Sangue de Dragão - Cap. 70

Manobra Arriscada

Para alegria de todos, o comandante Árion deu um dia de folga aos seus aprendizes. Todos tiveram a oportunidade de refazer suas forças físicas, cuidar melhor dos ferimentos que surgiram durante o treinamento e, principalmente, rever os parentes com mais calma. Orogi aproveitou um excelente dia em companhia do mestre Fucalt. Eles passearam pelos bosques de Grennmória, visitaram alguns amigos de Fucalt.

Durante estas ocasiões Orogi conheceu figuras interessantes e excêntricas como o anão Tugory, um dos mestres da Forja Ardente, a grande oficina/fábrica onde a maioria dos anões vivem e trabalham, uma verdadeira mistura de vilarejo e indústria onde os famosos Golens de Ferro são produzidos. Orogi não conseguiu esconder a fascinação quando viu as enormes máquinas mágicas de três metros de altura controladas por aqueles pequeninos, mas inteligentes greenmorianos.

Atarracado, com corpo rígido e forte, um olhar firme e poderoso e um jeito bonachão de ser, Tugory se aproximou de Fucalt segurando uma imensa chave de apertar parafusos, ajeitou seu rabo de cavalo triplo e colocou a pesada ferramenta numa mesa de metal. O calor no local era intenso.

---- Faz tempo que não vem em Forja Ardente, Fucalt.

---- Verdade meu amigo --- respondeu o velho mago ---- Você sabe que nunca me adaptei muito bem a todo esse barulho e calor, ainda mais estando tão velho como estou --- terminou dando um sorriso.

---- Vocês humanos ressecam muito rápido --- depois desse comentário os dois deram uma longa gargalhada, mas o anão continuou --- Uma pena não ter nascido com o vigor e a força dos anões meu amigo --- Tugory mostrou seu bíceps avantajado. Era de fato um anão bem forte.

---- A Mãe Gaia sabe o que faz.

---- O que o traz aqui depois dessas longas semanas? Como vê, estou bastante ocupado depois que fui condecorado como um dos chefes-mecânicos de Forja após a morte do grande Rajagul --- ao falar o nome do antigo amigo, Tugory bateu com o punho cerrado no peito.

---- Como sabe temos um visitante em Grennmória. Estou aproveitando sua folga dos castigos de Árion para levá-lo a conhecer melhor nosso querido refúgio.

Tugory olhou bem para Orogi e depois para Fucalt. Logo após voltou a mexer em suas ferramentas. O suor pingava em seu rosto, iluminado por uma chuva de faíscas que vez ou outra saia de todos os lugares onde outros anões trabalhavam nos imensos gigantes de metal.

---- Então esse é o seu hospede que o Gai-Khan nos falou. Quer dizer que ele entrou para o Centro de Treinamento dos centauros?

---- Sim. Meu nome é Orogi senhor anão --- respondeu o garoto, surpreendendo o mago ---- Estou aprendendo técnicas de luta com espadas e escudo. Pretendo ser um guerreiro forte como os grandes de Grennmória.

---- ah é? Você quer ser forte? --- perguntou Tugory jogando repentinamente uma de suas ferramentas na direção de Orogi. O garoto não teve muito tempo para reação, enlaçando a grande chave em seu peito e caindo sentado. A peça era muito pesada.

---- há há há há...pelo jeito ainda precisa se esforçar muito --- gargalhou Tugory. Enquanto Orogi tentava levantar a ferramenta do solo sem sucesso, Fucalt encarava o anão seriamente. Tugory o encarou em resposta.

---- Tem certeza do que está fazendo Arlam? Quer dá-lhe tantas esperanças assim?

Ao ouvir as palavras de Tugory, Orogi encarou os dois. Tinha entendido as perguntas do anão e queria saber a resposta do mestre Fucalt.

---- Como disse, velho amigo --- Fucalt respondeu sorridente ---- Mãe Gaia sabe o que faz.

Orogi e Fucalt permaneceram mais um pouco na área dos anões, onde o mestre explicou a espantosa conexão dos Golens de Ferro e seus pilotos. Os anões não sabem utilizar nenhuma técnica mágica, mas seus corpos são verdadeiras baterias de energia mágica, sendo os mais poderosos nesse sentido. Quando adentram os golens, conectam vários cabos em suas cabeças e costas, liberando a energia concentrada e fazendo funcionar os gigantes metálicos. Uma visão impressionante e que assustou o pequeno Orogi.

---- Gostou da visita? Os anões são grandes construtores não é? --- perguntou Fucalt.

---- Verdade --- respondeu Orogi de cabeça baixa ---- Mestre...acredita realmente em minhas capacidades? --- a pergunta veio seca e direta.

---- Sim, claro. Por que?

---- Pois parece que ninguém mais aqui acredita --- respondeu Orogi. Fucalt percebeu que a provocação de Tugory ainda incomodava o garoto.

