Alzheimer
Alzheimer
Cardoso I
O retrato estava ali, sempre no mesmo lugar, na mesinha ao lado da poltrona, como um amuleto contra o esquecimento. Helena segurava a moldura com as mãos trêmulas, os olhos cansados fixos na imagem do jovem de sorriso leve e olhar radiante. Era assim que ela lembrava de Miguel, seu filho.
Todos os dias, antes do café da manhã, ela pegava o retrato e passava os dedos enrugados sobre o vidro, como se pudesse tocar seu rosto. Falava com ele, contava sobre o tempo, as flores que desabrochavam no jardim e os sonhos que, cada vez mais, se tornavam embaçados. O Alzheimer avançava como um ladrão sorrateiro, apagando pedaços da sua história.
No início, eram apenas esquecimentos banais – onde deixara os óculos, o nome da vizinha que lhe trazia pão fresco. Depois, os dias passaram a se misturar, os rostos a perder nitidez, e as palavras fugiam antes de serem ditas. Mas Miguel, não. Miguel ainda estava ali, guardado no retrato e na memória insistente de mãe.
Até que um dia, o vazio se tornou maior. Helena olhou para a fotografia e não sentiu nada além de um estranho aperto no peito. O sorriso do jovem não lhe despertava lembrança alguma. Quem era ele? Por que suas mãos tremiam ao segurá-lo? Ela tentou escavar dentro de si, alcançar qualquer vestígio daquele rosto, mas encontrou apenas silêncio.
Naquela noite, deitou-se na cama, o retrato ainda entre os dedos frágeis. Uma lágrima solitária escorreu por seu rosto enrugado. O peso do esquecimento era cruel, implacável. Ela fechou os olhos, sentindo o frio do vidro contra sua pele, e dormiu. Dormiu sem saber que, em algum tempo distante, aquele homem já fora o seu mundo.