O HOMEM QUE PLANTAVA MEDOS

Este é um dos trechos importantes do meu primeiro livro de fantasia, espero que quem ler possa me dizer qual foi a impressão que teve, desde a escrita até a emoção que a história transmite...

O texto abaixo mostra uma senhora contando uma lenda muito antiga sobre uma curandeira que desafiou um espírito zombeteiro para conquistar um vilarejo muito desejado por vários aventureiros, mas que nunca conseguiram atravessar devido as trapaças e artimanhas do ser imundo.

- Venha comigo até a sala da primeira lareira, Catarina, vou contar uma história. Talvez a primeira que você deva saber. Catarina a seguiu, passando pela sala onde estava o piano, subiram as escadas e a direita uma porta trancada por Berenice rapidamente se abriu quando ela tocou a maçaneta. Catarina mais uma vez ficou impressionada mas decidiu não perguntar. Não queria passar por curiosa, embora fosse uma de primeira. Elas se acomodaram e Berenice começou:

- Não existe um começo ao certo. Eu tenho uma missão a cumprir e uso tudo o que for preciso para que a missão seja cumprida devidamente. É uma história onde você entenderá com o que estamos mexendo neste mundo.

- Que medo. – disse Catarina, e o fogo da lareira aumentou, enquanto na vidraça a água de uma chuva fria escorria tornando o ambiente mais misterioso do que já aparentava ser.

- Há muitos e muitos anos atrás, em uma terra chamada Linzabawn, onde o céu possuía tons de vermelho e rosa que se misturavam, não havia presença da natureza viva por ali, a terra era escura e poucas árvores secas com seus galhos retorcidos eram a única prova de que existiu algo vivo por ali. Havia um cemitério que ninguém mais entrava. Era cercado por uma alta cerca feita de galhos bem grossos e espinhosos e por ser abandonado há anos todas as terras habitadas ao redor espalhavam coisas horrorosas sobre aquele lugar. Seus sepulcros já praticamente haviam se tornado ruínas, castigados pelo tempo, onde o chão de pedras era coberto por folhas escuras e secas. Havia uma árvore imensa bem no centro do cemitério que lembrava uma paineira sem espinhos e haviam apenas três sementes da cor laranja restantes em um de seus galhos que também eram assustadores. Segundo a lenda, um espírito zombeteiro vivia por ali, com suas armações e armadilhas atrapalhava quem ousasse entrar no cemitério, pois era acometido por doenças, ferimentos inexplicáveis e até mesmo a morte. Muitos que tentaram não chegaram do outro lado. Quem conhecia as dádivas que ela proporcionaria arriscava a pegá-la. Mas para isso teria que enfrentar seus medos mais intensos. “Um preço bem alto para apenas uma flor”, pensavam alguns.

- O problema é que para ir até o próximo vilarejo, a única entrada era por este cemitério. E claro, todos preferiam viver eternamente em Linzabawn do que morrer tentando. A cada dia que passava mais histórias apareciam sobre este lugar amaldiçoado. Porém, uma vez uma curandeira muito estranha que passava por ali naqueles dias, desafiou com o poder de suas ervas este espírito, dizendo que conseguiria atravessar o cemitério sem que ele a prejudicasse. O espírito gargalhou muito antes de aceitar a oferta com muita dúvida, e quis saber o porquê do desafio. A curandeira muito gentil respondeu que tinha interesse em morar no tal vilarejo que existia depois de passar pelo cemitério. O imundo sentiu um imenso prazer e aceitou a proposta, porém a sábia e esperta senhora tinha mais um desejo. Queria as últimas três sementes daquela árvore e pediu ao espírito que caso ela passasse pelo cemitério ilesa, ele se materializasse e pegaria as sementes pra ela. Mais uma vez o espírito ficou imóvel pensando e depois aceitou. A curandeira montou ali mesmo na frente do cemitério uma pequena tenda e dentro dela arrumou ervas e começou a preparar várias misturas, algumas fervidas num recipiente de barro, outras apenas amassadas em um pequeno pilão feito de ossos. Enquanto isso o espírito que observava tudo ria e fazia piadas acerca dos apetrechos daquela velha, que segundo ele não serviriam para nada e ela morreria sendo levada de corpo e alma para o inferno. Ela estava prestando atenção em seu trabalho e era muito concentrada não ligando para as insinuações do tal. Quando terminou tudo que precisava, separou e guardou suas ervas em saquinhos com o fecho amarrado com cipós e enterrou as sobras ali mesmo. Virou-se para o espírito acenando que estava pronta. Neste momento passavam vários habitantes do vilarejo e diziam àquela senhora que ela era louca e que se perderia para sempre no cemitério, ela então entregou a eles pequenos pedaços de tecidos onde estavam escritos coisas sobre ela e virando-se para o seu desejo, entrou.

