O Filho Pródigo

Não longe daqui, há muito tempo atrás, havia um pequeno Feudo. Era uma pequena faixa de terra desprezível em que ninguém, absolutamente ninguém, se interessava. Ficava na parte Norte, esquecida e abandonada do reino e era considerada um nada. Até mesmo o Rei tinha sérias dificuldades em arranjar algum Senhor Feudal. Lá, a terra seca e deprimente oprimia as sementes mais animosas, que desditosas caiam exânimes, combalidas a um futuro incerto. O calor era insuportável. As flores não queriam nascer. As árvores que se atreviam a erguer seus galhos, como aquele que protege os olhos dos raios do sol ofuscante, tentavam atenuar o clima escaldante e produzir um pouco de sombra, mas tinham seus galhos ressecados e suas folhas eram raras. Os passarinhos voavam a procura de uma brisa fresca, mas além das montanhas, os deuses bafejavam o hálito quente com desdém. A vegetação amarelada que ainda resistia era intensamente disputada por reses esqueléticas e pequenos animais de hábitos noturnos. Há anos nenhuma Fada ou Anjo Bom havia sido visto por aquelas bandas. Ali um dia, a Miséria fora morar e trouxera consigo seus amigos a Fome e a Mesquinhez. Moravam no alto do morro, de onde tinham uma visão privilegiada. Pessoalmente elas iam de casa em casa e embruteciam os homens, tornando-os rudes e feios. Deleitavam-se com o choro das crianças e se vangloriavam das marcas que causavam nas pessoas.

João Pedro e Maria José, um casal abastado para o local, pois tinham uma vaca, a Mansinha, e algumas galinhas, viviam para o trabalho e apesar da falta de perspectivas do local, tinham um sonho. Imaginavam a felicidade total quando finalmente chegasse o rebento, a criaturinha amada que completaria a harmonia daquele casal. Anos e anos tentaram em vão, até que, quando não imaginavam mais serem capazes, pois a idade pesara sobre seus corpos, Maria José que andava meio esquisita, decidiu sem que esposo soubesse procurar ajuda. Rubens, meio médico meio curandeiro, após alguns exames deu a notícia malicioso. Seria para a próxima primavera.

João Pedro há muito não sorrira tanto. Era só contentamento. Invariavelmente após a boa nova era pego enrolando o bigode esverdeado com a ponta do indicador e dando um sorriso venturoso. Com suas próprias mãos tratou de fazer um belo berço de madeira, enquanto Maria José costurava a roupa do bebê. Ele observava os cabelos grisalhos de sua amada, o rosto sofrido cheio de manchas fruto de tanta luta, mas não deixava de amá-la mais e mais.

Nesta época o Orgulho veio visitar a Miséria. Não eram lá grandes amigos, até por isto, ele preferiu ir dormir em outro lugar. Como as condições daquela terra esquecida não eram muito boas, preferiu permanecer na residência do casal venturoso. Uma vez lá dentro, estendeu sua grande tenda da desfaçatez, espalhou a empáfia, cultivou a ostentação e disseminou a presunção. Tais eram seus tentáculos e tão férteis eram seus apelos que não tardou para colher seus frutos. Primeiro, o casal se isolou em sua alegria. E como a alegria na terra da miséria é um item em escassez, trataram de mantê-la só para si. O mundo para eles ganhara um sabor diferente, nada mais justo que senti-lo até o fim. Seus parcos recursos assemelhavam-se-lhes a uma riqueza sem tamanho. A sorte que batera em suas portas era-lhes um privilégio único, um prêmio dado apenas aos escolhidos , as melhores e mais distintas pessoas daquele feudo. Começaram a se sentir figuras destacadas e diferentes dos demais.

O tempo passou e o Orgulho que a princípio passaria apenas alguns dias decidiu ficar por uma temporada. Ele se afixou àquela família e nela decidiu se concentrar. Dispôs todos os seus recursos para dela não mais sair.

A barriga de Maria José cresceu bastante. Era pontuda, dava aflição até de se ver. A natureza a embelezou. Era propulsão gigantesca de hormônios, uma sinergia estupenda para ajudar a nova vida. João Pedro deixou o trabalho mais pesado para se dedicar a ela nos dias derradeiros. Deu-lhe todo conforto que podia dar. Qualquer afazer doméstico fazia de bom grado. O marido alisava sua calva e era incansável em seus caprichos. Maria José, mão direita na barriga, a esquerda ancorando as costas, se deleitava em seu sorriso incompleto.

