sua mãe sentada no sofá da sala, ao lado... dela mesma. Esfregou os olhos.

- Você não está vendo dobrado - disse a mãe da esquerda.

- Qual das duas é minha mãe? - Indagou Corey, olhando de uma para outra. A da direita estava mais arrumada e elegante, provavelmente não era sua mãe.

- O que você acha? - Perguntou justamente a da direita.

- Você - replicou Corey, apontando a da esquerda, em roupas de ficar em casa. Ela piscou um olho para a outra.

- Não disse que não ia conseguir enganá-lo?

- Se tivéssemos trocado de roupa, ele não teria percebido - redarguiu a mãe elegante. - Como no Príncipe e o Mendigo...

- Ei! Eu conheço a minha mãe! - Protestou Corey para a mãe elegante. - E você não é ela... apesar de ser muito parecida.

- Venha cá - chamou-o a mãe que ele sabia ser a verdadeira. - Sente-se entre nós.

Corey deixou a mochila sobre uma poltrona e aproximou-se, desconfiado.

- Mãe, você nunca me disse que tinha uma irmã gêmea - protestou, virando-se para a esquerda.

A mãe acariciou os cabelos dele.

- Segredo de família - disse enigmaticamente.

- Quantos anos ele tem mesmo? - Indagou a da direita.

- Oito.

- Você é um garoto muito inteligente, Corey - a da direita acariciou os cabelos dele, do mesmo jeito que a mãe havia feito.

- Como você se chama, tia? - Perguntou o menino, erguendo a cabeça.

- Cordelia. Mas todos me chamam de Delia.

Corey semicerrou os olhos.

- Esse é o nome da minha mãe!

- Nossos pais não eram muito criativos no tocante a nomes - replicou ela, com um sorriso sarcástico.

- Que tal agora ir tomar seu banho e se trocar para o almoço? - Sugeriu a mãe.

Corey ergueu-se em silêncio, pegou a mochila e subiu as escadas para o andar superior, onde ficavam os quartos da casa. Novamente sós, Delia, a mãe, expressão preocupada, voltou-se para Cordelia.

- Não acho que isso vá dar certo. Somos fisicamente idênticas, é verdade, mas você simplesmente não conviveu com o Corey... ele vai saber que não sou eu, mesmo que troquemos as roupas.

- Eu não pretendo me passar por você - retrucou Cordelia num tom indiferente. - Vou levar o Corey comigo.

- Apenas para uma visita - Delia pontuou com firmeza.

- Se ele quiser ficar, o que vale é a opção dele - insistiu Cordelia.

E diante da expressão de revolta de Delia, acrescentou placidamente:

- Trato é trato.

Delia respirou fundo.

- Certo - replicou com amargura. - Mas me dê um dia, preciso conversar com ele. Explicar a situação.

- Amanhã - retrucou Cordelia. - Amanhã eu volto para buscá-lo...

Consultou o relógio de pulso e especificou:

- Às 12 h em ponto.

Em seguida, levantou-se e erguendo os braços, traçou no ar os contornos de um grande retângulo. Uma porta de madeira escura com uma maçaneta de latão surgiu do nada, no meio do aposento. Cordelia, empurrou a maçaneta para dentro, revelando que do outro lado havia uma sala elegante, acarpetada, com uma lareira onde queimavam algumas achas. Por uma janela alta ao lado da lareira, via-se um céu invernal, de onde a neve caía. Antes de fechar a porta atrás de si, Cordelia virou-se para Delia e repetiu:

- Às 12 h, amanhã.

A porta foi fechada. E desapareceu como se nunca houvesse existido.

No sofá, Delia mergulhou o rosto nas mãos em desespero, e assim ficou até que Corey tocasse seu ombro.

- Mãe? O que houve? Cadê a tia Cordelia?

- Ela já foi... - murmurou Delia. E depois, pegou o menino pela mão e o sentou ao seu lado. Abraçou-o com força.

- Sua tia quer que você vá passar um tempo com ela, Corey. Vai voltar amanhã.

- Mas eu estou no meio do semestre - protestou Corey. - A tia não pode esperar até as férias de verão?

Delia abanou negativamente a cabeça.

- Não, Corey, não. Amanhã. Mas, não se preocupe, você não vai perder nenhum dia de aula na escola... se não demorar muito lá.

O menino olhou intrigado para a mãe.

- Lá... onde, mãe?

Delia respirou fundo.

- É um lugar muito distante, e ao mesmo tempo, muito perto. A sua tia tem... poderes.

E segurando o rosto do menino com as duas mãos, beijou-o no alto da cabeça.

- [08-06-2020]
Alex Raymundo
Enviado por Alex Raymundo em 08/06/2020
Código do texto: T6971747
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Sobre o autor
Alex Raymundo
Rio de Janeiro - Rio de Janeiro - Brasil, 57 anos
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Alex Raymundo