Os olhos de Sailor Moon

OS OLHOS DE SAILOR MOON


Miguel Carqueija


(Estamos no início da primeira fase do seriado. A segunda guerreira já apareceu, mas não a terceira.)


—Você sabia – disse Naru (1) – que há um novo parque de diversões no bairro?
— Não, não sabia – respondeu Serena (2). – Onde fica?
— Logo depois do Boulevard das Flores, acho que eu vou até lá depois da aula!
— Eu também quero ir, Naru. Bem... eu gosto de parques, sabe? Mas espero que o Mamoru (3) não vá e que o Motoki (4) vá!
— Você é muito exigente, Serena. Que importa quem vá? Todos têm o direito de ir!
— É, eu sei, infelizmente...
Ami (5) tocou no braço de Serena e olhou em volta. Estavam no recreio, e Naru se afastara.
— Que há? – perguntou Serena.
— Você sabe... ando com medo de tudo o que é novo...
— Oh, pelo amor de Deus, Ami! Você não vai ficar paranóica, vai?
— Sei lá... já vi tanta coisa... você vai lá?
— Eu vou – Serena cruzou os dedos das mãos e seus olhos imensos e lindos assumiram uma expressão sonhadora. –Quem sabe encontro o meu par no Túnel do Amor...
— Não sei não, Serena... nessa vida que a gente está levando, o amor é um pouco difícil... como é que a gente vai conciliar...
— Ora, não seja estraga-prazeres! E cale a boca: vem gente aí!
— Aquele quatro-olhos...
Umino (6) se aproximou das garotas:
— Alô, garotas! Já estão sabendo desse novo parque de diversões?
— Não, é claro que não – respondeu Serena, sarcástica. – Eu acho que só contaram a você.
Ela não gostava daquele tom esganiçado de Umino e com frequência dava-lhe aquelas bandeiras.
Umino, porém, não tomara a sua dose diária de Simancol e insistiu no assunto:
— Pois é, Serena. Eu acho que eu vou lá depois da aula. Quer ir comigo? Quer? Quer? Quer?
(close para Serena cerrando o punho direito e trincando os dentes de raiva. Uma gota lhe escorre da testa.) (7)
— Então está combinado, Serena. Você também vai, não vai, Amy? Não vai? Não vai? Não vai?
-Bem, eu... eu acho...
-Que ótimo! Vejo vocês lá!
Umino se afastou e Amy espalmou as mãos naquele conhecido gesto de “Que se há de fazer?”
Serena, porém, já colocara o indicador diante da boca e sorrindo, os olhos muito abertos, procurava ver o lado bom:
-Lá deve ser muito interessante. Eu preciso fazer alguma coisa diferente! Minha vida anda tão monótona...
-Monótona? Até parece... – suspirou Amy.


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Os olhos de Serena, enormes e expressivos, fitaram o cartaz luminoso do parque. Amy, ao seu lado, olhava tudo atentamente, como a se certificar que não havia, não podia haver nada estranho ali só porque era uma coisa nova e ela estava pensando naquilo.
-Vamos! – disse Serena.
Havia muita gente por lá, inclusive muitos adultos. Serena notou de saída as barraquinhas com algodão-de-açúcar , confeitos de amendoim e outras gulodices de provocar cárie nos dentes. Amy observava com mais atenção as barracas de sanduíches. Aí Serena, não encontrando sorvetes, comprou um algodão doce e dispôs-se a comê-lo, dividindo um pouco com Amy.
-Hum... está pra lá de gostoso, não é, Amy?
-AAAH!!! VOCÊS ESTÃO AÍ!
-AAAAAI!!!

O algodão-de-açúcar escapou das mãos de Serena, com o pulo assustado que ela deu. Umino acabara de surgir com estardalhaço por detrás das duas meninas, ocasionando o desastre. Mais atrás vinha Naru.
-Oh, perdão, Serena, não queria te assustar...
Serena cerrou o punho direito e fuzilou com o olhar para Umino:
-Oh, seu... seu... você me paga!
Umino gritou de medo e fugiu correndo, perdendo-se entre as pessoas que circulavam no parque. Um tanto espantada com a reação do garoto, Serena observou:
-Porque será que o Umino tem tanto medo de mim?
-Talvez ele não tivesse tanto medo – opinou Naru – se você não batesse tanto nele...
Amy pegou Serena pelo braço:
-Venha, vamos no trem-fantasma...
-Eu vou buscar o Umino – disse Naru.- É melhor nos separarmos.
Serena sacudiu o braço:
-Não quero ir no trem-fantasma. Quero ir no túnel do amor! É tão romântico!
-E a quem você irá abraçar e beijar lá dentro? Você nem sequer tem namorado!
Serena fechou os punhos de entusiasmo, com os braços dobrados para cima, e seus olhos pareciam duas estrelas:
-Quem sabe o Tuxedo Kamen aparece lá dentro! (8)
-Serena, você é incorrigível!


