Gracinda

O maior problema era ele. Sempre transportou, para onde o levou a vida, a grande incapacidade de senso comum, a incompatibilidade com os outros, o gosto por coisas caras, ambientes de luxo, raridades que passavam a ser determinantes do seu comportamento social. Muito inteligente e habilidoso, teve notas altas nos estudos e licenciou-se com distinção. Crítico, trocista, capaz de um humor venenoso, Miguel era um homem que não tinha amigos. Coleccionava sucessos profissionais, ganhava muito dinheiro, vivia em função do que tinha, do que poderia adquirir, de coisas por vezes tão supérfluas que de nenhum modo o preenchiam como pessoa. Nenhum esforço fazia para ser prestável, urbano, solidário. Um dia viu a que lhe pareceu ser o amor da sua vida. Apreciou-lhe a cultura, a alegria, o jeito de ser. Aproximou-se, exibiu-se, declarou-se. Esta mulher não estava à venda como as que teve antes, como as que repudiava sem piedade, como as que usava para deixar a seguir. E ele queria-a, pagaria o que fosse preciso para ter o seu afecto e, pela primeira vez, estava disposto a ceder em tudo, a suavizar o seu modo de estar, a aceitar o grupo em que ela se integrava. E, Gracinda, molhou a boca na taça, sorriu, olhou-o implacável e disse, sacudindo a cabeça, que não.

Edgardo Xavier
Enviado por Edgardo Xavier em 15/05/2021
Código do texto: T7256412
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