A COBRA PRETA QUE MAMA EM MÃES LACTENTES

A COBRA PRETA QUE MAMA EM MÃES LACTENTES

LENDAS AMAZÔNICAS

Autor: Moyses Laredo

Talvez você já tenha ouvido dessa história que os nordestinos trouxeram na bagagem cultural de lá de suas plagas e adaptaram-na para os Seringais da Amazônia.

Assim começa a tal cantilena. Quando uma mãe, nos seringais ou palhoça no interior da Amazônia, morando no beiradão dos rios, dorme candidamente deitada na rede, com uma das pernas ainda de fora, embalando-se a bom a cantar um ninar, enquanto dá de mamar ao bebê, na quietude dos ruídos da mata, quando inesperadamente então surge uma cobra se esgueirando sorrateiramente, experimentando o ar com a língua bifurcada farejando feromônios em busca do aroma do leite materno. Se acerca da mulher, pelo punho da rede ou se retificando para se esticar e poder subir na rede ou cama, enquanto a mulher deitada cansada da lida não ouve e nem percebe nada. A cobra gentilmente afasta o pequeno do peito da mãe, enlaçando-o pela cabeça com seus fortes músculos lombares, num movimento lento sem levantar suspeita da mãe, para se alimentar do leite que ainda jorra do seio dela, ao mesmo tempo em que faz isso, enfia a ponta da cauda na boca do pequeno para que não chore, assim, sorve a quantidade de leite que sacia sua sede sem que a mãe se dê conta, depois, do mesmo jeito que veio, se vai.

O animal associado a essa lenda é a cobra-preta, (Pseudoboa nigra), popularmente conhecida como muçurana, mas que devido às histórias também é conhecida como cobra-de-leite, porque logo que se satisfaz com o leite fresco da mãe, assume a cor branca leitosa caraterística do leite. Alguns a confundem com a papa-ovo.

Não se trata de lenda, como dizem por lá, porque há casos que são relatados aos montes dessas ocorrências nos seringais. Um desses aconteceu lá no seringal onde Ariolina morava com sua mãe, ela já contava com os seus 8 anos, nesse dia se foram pra uma novena em outra colocação, partiram a pé por mais de duas léguas (oito quilômetros), depois da novena a paróquia oferecia uma jacuba de água fria com jabá(jacuba pode tanto se referir a uma receita de comida cujos ingredientes se alteram de acordo com a cultura regional e a contingência do lugar). Os regionais também aproveitavam para soltar o esqueleto (dançar forró) e conhecer alguém desimpedido para formar casal, vai de viúva a moça véia encalhada. As conversas nesses casos são sempre curtas e rasteiras, às vezes, se resumia num simples “qué morar mais eu?” se fosse aceito, já saiam encangados. As mulheres que tinham tido nenê novo, iam se deitar e dar de mamá para seus filhos. Tinha rede atada pra tudo que era lado do barracão, aí uma mulher foi ao quarto olhar sua amiga e o nenê quando viu que tinha uma enorme cobra preta enrolada na mulher mamando no seu peito. À meia luz do candeeiro não enxergou muitos detalhes e não querendo assustar a cobra, rodou no calcanhar e saiu, foi avisar o pessoal, quase ninguém acreditou nela, quando chegaram ninguém mais viu a tal cobre preta, e sim uma cobra branca da cor leitosa mas que estava de fato presa no bico do seio da mulher e o curumim com a cauda da cobra atolada na boca a bom chupar quietinho que fazia gosto de ver. Isso foi verdade testemunhado por muitas pessoas no local, disse a garota, - “eu nunca esqueci eu era menina todos ficaram com medo”.

O sistema digestório da cobra não está adaptado a essa alimentação, além da dentição, língua e estrutura óssea da boca não permitirem sucção, é o que dizem os herpetologista. Cientificamente isso se torna improvável que exista uma cobra que mame leite de peito.

Diz a lenda, que essa cobra preta misteriosa, tem poder de hipnotizar suas vítimas, especialmente crianças e mulheres lactantes. Ela se esconde nos rios e matas, aguardando o momento certo para atacar sua vítima, que às vezes descansa dentro da canoa que lhe serve de morada, principalmente aquelas que tem toldo. A cobra preta que mama, tem um apetite insaciável pelo leite humano, e é por isso que persegue mulheres que estão amamentando.