- Meu Deus! Que senhora corajosa, eu não passaria nem na porta deste cemitério.- garantiu Catarina.

- Às vezes a necessidade torna algo inevitável. – completou Berenice – enfim, enquanto andava o vento espalhava as folhas que cobriam ossos e ela olhava atentamente para todos os lados. Nenhum sinal do desafiado. Ele provavelmente a atacaria primeiro usando pequenas artimanhas que depois ficariam mais pesadas. Ela então virou-se para a esquerda afim de olhar a árvore mais de perto e percebeu que muitos esqueletos que estavam pelo chão eram de pessoas que haviam tentado passar por ali, eram muitas, centenas. Dentre estes avistou um que lhe chamou a atenção porque possuía uma medalha que foi reconhecida. Se tratava de um amigo que também era curandeiro e tinha o desejo de morar no mesmo lugar que seria o prêmio após a vitória. Ela abaixou-se e recolheu a medalha e quando virou-se novamente o espírito a olhava com um sorriso estonteante. Ele apontou o esqueleto e contou que aquele quase conseguira passar pelo cemitério, mas seu desejo pelas três sementes o fizera perder a chance, e que ela repetiria o erro. A curandeira tirou do bolso de sua capa um vidro com ervas em pó e jogou no esqueleto, e o tempo se modificou e ela conseguiu ver os últimos momentos de seu amigo. Ela viu no que ele errou e tratou de cuidar disso rapidamente. Percebendo que deveria manter o espírito ocupado pediu para que ele se materializasse para ficarem de igual para igual no desafio. Ele estava muito acessível naquele momento e aceitou o pedido, se materializando como um homem moreno muito charmoso, alto e com os olhos cor de mel. Ele se virou para ela e depois sentou numa tumba que havia por ali e ficou parado. Quando ela voltou a andar, cipós vieram rastejando a seu encontro e se enrolaram em suas pernas derrubando-a, ela mordeu o cipó e guardou um pedaço em seu bolso. O espírito gargalhava muito e nem percebeu esta façanha. Ela pegou uma adaga e cortou os cipós e disse a ele que aquele truque era velho e ela esperava mais, suas gargalhadas cessaram e ele desapareceu.

- A velha chegou até a árvore e olhou com desejo para ela, dali via o cemitério por igual e resolveu subir na árvore, com uma agilidade tremenda isso foi feito em poucos segundos e a visão que tinha melhorou, então percebeu algo que reforçou sua esperança. Os azarados aventureiros sempre foram para o mesmo lado, pois o caminho que eles traçavam eram idênticos. Quando o espírito reapareceu e viu que ela anotava os caminhos que ninguém havia feito ficou furioso e assoprou nas tumbas acordando os esqueletos que ainda estavam inteiros. Eles se levantaram e foram até a árvore cercando-a. Imagine você sozinha e diante de vários esqueletos que se reergueram e desejam matá-la?

- Eu morro de medo de fantasmas, acho que desmaiaria se visse um esqueleto se mexendo sozinho.- contou Catarina.