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-Que coisa chata... – murmurou Amy. – Viajar no túnel do amor, sentada bem ao lado da Serena...
-Imagine que nós estamos com os nossos namorados – respondeu Serena, sussurrando.
Amy cruzou os braços, amuada. Uma menina morena e bonita, de aspecto muito sério, que contrastava com a loura e esfuziante Serena.
-Olha só aquele cupido... sussurrou Serena.
Amy olhou, desinteressada. Serena já viajava. O cupido lembrava-lhe do amor, dos apaixonados e isso mexia com o seu coração de 14 anos. Nessa hora os seus olhos adquiriam um ar romântico, sonhador, tipo estou-nas-nuvens.

“Que estranho”, pensou Amy. “Poderia jurar que o cupido piscou para nós.”
-Serena...
Amy tocou o braço da amiga e, não obtendo reação, sacudiu-o.
-Hein? O que foi?
-O que há com você?
-Nada, eu acho... porque estamos falando tão baixo?
-Porque sim.
-Porque sim não é uma boa resposta, Amy.
-Espere aí. E não olhe nos olhos dos cupidos.
Serena fitou Amy, espantada. A moreninha Amy colocou seus óculos especiais e pegou seu computador de bolso.
-Não pode haver nada errado aqui...
-É claro que pode – respondeu Amy. – Há uma energia maligna em ação nesse parque.
-A propósito... quando é que esse túnel termina?
-E as outras pessoas... os casais... ficaram tão silenciosos!
-É claro! – Serena sobressaltou-se. – Estão todos em transe!
-Vamos ter que fazer alguma coisa!
-E Umino e Naru? Devem estar no trem-fantasma!
-Deixa eu ver se acho quem manipula isso... de qualquer forma esse túnel já ultrapassou a nossa dimensão.
Os olhos de Serena se arregalaram:
-Meu Deus, o que está acontecendo? Como podemos estar em outra dimensão?
-É por isso que esse túnel pode prolongar-se indefinidamente, muito além do espaço físico do parque.
-Mas, Amy, se as pessoas que estão aqui desaparecem no nada... isso seria notado!
-É claro... as pessoas devem voltar... mas manipuladas...
-Então chega! Vamos nos transformar!
Amy e Serena invocaram os poderes aos quais estavam vinculadas. Um turbilhão de luz sobrenatural as envolveu, escondeu de olhos profanos a sua subita nudez e a transformação fabulosa se deu, revelando as marinheiras-guerreiras Mercúrio e Lua, com seus diademas do poder. Saltaram do vagão e correram por um túnel escuro que parecia já não ter fim.
-Veja, Sailor Moon! – disse Mercúrio. –Estamos numa dobra dimensional, ou seja em parte alguma, e a fonte disso tudo está à esquerda...
-Mas está tudo tão escuro! Aliás, isso não parece um lugar real... parece que estamos ao ar livre, mas não há sol e nem estradas... parece um lugar virtual...
-E talvez seja... espere! Quem vem lá?
Era uma figura encapuçada, parecendo até a Morte. Movia-se sinistra e silenciosamente em direção às sailor-scouts, em meio às cintilações e filigranas que agora povoavam aquele espaço misterioso.
-Pare! – gritou Sailor Moon. –Quem é você, afinal?
-Eu venho de um tempo esquecido - disse uma voz cavernosa – e me alimento dos medos e dos sonhos das pessoas. Passei por várias épocas com o meu parque e assim permaneci vivo enquanto os outros morriam. É uma pena que vocês tenham descoberto a minha armadilha, pois agora terão de morrer.
-Não tem nada a ver com as Malignas... –sussurrou Amy.
-Não me importa! – Sailor Moon estava indignada. – Não é justo que você se aproveite assim das pessoas, como um vampiro, sugando as suas fantasias e os seus sentimentos. Você vem de algum tempo em que havia magia na Terra, mas usou mal os seus dons... só para se aproveitar dos outros! E isso eu não aceito! Não admito!
-E quem é você, eu posso saber?
-Eu sou uma guerreira que luta pelo Amor e pela Justiça! Sou Sailor Moon! E punirei você... em nome da Lua!
-Não conheço o tipo de magia que vocês usam... mas não poderão com alguém que acumulou energia durante séculos!
-É isso... – a moreninha Mercury, preocupada, examinava a sua telinha. –Há muito eletromagnetismo no século XX, e a energia que esse camarada acumulou não tem mais por onde segurar... vai haver uma reversão catastrófica, essa energia tem que ser liberada...
A figura encapuçada fez aparecer um sabre flamejante e apontou-o para Sailor Mercúrio:
-O que está dizendo, sua pateta? Não vão conseguir me enrolar... vocês agora vão morrer!
Sailor Moon retirou o diadema da cabeça:
-Tiara lunar... ação!
O diadema tornou-se luminoso e procurou o mago. Este interpôs o sabre. Produziu-se uma explosão que jogou as “sailor-scouts” ao chão, entre gritos juvenis. Amy ajudou Serena a se erguer... a tempo de perceberem o turbilhão que envolveu o mago e que começou a sugar tudo em volta, como um redemoinho fantástico.
-Não podem fazer isso... se eu voltar no tempo, perderei toda a energia acumulada durante milênios... 
-De onde será que ele veio? – indagou Serena.
-De algum lugar do passado mítico... Lemúria, Hiperbórea, Atlântida, quem sabe? Vamos embora daqui!
-Para onde?
-Siga-me, Sailor Moon! Vou seguir as indicações aqui da tela! Temos de voltar para o mundo real!
Correram, correram e correram... até pisar de novo um chão que podia ser visto.