---- Eu sei o que sente Orogi. Assim que cheguei aqui também passei por estes testes. Não se engane, o povo de Grennmória é honrado, corajoso e bom. Eles valorizam bastante a força interior de cada criatura do mundo. Deixe a sua sair.

---- Como, mestre?

---- Não existe uma fórmula. Apenas é preciso não ter medo.

No dia seguinte, Orogi estava mais uma vez frente a frente com Rauros. Quando formava pares de combatentes, o comandante Árion raramente mudava os oponentes. Devido a isso, lá estava Orogi de novo, esperando lutar contra o jovem e confiante centauro. Desta vez os dois portavam espadas e escudos de madeira, seguindo determinação de Árion, que queria impedir que mais dos seus alunos se machucasse. Na verdade o próprio Gai-Khan pediu que ele pegasse leve.

A luta começou e Rauros partiu com sua costumeira ferocidade. Desferiu três potentes golpes laterais tirando lascas do escudo de Orogi, que revidou com um contra golpe facilmente defendido pelo escudo do centauro. Aproveitando o brusco movimento de defesa, Rauros afasta com força o braço de Orogi e ataca seu flanco direito desprotegido, tentando atingir o ombro do oponente. Com dificuldade, Orogi consegue girar o tronco para o lado e afastar a espada de Rauros com seu escudo.

Bastaram apenas alguns movimentos de luta para Orogi sentir o peso das armas que carregava, mesmo tendo adquirido mais força muscular durante o treinamento. Mais um pouco e saberia que se tornaria presa fácil para o centauro. Sabendo disso, Rauros aproveitava para desferir vários golpes com a espada e o escudo, de um lado e de outro. Os golpes já tinham provocado várias rachaduras na espada e escudo de Orogi, tirando muitas lascas de madeira.

Rauros aproveitou a situação para brincar um pouco com seu oponente. Assim, começou a fazer círculos em volta de Orogi, que a essa altura já estava completamente suado e escoriado. O garoto preocupava-se em manter os olhos no centauro enquanto ele girava em torno dele, rindo e fazendo movimentos de alongamento com os braços. Os outros centauros gritavam para ele acabar logo com aquilo.

Orogi acompanhava seu oponente com atenção. Num determinado momento ele olha para a ponta superior do seu escudo e tem uma idéia súbita. Com algumas batidas de espada, Orogi quebra a parte de cima do escudo, criando uma espécie de “V”. A arma estava bastante enfraquecida, mais alguns golpes e se esfacelaria por completo. Mas precisava que Rauros tentasse um tipo de golpe para levar seu plano adiante. Não sabia se ia funcionar, mas teria que tentar.

Não sabendo que tipo de loucura o humano estava fazendo, Rauros partiu para a definição. Desferiu dois golpes laterais e Orogi defendeu. No terceiro, de baixo para cima, Orogi fez o impensável, pois em vez de levantar o escudo para defender, apoiou firme com a ponta em “V’ para cima e aguardou. A espada de Rauros atingiu o escudo adversário, cravando-se na madeira e se enterrando até a metade, sua ponta passando alguns milímetros do rosto de Orogi. Quando tentou puxar de volta, Rauros percebeu que sua espada estava presa. Era o que Orogi queria.

Orogi aproveitou e atingiu a espada de Rauros, quebrando-a ao meio. O centauro se surpreendeu com a manobra adversária e desferiu mais um golpe com seu escudo. Orogi ergueu o seu e o encontro gerou o resultado esperado, pois seu escudo se partiu em quatro pedaços e ele foi arremessado dois metros para trás. A força do impacto deixou Orogi zonzo, mas conseguiu se erguer o mais rápido que pôde. Estava pronto de novo.

Rauros estava portando apenas seu escudo e Orogi sua espada. Os oponentes estavam cansados, Orogi mais ainda. Seu corpo tremia todo, seu rosto estava todo suado. Todos os espectadores agora estavam em silêncio.

---- Chega! --- grita Árion ---- A luta acabou! Descanso para os dois!

---- Ainda posso acabar com ele comandante --- fala Rauros.

---- Vai desobedecer minha determinação aprendiz? --- Árion lança um olhar de intimidação.

---- Não senhor --- responde Rauros. O centauro se afasta jogando ao chão o pedaço da espada que carregava.

Orogi despenca com um dos joelhos e crava a ponta de espada no chão para se apoiar. Bastante ofegante, ele escuta as passadas dos cascos do comandante Árion se aproximando. A sombra do grande centauro o encobre.

---- Olhe para mim garoto --- manda Árion. Orogi ergue os olhos.

---- Parabéns. Você foi muito bem hoje --- fala o comandante.

Orogi apenas sorri.

MiloSantos
Enviado por MiloSantos em 01/09/2011
Código do texto: T3194067
Copyright © 2011. Todos os direitos reservados.
Você não pode copiar, exibir, distribuir, executar, criar obras derivadas nem fazer uso comercial desta obra sem a devida permissão do autor.