Conta-se que, quando uma mulher lactante é atacada pela cobra, ela é hipnotizada e fica paralisada. A cobra então se enrola em seu corpo e começa a sugar o leite diretamente dos seios da vítima. A mulher, incapaz de se mover ou gritar, é forçada a suportar a dor e o medo até que a cobra termine e desapareça na escuridão.

Algumas versões da lenda afirmam que a cobra preta que mama nasceu de uma mulher que foi amaldiçoada por ter abandonado seu filho recém-nascido. Outras versões já dizem que a cobra é o próprio bebê amaldiçoado, condenado a vagar pela terra em busca do leite materno que lhe foi negado.

Para proteger as mães lactantes e suas crianças, a população local costuma tomar precauções, como usar amuletos e rezar por proteção. Além disso, é comum acreditar que a lenda da cobra preta que mama traz um aviso importante sobre a necessidade de cuidar e proteger as crianças e valorizar o amor materno.

Segundo a lenda, a cobra preta que mama costuma atacar durante as noites, aproveitando-se do silêncio e da escuridão para se aproximar das casas onde mães e crianças dormem. Ela rasteja silenciosamente pelos cantos e frestas até encontrar seu alvo: uma mãe lactante e seu bebê.

A cobra, com habilidade e malícia, se aproxima do berço da criança e, cuidadosamente, insere a ponta de sua cauda na boca do bebê para impedir que ele chore e alerte a mãe ou outros membros da família. Com a criança silenciada, a cobra se aproxima da mãe adormecida e começa a sugar o leite de seus seios.

A mãe, alheia ao perigo que a espreita, continua dormindo, enquanto a cobra sacia sua fome com o leite materno. A serpente consegue realizar essa ação sem ser percebida, e quando termina, desaparece na escuridão da noite, deixando mãe e filho ilesos, mas com o susto da descoberta do ocorrido ao amanhecer.

Essa versão da lenda enfatiza a importância de proteger as mães e crianças das forças ocultas e perigosas que podem ameaçá-las. É um alerta para os pais e comunidades estarem sempre vigilantes e garantirem a segurança de suas famílias, especialmente durante a noite.

Como em outras lendas, as histórias são transmitidas de geração em geração e podem sofrer alterações e variações conforme a região e a cultura local. No entanto, o cerne da lenda permanece: a cobra preta que mama é um símbolo de perigo e malícia que serve como um lembrete para proteger e cuidar de nossos entes queridos.

Quem já não ouviu falar que algumas mulheres em fase de amamentação dizem que enquanto dormiam, a serpente se aproximava e introduzia sua cauda na boca do bebê, para que este não chorasse, se aproveitando para mamar no seio da mulher, conforme a serpente ingeria o leite sua coloração ficaria esbranquiçada.

Alguns visitantes afirmam (com testemunhos) que as crenças na lenda têm forte apelo e que algumas mulheres gestantes, ao verem uma muçurana, só conseguem ter sossego após o animal ser morto, com medo de que ele venha a “beber” seu leite materno. Não podemos esquecer de algumas características biológicas marcantes dessas serpentes como por exemplo: as serpentes não apresentam a enzima lactase para digerir o leite, além do mais nenhuma serpente é dotada das adaptações no crânio necessárias para realizar a sucção como fazem os bebês humanos (e de outros mamíferos).

Como e por que o leite provocaria a mudança na cor da pele da cobra? Conhece alguém que ganhou alguma manchinha branca por gostar de leite? O fato de algumas muçuranas possuírem coloração branca é devido ao albinismo que ocorre em alguns animais, não estando ligado à quantidade de leite ingerido.

Os mitos e lendas são testemunhos culturais ricos e não se sabe ao certo onde e por que surgiram da forma como ouvimos atualmente. Não se esqueça de pesquisar e conhecer a biologia do animal e a cultura de cada região, somente assim poderá compreender algumas raízes que cercam esses pensamentos!

Molar
Enviado por Molar em 29/05/2023
Código do texto: T7800722
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