CONJUNÇÃO DE SORTE MÚTUA

Depois da partida de Seu Otacílio a vida de Leonora se transformou num eterno vazio, afinal cinco anos de dedicação integral no trato do Câncer de próstata que associado aos males que o Alzheimer fazem com uma pessoa, só quem está ali cotidianamente ao lado pode definir.

A experiência do home care foi frustrante, as supostas técnicas eram analfabetas em relação ao trato com equipamentos, erravam doses de medicamentos, atrasavam, faltavam. Em comum gostavam mesmo de comer, dormir e principalmente se encantarem com as luzes do celular. Resumo da ópera, ficou com os equipamentos da empresa em casa, e passou ela mesma a operar tudo, agora sem estresse.

O transcorrer de sua existência sofreu uma espécie de congelamento, e toda sua energia se voltou para aquela pessoa especial, que foi sempre um amoroso e dedicado provedor, apreciava e como! Estar sempre ao seu lado. Adorava caminhar de mãos dadas pelo calçadão de Copacabana, aproveitando aquela amena brisa noturna refrescando corpo e alma, permitindo um relaxamento, que se aproximava muito daquela sensação de liberdade que o período de férias permitia anualmente.

Esses passeios serviam para atualizar tanto vivências de quem fica em casa, como também as intercorrências do dia passado no escritório de advocacia, muitos casos que Leonora gostava de opinar, para quem sabe assim, dar um toque feminino às futuras decisões do marido.

A caminhada invariavelmente terminava ali no Bob’s da Rua Domingos Ferreira, onde ambos saboreavam um sundae pequeno de creme, com calda de chocolate e castanhas moídas, considerado por ambos o melhor sundae de Copacabana.

Agora, nem mais o Bob’s servia de lembrança desses dias de tanta felicidade a dois, substituído que fora recentemente por mais uma filial de uma conhecida cadeia de restaurantes cariocas.

Sem parentes na cidade, até mesmo amigas que antes faziam juntas atividades culturais não retornaram mensagens enviadas por Whatsapp, começava a ficar difícil esse convívio consigo mesma. Passou a almoçar fora, em lugares diferentes, todos os dias, afinal Copacabana é uma história sem fim, se o objeto é gastronômico.

A saída para um impasse às vezes surge de uma forma inesperado, a dica partiu do porteiro da manhã, Seu Aloísio, um nordestino baixinho, cabeça chata que já trabalhava no prédio, quando ela para lá se mudou há trinta anos. Veio dele o comentário de que alguns moradores, por motivos diversos estavam alugando quartos, um novo modismo no prédio, só soube repetir o nome da empresa que se incumbia de conseguir interessados, parecia de língua estrangeira, recebendo uma percentagem sobre o valor acertado.

Uma propaganda da empresa na televisão acabou despertando de vez a atenção de Dona Leonora. Na hora de preencher o cadastro do Airbnb, incluiu além da suíte com vista para o mar, três refeições se o cliente assim desejar. O amplo apartamento de três quartos com vista lateral para o mar na Rua Bolívar não demorou muito tempo vago.

O primeiro interessado foi um estudante de medicina goiano, que já morava no bairro, e se encontrava descontente com a bagunça generalizada da república, onde dividia custos com mais seis colegas de turma. Deslumbrados com as possibilidades que a cidade grande, promoviam festas com assustadora frequência, impedindo Lúcio de se concentrar nos estudos, ou até mesmo curtir em silêncio, o tal do ócio criativo.

Para ele efetivamente dinheiro era solução para seus problemas, como estudava em universidade pública, seus pais reverteram a mensalidade da medicina em uma gorda mesada.

Dona Leonora, gostou do jovem, que fez questão de se dizer estudante de medicina, portanto, precisaria de paz e silêncio para de dedicar à faculdade. Ela ficou impressionada com a quantidade de livros que trouxe com a pequena mudança. Ele fez questão de explicar que seu relaxamento passava obrigatoriamente por leitura. Descontraia com o passar das histórias pela mente, sem perceber a ação mecânica de mudança de página. Outro momento de terapia da leitura acontecia quando se aproximava o período de provas, dava um tempo na matéria do teste, e se acalmava com alguma leitura leve.

Dona Leonora que não tivera filhos, abrigava agora em casa o filho já crescidinho, e que servia de companhia nas refeições e estava à disposição para buscar alguma necessidade premente, um remédio ou componente que faltara para o preparo do almoço.

Nos dias de maior permanência na faculdade ela se incumbia de preparar um lanche reforçado e sugeria para que evitasse comer na rua, pois prepararia uma jantinha especial para comerem juntos.

Não demorou muito para que seus pais quisessem matar a curiosidade, e conhecer onde morava, e claro, conhecer Dona Leonora, essa senhora constantemente citada pelo filho.

Quando ele avisou da futura visita dos pais, ela alegou que ficaria magoada, caso não se hospedassem juntos, afinal se vieram conhecer o apartamento e sua proprietária, porque não conviverem nesse curto período.

No dia anterior a chegada dos pais de Lúcio, os dois partiram em direção ao supermercado, para comprarem mantimentos e receberem as visitas em grande estilo. Para aumentar a privacidade dos pais, ela sugeriu que ele se transferisse para o quarto sem banheiro, liberando a suíte.

Ninguém poderia imaginar que assim, sem mais nem menos, Dona Leonora ganharia companhia com tantas trocas e gentilezas. Por outro lado, toda expectativa dos problemas inerentes a uma cidade grande, que Lucio enfrentaria foram praticamente eliminados.

Os três dias passados no Rio pelo casal, dirimiram qualquer dúvida sobre a qualidade de vida do herdeiro, agora eles passaram a ter ligação direta com a tutora do Lúcio.

Afinal, essa relação sem parentesco não podia ser melhor, num trato entre ambos, ficou pactuado que ela informaria qualquer problema ou demanda especial a Lucio, que em compensação detalharia seus passos, avisando sempre antecipadamente qualquer alteração de roteiro.

Devido a problemas generalizados no condomínio, ou seja, festas até altas horas, excesso de gente em apartamentos e até um caso de furto em um apartamento no final de semana, com os moradores ausentes gerou um clima de insegurança no prédio.

A síndica, Dona Lurdinha, resolveu tomar uma medida radical, aclamada na última reunião dos moradores, a medida proibia esse aluguel diferenciado e dava o prazo limite de uma semana, para que todos não moradores deixassem o prédio.

Todo mundo conhecia a relação da viúva com o estudante, mas não poderia haver exceção, a regra recém instituída devia ser cumprida.

A única saída para a permanência de Lúcio seria a judicialização do caso, e foi isso que os pais dele, ambos advogados, impetraram mandato na justiça, e aguardam com certo temor a sentença a ser proferida pelo juiz.

Alcides José de Carvalho Carneiro
Enviado por Alcides José de Carvalho Carneiro em 28/03/2025
Código do texto: T8296304
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