Motel Afrodite
Motel Afrodite
Cardoso I.
No coração da cidade, entre esquinas anônimas e letreiros ofuscados pelo tempo, erguia-se o Motel Afrodite. Um refúgio de amantes, um santuário de segredos. Lá dentro, sob a penumbra das lâmpadas vermelhas, Carolina e Miguel tornavam-se outros.
Carolina chegou primeiro, como sempre. Sentou-se na beira da cama, ajeitando os cabelos no espelho. O perfume doce misturava-se ao cheiro de lençóis recém-lavados. Logo, a porta se abriu.
— Você demorou. — Ela disse sem se virar.
— O trânsito. — Miguel sorriu, fechando a porta. — Mas eu vim.
Ela se levantou, aproximando-se devagar. O olhar de ambos era de reconhecimento e estranheza, como se a cada encontro precisassem reaprender um ao outro. Quando os lábios se tocaram, o mundo de fora desapareceu.
Naquele quarto abafado, os minutos corriam diferentes. Entre beijos urgentes e risos abafados, deixavam para trás a rigidez do dia a dia. Ele esquecia o peso dos compromissos, ela abandonava as amarras da rotina. No Afrodite, eram apenas eles, dissolvidos no prazer de existir sem passado ou futuro.
— Já pensou em como seria lá fora? — Carolina murmurou, a cabeça apoiada no peito dele.
Miguel suspirou. — Sim. Mas e se estragar? Aqui, tudo é perfeito.
Ela sorriu, sem responder. Ambos sabiam a resposta.
O relógio piscou o aviso silencioso do tempo findando. Levantaram-se, vestindo-se sem pressa, mas sem hesitação. Ele arrumou a gravata no espelho, ela deslizou o batom nos lábios.
— Até quando? — perguntou ela, já perto da porta.
— Até o próximo encontro. — Ele sorriu, estendendo a mão para abrir a porta.
Do lado de fora, eram estranhos outra vez. A cidade os engoliu sem perceber, cada um seguindo caminhos opostos, como se nunca tivessem se encontrado. Mas, em algum momento, sob as luzes bruxuleantes do Afrodite, eles voltariam a ser o que realmente eram: dois amantes sem passado e sem amanhã.