Nesta época a Felicidade estava a passeio e passou por aquelas bandas, cavalgava em seu cavalo branco acompanhada dos brilho cintilante das estrelas. Mas ela viaja rápido, não fixa residência e não dá liberdade a qualquer um. Também não a fez questão de ficar por ali. Ademais a tenda levantada pelo Orgulho camuflou aquele embrião de transformação e ela se foi.

O dia do nascimento da criança foi dramático. Dona Cida, a parteira, mãe por reconhecimento de setenta e cinco filhos, foi chamada. Por toda gravidez imaginou as dificuldades daquele parto. Maria José corria riscos e a criança também. A dedicação de algumas pessoas superam suas fragilidades e imbuída da força de alguém superior concretizou seu trabalho. Com as mãos sujas de sangue e placenta segurou a criança escorregadiça. Maria José em prantos já esquecia de suas dores queria ter logo o filho entre seus braços; João Pedro não sabia o que fazia e desajeitado dava ordens desencontradas para a Parteira que acostumada, nem as ouvia. Mas a criança não chorou. Dona Cida deu uma palmada no bumbum do nenê e nada. Nenhuma reação. O casal arregalou os olhos atônito. A seguir veio outra palmada e nada. O nenê tinha grandes olhos de jabuticaba abertos e parecia olhar ao redor. Outra palmada e o ele não se manifestava. O casal chegou bem perto do filho e desanimados já esperavam o pior. Dona Cida não se deu por vencida e mais uma vez marcou seus dedos na bunda do pobre menino. Desta vez ele contraiu seu rostinho sujo e começou a chorar. Todos então deram vivas e se abraçaram. Beberam vinho trazido de terras distantes que custara algumas das melhores galinhas do João. O garoto chorou um choro interminável. Quando beberam o último copo ele ainda chorava. A Parteira foi embora com prazer do trabalho realizado e a criança não dava tréguas. Chorou três dias e três noites. Os vizinhos estranharam aquele choro constante e as velas no interior da casa que nunca se apagavam na madrugada. O casal nunca mais foi visto fora de casa, mas de qualquer forma ninguém se intrometeu, afinal o casal era muito orgulhoso. No romper do terceiro dia a criança silenciou e nunca mais soltara sequer um suspiro.

A dispeito do ocorrido, deram-lhe o nome de Felício. Teve uma infância silenciosa mas cheia de zelos por parte dos Pais. Deram-lhe o que havia de melhor, mas não perceberam que ao cair da tarde, quando a temperatura era mais amena, o Orgulho brincava de roda e lhe cantava cantigas para ninar. A Miséria quando visitava o casal venturoso, tirava seus andrajos e cobria-se de cambraia amarela. A Pobreza travestia-se da aparência e a Mesquinhez maquiava-se com o cinismo da ilusão. Todos os dias se revezavam os amigos do Orgulho, trazendo presentes e conselhos que sempre inundavam o ego do jovem rapaz.

João Pedro morreu enquanto dormia em uma madrugada abafada. Maria José só percebeu pela manhã. Todos os dias o esposo acordava muito cedo para tirar o leite da Mansinha, mas naquela manhã estava paralisado, deitado de lado e gelado. Teve um sepultamento discreto acompanhado pelo Padre e alguns coroinhas. O adolescente Felício mudo não verteu nenhuma lágrima, mas ninguém percebeu que seus amigos de ciranda que o consolavam. Dois anos depois Maria José se uniu ao marido depois de um mês de muito sofrimento devido ao mal de chagas. Felício olhava para frente e quando saiu do cemitério nunca mais retornou ali. De uma vez por toda, chamou todos os seus amigos para morarem consigo. Assim desceram do morro a Miséria, a Fome, a Pobreza e a Mesquinhez e se juntaram ao Orgulho juntamente com suas primas, a Empáfia, a Desfaçatez, a Presunção e a Ostentação. Viveram alguns anos sem serem importunados até que um dia, O Rei estava de passagem por aquelas bandas e um acontecimento fantástico mudou a vida de todos.

(Continua...)

Almeida Ricá
Enviado por Almeida Ricá em 26/08/2009
Reeditado em 28/08/2009
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