EM TRINCHEIRAS OPOSTAS...

EM TRINCHEIRAS OPOSTAS...

O dia amanheceu com ar de festa, a ansiedade no ar, o pai das jovens fazia aniversário... a mãe na cozinha se esmerava no preparo de doces e assados e as 4 moças enfeitavam a modesta sala, onde o almoço festivo se daria, dali a poucas horas. Lá pelas 10 batem na porta... suspense no ar, as vizinhas sempre entravam -- sem a menor cerimônia -- pela porta dos fundos, amigas antigas da mãe.

Abrem e a surpresa constrangedora se apresenta: a quinta irmã, "Lelé", que decidiu morar sozinha -- ainda solteira, um escândalo nos anos 70 -- devido às constantes rusgas com sua irmã mais velha, "Lulu".

-- "Então, você veio ! Julguei que não tivesse coragem, exclama "Lalá", por coincidência a amiga maior da "renegada", da trânsfuga que virara as costas a família.

-- "Então, você veio ?! Achei que não viria... é muita coragem de tua parte, ninguém te quer aqui" !, bombardeia Lucy, recomeçando a antiga "guerra" entre ambas.

-- "Não perderia isso por nada deste Mundo, sua bruxa" !, retruca "Lelé", devolvendo o "obus" lhe lançado pela mana.

-- "Atreva-se a se meter comigo e vais ver o que te acontece" !, elevando o tom de voz e preocupando as 3 jovens espectadoras.

-- "Acho bom "ficar na sua" ou eu acabo com essa festa" !, "metralhou" Léia, disposta a defender seu lugar na casa.

A tímida Laís entrou na conversa para defender sua irmã corajosa, que ela admirava pelas atitudes, secundada pelas vozes aprovadoras das irmãs "do meio", Lina e Louise, todas temendo a prepotente Lucy:

-- "A Léia tem direito a estar aqui, todas nós achamos isto" !

-- "Pois ela que se comporte direito ou a ponho na rua a vassouradas" !

Nisso o pai, que dormira até tarde, surge na sala e surpreende o "bate-boca" das inimigas figadais:

-- "Lelé, querida, que prazer te ver... é impressão minha ou vocês estão discutindo de novo" ?!

-- "Nem todos aqui têm o mesmo prazer, papai... aliás, nem todas" !, e fuzila "Lulu" com olhar mortal.

-- "Pois é, nem todos são bem-vindos, aliás nem todas" !, os "mísseis" voando de um lado para outro, parecendo Israel e Palestina.

-- "Só estávamos debatendo onde as flores ficam melhor... "Lelé" discorda de tudo, claro" !

-- "Claro, senhora dona Lucy, a "lelé" aqui é você" !

O pai sai, amuado, gosta das duas e não quer tomar partido. O dia avança e a discussão continua incansável entre ambas. A mãe tenta "dar um basta" na situação, esforço inútil. Antes tivesse ignorado.

-- "Ora, ora, dona Angelina, o seu "anjinho" aqui me disse que a senhora é frouxa, não tem pulso com as vizinhas" !, solta a "Bomba H" a maldosa "Lulu".

-- "Serpente miserável, sua traidora sem caráter" !, protesta "Lelé", tendo percebido o efeito devastador da revelação no coração da mãe.

-- "Minha filha, que absurdo, são todas elas minha amigas de infância, crescemos juntas, são quase "tias" de todas vocês. Amigos dão sentido à Vida, é preciso relevar uma coisa ou outra para mantê-los perto de nós. Não se trata de covardia mas de diplomacia" !

O clima de festa findou ali, algumas teriam visto 2 ou 3 lágrimas nos olhos da mãe. Após o almoço e, cantado o "PARABÉNS", "Lelé" e "Lulu" disputaram no tapa a posse da espátula de cortar o bolo.

-- "Sou a mais velha, o direito é meu" !

-- "És a mais sonsa... sou a filha predileta dele" !

A mãe toma na marra a peça de metal, irritada:

-- "O marido É MEU e o direito também... agora, sentem e não quero ouvir 1 pio de nenhuma das duas ! Meu velho, FELIZ ANIVERSÁRIO... e que Deus traga PAZ a esta casa" !

"NATO" AZEVEDO (em 11/out. 2023, 8hs)