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Aos Pedaços

Ele era sem sal… ele era morno… simples assim. Ele não era o melhor dos oradores, não era nem alto nem baixo, mas sim de estatura mediana. Não tinha olhos claros nem cabelos chamativos. Não tinha porte físico bem definido assim como não mantinha postura ao caminhar. Não era fã de futebol nem dos grandes eventos esportivos que conseguiam juntar as massas. Ele não gostava muito de televisão, não via os reality shows do momento nem as novelas e séries que eram febre em sua época. Ele não tinha grandes posses nem grandes aspirações, não era devoto de nenhuma religião conhecida. Não gostava de praia, não gostava de festas, nunca foi aos grandes parques temáticos e viajava muito pouco.  Não era grande fã da culinária internacional, não sabia dançar, tinha apenas amigos casuais com os quais fazia poucos contatos.  Desde que se entendia por gente, evitava boa parte das relações familiares, principalmente as confraternizações. Raramente ia ao cinema, sempre se arrependendo ao encontrar incômodos como celulares tocando e gente falando em meio ao filme, assim saindo durante a sessão para voltar para sua vida pacata e sem graça.
Esses são os relatos de lugar nenhum, de vida nenhuma, afinal não são os manuscritos de um líder que seguem aqui, mas sim de mais um sonhador criado por fábulas e ficção que se desencanta com a realidade do nosso mundo, um mundo bem diferente daquele que sua mente esquizofrênica sonhava em viver.
Ele viveu o que devia, ousou o mínimo, não compreendeu a maior parte, sendo que essa falta de compreensão não é algo único desse personagem mais sim de todos os personagens de nosso cotidiano que vivem entre o reclamar e o questionar.

Era um sábado, um sábado como outro qualquer, ele ainda estava na cama, mas não saberia definir se estava dormindo ou estava acordado. As luzes estavam apagadas e apenas alguns raios de sol atravessavam pequenos vãos deixados pela cortina. Não sabia se dormia ou estava acordado porque qualquer pessoa ali deitada naquela cama com os olhos abertos veria o teto, forro de madeira cor de verniz, com o ventilador desligado assim como a luminária fixada ao centro dele, mas não era o que ele via. Ali, naquela manhã de sábado ele via um mar de rostos, incontáveis, todos expressando o mais profundo deboche de sua pessoa. Ele via os colegas do primário e de alguns outros anos, aqueles rostos de desprezo que tanto o perseguiram ao passar dos anos. Alguns professores também se somavam à multidão. Muitos daqueles familiares, tios, primos que o pregaram em uma cruz por mais de uma vez, também estavam lá sorridentes. Os antigos amores, os antigos chefes, sua ex mulher, todos estavam lá juntos, unidos em um único bordão… eles diziam com gosto e vontade “nós conseguimos… nós quebramos você”. Agora eles comemoravam, brindavam ao sucesso pois o seu fracasso parecia ter sido sempre inevitável… ele estava aos pedaços e seus ceifadores já saberiam que esse ponto era inevitável em sua trajetória.  Não sabia quantos lares perdera em todos esses anos, quantas vezes fora descartado, trocado ou até mesmo oprimido e censurado pela vida. Aquele mar de rostos sabia e afirmava o que ele próprio tentava negar… que estava aos pedaços e já não poderia mais remontar os cacos.
Com pouco ânimo se pôs sentado sobre a cama colocando os pés sobre um tapete… achou aquilo engraçado, pois hora que outra se sentia o tapete no qual os outros pisavam em cima, chegou a sentir uma estranha simpatia por aquele objeto e até mesmo chegou a retirar os pés de cima dele e colocou-os em cima da pedra fria do chão. Encarou os quadros que antes estavam na parede e agora se encontravam no chão, as fotos de momentos felizes que agora eram tormento. Se dedicara tanto ao casamento para acabar desse jeito.
