O chute na tomada
Bueninho era o vocalista da banda 'Impunes'.
Ele saiu do metrô na estação Liberdade, a caminho da Rua da Glória.
Faltavam sete minutos para as treze horas.
Logo chegou ao portão do prédio em que moram Zími e MIla Cox, que juntos são a banda Crop Circles.
Era um trajeto curto, onde ele pensou em como algumas influências musicais deles podiam ser identificadas.
Mas eram influências obscuras, e eram numerosas também.
Muitas delas poderiam ser mais populares do que são, mas estão fora do radar das massas, e era isso que o atraía.
As letras de Mila Cox e Zími eram muitas vezes em inglês, por opção estética, e embora fossem simples, conseguiam não apenas ridicularizar a sociedade, como também apresentar verdades incômodas.
O estado sendo uma doença que se apresenta como cura, a igreja fazendo lavagem cerebral nas massas através do medo e outros assuntos que a essa altura ainda são tabus.
A simbiose entre eles era apenas musical. Cada um tinha e prezava loucamente por sua individualidade.
Mila Cox parecia uma jovem Lydia Lunch, e Zími lembrava um Slim Jim Phantom de quase cinquenta anos.
Bueninho tem dezenove anos.
Ele foi chamado porque Zími viu o clipe feito para o primeiro single que a banda 'Impunes' tinha lançado recentemente.
Musicalmente, aquilo era o som do álbum 'Metal Machine Music', com algumas intervenções vocais e instrumentais por cima.
Se fosse lançado em 1976 ou 1977, seria vanguarda.
Mas o que agradou a Zími foi que o vídeo começa com um cachorro caminhando em direção a uma parede, então levanta a pata, e mija sobre uma tomada, causando um caos apocalíptico, com imagens de centenas de pessoas em desespero, explosões, destruição em massa, e um diabo cristão interpretado por Bueninho, que gargalhava de maneira esquizofrênica..
No dia em que foi à casa dos Crop Circles, Bueninho vestia uma camiseta do New Model Army e levava um carrinho com uma bolsa térmica cheia de latas de cerveja.
Ele havia tentado beber destilados com Zími com Tito, baterista da banda Provetas, depois de um show que aconteceu em Avaré, no dia em que se conheceram.
As três bandas haviam tocado no evento.
Bueninho deu um vexame horrendo, e desde então, o pouco que se lembrava do episódio era suficiente para deixá-lo completamente deprimido.
Na madrugada seguinte ao evento, ele acordou pelado, enrolado numa toalha, no sofá de uma casa em que nunca havia estado antes.
Todos na casa dormiam, com as portas dos quartos fechadas.
Ele ouvia roncos e televisão ligada.
Ele não encontrava suas roupas e documentos.
Nunca se sentiu tão ridículo.
Algum tempo depois, quem saiu de dentro de um dos quartos foi Tito.
Tito contou que Bueninho saiu bêbado no meio de uma conversa.
Pensaram que ele tinha ido mijar e logo voltaria.
Como Tito era da cidade e também estava bêbado, voltava a pé para casa e viu Bueninho deitado no chão de um posto de gasolina que estava fechado. Acordou-o e o levou para sua casa.
Tito havia chamado as bandas e ajudado a organizar aquele festival, realizado numa casa onde funcionava uma sociedade de amigos do bairro.
E agora, enquanto subindo naquele elevador, Bueninho sentiu certo nervosismo, pensando se seria ou se já estava sendo motivo de chacota pela sua bebedeira.
Ao sair, viu Zími praguejando na sala do apartamento, que estava com a porta aberta para o corredor.
Aquela visão mostrava a ele alguém com uma vida bem diferente da sua.
Mas acima de tudo, mostrava a Bueninho que eles eram na vida cotidiana o mesmo tipo de gente que eram quando saíam para tocar.
A embriaguez de Zími ainda não era aguda, e ele estava desenrolando um monólogo.