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O parque parecia normal à luz do dia. O túnel do amor funcionava normalmente, bem como o trem-fantasma. Os funcionários pareciam normais. Serena e Amy já haviam, naturalmente, revertido às suas identidades comuns.
-Lá vêm Naru e Umino – disse Serena. –Será que aconteceu alguma coisa com eles?
-Não creio. O intruso que estava manipulando o parque não teve tempo de conectar o trem-fantasma em sua armadilha. Foi isso que o esquema da tela me mostrou.
O olhar de Serena revelou alívio:
-Então, graças a Deus, acabou... já bastam os demônios do Negaverso (9) para ocupar a gente!



1) Naru: na dublagem brasileira é conhecida por Molly. Trata-se da ruivinha da escola, apresentada no primeiro capítulo como a melhor amiga de Serena. Esse detalhe fica ultrapassado com o paulatino aparecimento das guerreiras, que vão formando um grupo inseparável, deixando Naru em segundo plano na amizade de Serena.

2) Serena: é a Sailor Moon, a grande heroína criada por Naoko Takeushi no mangá lançado em 1992, logo seguido pela série de tv. No original Serena é Usagi, Tsukino Usagi (a Coelha da Lua) mas é evidente que seu nome ocidental é mais apropriado.



3) Mamoru: conhecido nos Estados Unidos e no Brasil como Darien, vem a ser o namorado de Serena, ainda que no início da série eles troquem farpas, já que ele não sabe que ela é Sailor Moon e ela não sabe que ele é o Tuxedo Kamen, e que eles já se amavam no antigo Milênio de Prata da Lua.
4) Motoki: é o boa-pinta Andrew, primeiro amor de Serena. É o rapaz alourado da loja de jogos eletrônicos, que inclusive tem o da Sailor Vênus. Serena o ama platonicamente e sonha que ele se declare, o que jamais acontece. Nos primeiros episódios Serena antipatiza com Mamoru e acalenta dois amores: Motoki e Tuxedo Kamen.
5) Amy: a Sailor Mercúrio tem mesmo esse nome no original, só que com a grafia Ami e é a estudante de maiores notas no Japão. É a geniazinha da equipe das marinheiras-guerreiras.
6) Umino: é o Kelvin ou Kevin, o nerd da turma de Serena e Naru, um garoto espalhafatoso e ridículo. No início ele é apaixonado por Serena, mas depóis transfere sua paixão para Naru, que termina por aceitá-lo.
7) a famosa gota dos desenhos japoneses significa o constrangimento – como se alguma coisa estivesse empurrando a sua cabeça para baixo.
8) Tuxedo Kamen – ou Tuxedo Mask, ou seja o Mascarado de Fraque. Trata-se do Príncipe Endymion do tempo do Milênio de Prata da Lua, que no século XX é o Mamoru, o Mamo-Chan de Serena (o "Chan” é uma forma carinhosa, algo assim como “querido Mamoru”), o Darien na versão norte-americana, que ficou assim também no Brasil. Pela roupa assemelha-se ao Mandrake, e sua técnica de luta é “sui-generis”, incluindo as rosas petrificadas que ele arremessa.
9) O seriado de tv de Sailor Moon (da Toei) divide-se em cinco fases. A primeira, conhecida simplesmente como fase Sailor Moon (as outras são Sailor Moon R, S, Super S e Stars), poderia ser a fase Negaverso. È o Reino Escuro, de onde vêm as malignas e os misteriosos generais (Jedyte, Neflite, Zyocite e Malachite). O grupo maligno é chefiado pela Rainha Beryl, que porém segue as instruções de uma entidade que pode também ser nomeada como Negaverso, ou o demônio do universo negativo. Esta primeira fase culmina de maneira apoteótica, quando uma Sailor Moon mais segura de si e com poderes ampliados trava um combate heróico e final com Beryl, pela salvação da Terra.
A história aqui contada insere-se entre os capítulos oito e dez, ou seja após o aparecimento de Sailor Mercúrio e antes que Sailor Marte apareça.
Uma nova série foi produzida na década atual.



(imagem do seriado)


































 
Miguel Carqueija
Enviado por Miguel Carqueija em 31/12/2013
Reeditado em 31/10/2018
Código do texto: T4631473
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