- Ela não desistiria àquela altura, estava em uma vantagem interessante. Os esqueletos pulavam na árvore tentando pegá-la, alguns ainda possuíam cabelo e outros nem tanto - riu ela, para o espanto de Catarina - restos de vestimentas antigos cobriam parte dos ossos que agora estavam com vida. Sem prestar atenção neles, ela continuava a anotar num pergaminho os caminhos que passaria. Quando terminou enrolou e então tirou de um dos bolsos da capa um saquinho e o abriu pegando um punhado de pó e jogando nos esqueletos que viraram para o lado de seu mestre e investiram um ataque. A curandeira desceu da árvore e seguiu o caminho enquanto ele fugia daquele monte de ossos. Faltava um terço do caminho e ela estava ansiosa para saber como terminou a última armadilha da pobre criatura e foi aí que percebeu qual era o erro de todos e novamente o dela. Pois estava de frente com o sepulcro do espírito que atormentava a todos. Ela subiu os poucos degraus que ainda haviam e foi até a cripta para ver o que poderia fazer, lá dentro haviam vários esqueletos pendurados de pessoas que provavelmente se suicidaram para conseguir alguma coisa, um ritual feito com sacrifícios, um espírito trazido de volta das profundezas. Ao olhar dentro do túmulo viu que seus ossos haviam sido separados nos quatro cantos da cripta e seu espírito amarrado ao cemitério. Sem hesitar cercou-o com uma de suas ervas protetoras e começou a remontar o esqueleto. Cada parte reposta era refletida no corpo materializado do pobre coitado que gritava lá fora. A curandeira usou o mesmo pó que jogou no esqueleto de seu amigo e viu os últimos momentos daqueles que ali estavam pendurados. Viu que eles praticavam magia negra e eram do mesmo sangue de um homem muito malvado e sedento de poder que se alimentava da carne do pescoço de pessoas que habitavam em Linzabawn conhecido como Conde Loverbo. Mas a história dele agora não é importante.

Uma névoa se aproximava, a senhora terminou de montar o esqueleto e recolheu os ossos dos que foram sacrificados colocando-os num túmulo vazio que havia ali. E saiu rapidamente avistando o portão de saída. Quando ele viu que ela estava quase saindo do cemitério tentou acordar mais esqueletos, mas sua força não era mais a mesma. E entrou em sua cripta para ver o que ela havia feito. Viu que ela tinha quebrado a maldição que haviam feito para ele. Ao sair novamente ele se materializou em frente a saída do cemitério e a encarou. Ela pediu licença com um sorriso nos lábios, ele estava frágil e não conseguia mais ficar em pé, e escorou-se no portão.

Ela então deu mais três passos e ganhou o lado de fora e naquele momento gargalhava. Olhou para a grande árvore do centro e o espírito foi até lá tropeçando e caindo, levantando e pegou as três sementes e trouxe até ela. Muito satisfeita pegou um saquinho e assoprou no espírito que se desintegrou na frente dela. Pegou outro saquinho e o pó que saiu de dentro voou por todo cemitério cobrindo os túmulos. Ela enfeitiçou todos os esqueletos e eles serviriam a ela naquele momento. Ninguém poderia passar por ali exceto os que tivessem um talento que servisse a ela pois aquelas sementes produziriam uma poção que qualquer pessoa de qualquer mundo desejaria ter. O poder de nascer novamente de uma planta com a mesma idade que foi plantado alguns anos depois.

Ela voltou à árvore, subiu e colocou preso num galho aquele pergaminho que ela escrevera ali mesmo, momentos antes. E seguiu seu caminho.

Do outro lado do cemitério as pessoas olhavam com seus olhos curiosos tentando avistar algo que pudesse mostrar uma vitória ou derrota daquela pobre curandeira. Alguns cochichavam sobre uma tal "senhora de Torunvitch" e se perguntavam porque ela entrara no cemitério. Ninguém se arriscou passar pelo cemitério. Fizeram a escolha certa, era melhor que não vessem mesmo o que aquela senhora faria do outro lado. Ela certamente esperaria o momento certo de agir para proteger as sementes que estavam prestes a nascer.

Pobre espírito zombeteiro aquele, acabou ajudando enquanto persistia na certeza de que estava atrapalhando. Quem contou esta história já renasceu muitas vezes.

- Que história fantástica Dona Berenice, Mas eu tenho meus palpites...

- Me diga quais são eles?

- Essa é a sua história e de que como chegou aqui. E o tal vilarejo que é mencionado como prêmio é Torunvitch. E depois do penhasco é o cemitério. Acertei?- tentou ela.

- Quem sabe...

- Mas então onde entra o penhasco nisso tudo?

- Essa é uma história para outro dia de chuva querida Catarina...

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Betho Ragusa
Enviado por Betho Ragusa em 03/11/2012
Código do texto: T3967271
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