Enquanto gesticulava para que Bueninho entrasse, Zími dizia:
"O diabo cristão nunca vai ser tão horroroso quanto algumas pessoas com as quais ainda preciso lidar de vez em quando. Um tipo que eu sei que existe, que não precisam e nem deveriam fazer parte do meu convívio social. Se eu saio pra comprar cigarros a cinquenta metros desse prédio, essa saída rápida pode se tornar uma epopéia, apenas porque pessoas me abordam gratuitamente. Seria glorioso poder evitar. Ainda não sou livre a esse ponto. Ao longo da minha vida, a pior parte da luta era quando me interrompiam enquanto eu estava tentando virar o jogo. As pessoas conseguem estragar tudo, só por estarem no meio do caminho. Algumas vezes foi preciso abrir mão de certas coisas materiais, pra que junto delas eu me livrasse de certas pessoas. De um modo geral, as pessoas tem um potencial enorme pra estragar tudo. Estão condicionadas a isso. São patrulhas ideológicas e comportamentais. Sempre tive atração pela decadência, mas quando falo sobre isso, preciso explicar para não ser mal interpretado. Eu sei que um artista, por exemplo, precisa melhorar com o tempo. No rock, ele pode estar melhor como músico depois de envelhecer, e será chamado de decadente. Ele pode, quando jovem, produzir algo de acordo com sua idade, mas se suas temáticas forem juvenis, ele terá que se adaptar ao envelhecimento. Caso contrário fará papel ridículo e se mostrará realmente decadente. Muitas vezes será lembrado pelos hits antigos. Mesmo tendo lançado grandes álbuns mais maduros, muitas vezes essa evolução é completamente ignorada. Odeio a palavra 'amadurecimento' quando usada pra pessoas que envelhecem. Há também muitas que pioram com o tempo. Mas esse tipo de suposta decadência artística em que o artista continua produzindo mais e melhor, e mesmo assim as mídias ignoram, ah, esse tipo me interessa. Muito mais do que a decadência dessa sociedade podre, onde a qualidade humana só deteriora."
Zími estava completando quarenta e oito anos naquela sexta-feira, e a sua banda, Crop Circles, não tinha show marcado no fim de semana.
Sua parceira musical Mila Cox já dizia que estavam num hiato de shows.
Tinham músicas novas que nunca haviam sido tocadas ao vivo.
Ela disse para Zími que o aniversário dele deveria servir como um motivo a mais para tocarem naquele dia, ou no dia seguinte.
Parece ter ficado brava e foi para a janela.
Olhou para a rua, e bastaram dois minutos para lembrar exatamente porque estava ali.
Virou-se de volta à reunião e ficou quieta.
Então eles não marcaram show porque estavam na festa de Zími, no apartamento de sessenta metros quadrados que ele dividia com Cox e Zími repetiu várias vezes que dizia para sua mãe que nunca chegaria aos trinta anos de idade.
Olhando para Mila Cox, Zími falou:
"A parte mais louca é que se eu olhasse quando tinha a sua idade pra quem eu sou agora, muitos anos depois, acho que ficaria feliz, apesar de tudo. Foi uma vida que eu mesmo considero errante. Meus pais achariam pior ainda, então está tudo certo. O que eles queriam que eu me tornasse é aquilo que nós criticamos na música e na vida."
O ambiente parecia o camarim que Zími idealizou para usar sempre que fosse tocar, onde quer que fosse.
Não havia deslumbramento,nem luxo. Havia um padrão utópico.
Janela grande, banheiro, refrigerador, controle sobre quem entra e sai. Os camarins nunca eram assim. Eram geralmente improvisados e precários.
Mas o que interessava mesmo é que agora ele tinha um lugar decente para viver.
Zími estava morando num armário localizado no corredor de uma pensão perto dali, porque estava sem computador para exercer o trabalho de copywriter, que agora paga suas contas.
"Havia naquele lugar um cara que limpava a bunda com sabugos de milho, e os atirava na casa vizinha, causando uma série de problemas."
Essa era uma das histórias que ele repetia muito.
Mila Cox também vive do trabalho de copywriter.
Ser baixista e vocalista dos Crop Circles não lhe dá lucro e nem prejuízo financeiro.
Na sala do apartamento também estava Lola, que é baixista e toca na banda Main Drags
Foi ela quem pediu para que Bueninho levasse cerveja, mas àquela altura estava tomando vodka com suco de maracujá com Mila Cox, enquanto Zími e Silvano tomavam rum com limão e hortelã.
Silvano é o vizinho uruguaio que mora no apartamento ao lado.
Ele é um guitarrista que tem uma Kombi para fazer carretos e poder pagar as contas, e também para transportá-los em dias de show,quando geralmente também se apresentava, fazendo uma mistura de punk rock, blues e rock a billy.
A nuvem de maconha ali era tão intensa que teria disparado qualquer alarme contra incêndios que estivesse numa distância razoável.
Bueninho pensou: "Meu Deus, como eles aguentam? Devem cheirar pó no banheiro pra aguentarem!"
Na frente dele, Silvano mostrava perícia manuseando a faca para cortar hortelã e fazer os drinks que bebia com Zími em copos grandes.
O problema alcoólico de Bueninho depois do show em Avaré não havia sido mencionado.
Duas semanas haviam se passado, e no fim de semana anterior, a banda de Bueninho tocou em Santo André sem que ele bebesse nada de álcool.
Ele gostava de beber, mas havia descoberto isso há pouco tempo, e não tinha o vício da bebida.
E morava com os pais, que eram advogados, e repudiavam a idéia de Bueninho levar música mais a sério do buscar uma carreira acadêmica.
No ano anterior, ele havia concluído o ensino médio a duras penas, e não conseguia se ver novamente sentado num banco escolar.
E era ainda mais desesperador imaginar uma vida nos moldes que seus pais planejavam para ele.
Isso era o que ele sabia que não queria, muito antes de conceber algum caminho viável para sua vida.
É claro que havia a opção de mandar tudo às favas, arrumar um emprego, alugar um lugar para morar, e se ainda houver tempo e energia, seguir com a música.
Ele pensava nisso todos os dias.
Bueninho não é um instrumentista, não sabe ler música, canta apenas músicas que sua voz pequena permite, e sua banda, formada por mais três jovens com problemas similares aos dele, tinha apenas um single lançado na internet.
Além disso, largaram-no no interior quando ele ficou bêbado depois do show e acabou sumindo na cidade.
Então ele foi à geladeira pegar mais uma cerveja e quando virou-se de volta, Zími estava de pé e, quase exaltado falou:
"A vida tem que começar de verdade em algum momento. É preciso tirar o band-aid. A minha vida já terminou e recomeçou várias vezes pra que eu não cumprisse o que dizia pra minha mãe sobre não passar dos trinta anos. Um dia, quando eu morava numa pensão abandonada, dormia num armário fodido no corredor, eu passei aqui perto, descendo a Brigadeiro Luís Antônio, voltando pra casa, com o saco cheio da vida, cansado da rua e cansado do lugar em que eu morava, e então passei pela praça e havia no centro dela uma tenda armada, e havia um evento religioso.
Passei olhando o evento cheio de som e luzes, e do nada, chutei algo sem querer e, simultaneamente, as luzes do culto piscaram e se apagaram. O gerador de luz era a bateria de um carro estacionado na calçada ao redor da praça. Continuei andando, num sentimento que era um mix de vergonha e perplexidade, enquanto cerca de oitenta pessoas olhavam pra mim, também parecendo perplexas. Eu andava e eles olhavam. Virei pra frente, segui o caminho até sair do campo de visão do grupo. Quando já estava numa padaria perto de casa pra usar o wi-fi, acendi um cigarro e não havia ninguém me seguindo. Depois de fumar, entrei na padaria, e havia uma mensagem da Cox me convidando pra tocar bateria num experimento musical caseiro que ela estava tramando. Ela morava na Penha, com a mãe e a avó, estava com o saco cheio e queria se mudar dali. Então nos juntamos pra pagar o aluguel desse apartamento. Tive que fazer um empréstimo, que depois me sugou até o tutano, mas já está quitado. Precisei comprar um computador e outras coisas. Mudamos pra cá, trabalhando em casa e saindo pra tocar. O momento satisfatório que vivo agora custou. Um dia contei a história do chute na tomada pro Falkner, o porteiro daqui do prédio que te anunciou no interfone. Ele disse que certamente aquele episódio libertou pelo menos meia dúzia de ovelhas daquele pastor, mesmo que tantas outras tenham ficado sob o domínio dele. Não chegamos a uma conclusão sobre a relação desse episódio com o fato da minha vida ter mudado a partir de então. Pode ser coincidência também. Mas aconteceu. E você precisa fazer alguma coisa também. Aquele clipe que vocês gravaram pode ter sido decisivo. E hoje é melhor você dormir nesse sofá pra não chegar bêbado em casa. Sei que ainda não está bêbado, mas provavelmente vai ficar, e deve evitar atritos na sua casa. Saia de casa de vez antes que atritos mais sérios surjam."
Mila Cox foi até Bueninho, dando-lhe um copo grande de vodka com suco de maracujá.
Ela falou:
"Já que não tem show e estamos aqui, tome esse drink e deixe a cerveja pro café da manhã."
As horas se passaram com Bueninho anotando nomes de bandas e ouvindo conversas sobre música alternativa e anarquia.
Acordou no sofá na manhã seguinte sem se lembrar do momento em que adormeceu. Ninguém mais ali parecia ter dormido.
Para o terror de Mila Cox, que é vegana, Zími e Silvano fritavam quantidades astronômicas de bacon e continuavam com as bebidas fortes.
Bueninho foi até a geladeira e as cervejas ainda estavam todas lá.
Ele quase morreu de tristeza ao recusar as fartas porções de bacon oferecidas por Zími, porque estava apaixonado por Mila Cox e não queria decepcioná-la.
Inclusive mentiu a ela dizendo que também era vegano.
Não iria jamais contá-la que estava apaixonado, mas mesmo assim preferiu manter alguma chance, apelando para a questão do veganismo por ter sido a primeira que surgiu.
Sua autoestima era extraordinariamente baixa, e ele montou uma banda para tentar melhorar essa condição.
Passou todas aquelas horas longe da tela do celular, e o lado ruim disso, é que iria sofrer opressão ao voltar para casa.
Começou a pensar em sair de casa e largar a banda para tocar sozinho, com um teclado Casio que compraria usado.
Arrumaria um emprego tosco, só pelo salário e pela revolta, que seria canalizada através de músicas contra o sistema.