Foi até a cozinha, tomou um copo d’água e ignorou novamente a louça que estava por lavar. Pegou um biscoito amanteigado em um pote para enganar o estômago, já fazia algum tempo que ele não preparava um café da manhã, geralmente comia qualquer porcaria pela rua, por mais que seu primeiro pensamento do dia e o último da noite seriam sobre cuidar mais da própria saúde, mas na hora de pôr em prática as ideias sempre prevalecia o “por quê? Para quê?” e prevalecia o lado autodestrutivo.
Revirou a pilha de roupas que por mais um final de semana não se animou a lavar, escolheu a mais apresentável que poderia usar para encarar o trabalho. Seu guarda roupa era formado pelas roupas remanescentes de diversos momentos de sua vida. Nunca teve ânimo para encarar as compras então raramente o fazia. As roupas que não se desfizeram facilmente com o tempo foram se somando em visuais sem graça e sem expressão que era o que ele utilizava para encarar o cotidiano. Calçou os sapatos surrados, que já foram colados uma dúzia de vezes, apanhou as chaves e os cigarros sobre a mesa a após um suspiro saiu porta a fora encarando o chão.
Ele já não fumava a um bom tempo, mas sempre carregava um maço fechado consigo, pois o horror maior seria a vontade de fumar acentuada pelo fato de não haver cigarros por perto, carregando aquele maço fechado consigo já conseguia se manter a dois anos longe do fumo.
Cruzando a primeira esquina parou em um café da região, muito bem frequentado pelos tipos engravatados, exibindo relógios reluzentes, lindas maletas de couro e demais acessórios que o faziam se sentir um mendigo. Mas não era nem eles nem o café que realmente o fazia incluir aquele lugar na sua rota diária até o trabalho. Era o momento mais doce e agradável do seu dia ouvir um “obrigada e bom dia” daquela moça de baixa estatura, aparelho discreto e olhos azuis que se encontrava do outro lado do balcão. Geralmente ele apenas acenava com a cabeça sem muito jeito, às vezes ficava se perguntando se não passaria por miserável entrando todos os dias em um estabelecimento daqueles apenas para comprar um simples expresso curto. Não sabia, mas imaginava o que as pessoas pensavam sobre ele assim que cruzava pela porta do estabelecimento. Será que conseguiam ler a palavra “desgarrado” escrita em sua testa, como um luminoso acusando sua desgraça e estado de espírito? Será que ao alcançar o dinheiro, deixara à mostra a cicatriz no pulso de uma tentativa de suicídio de dois anos atrás? Tudo era medo e dúvida, se sentia observado e julgado por todos, como se seus pecados e falhas fossem noticiados diariamente no jornal das dez, era um nervo exposto.
Chegando no trabalho ele passa pelo recepcionista, provavelmente de uma empresa terceirizada recebendo também um salário de miséria, mas mesmo assim com trajes impecáveis, o que o fez se sentir ainda pior.  Chamou o elevador, se espremeu no canto entre quase uma dúzia de pessoas que iriam subir naquele prédio que concentrava dezenas de salas comerciais.  Ficou chateado pelo elevador parar em todos os andares que haviam antes do seu, ficou irado com as pessoas que descem nos primeiros andares sempre se posicionarem ao fundo do elevador fazendo com que todos os demais tenham que sair para que elas possam passar. Desceu no seu andar já carregado de tristeza e ódio como em qualquer dia normal, apesar de ser um sábado. Reclamou mentalmente de ter que dedicar um sábado de verão como aquele ao emprego, apesar de que se não tivesse esse compromisso não faria nada além de encarar o teto de seu quarto ou secar uma garrafa de uísque de marca razoável para acalmar os demônios internos. Não sabia ao certo o que eram aquelas vozes gritando dentro de si, mas eram todas dele mesmo, pedaços … fragmentos de si que se manifestavam hora que outra tentando buscar uma reação para todo aquele declínio.
Entrou no escritório, observou todos os colegas que não davam a mínima para a sua chegada, não eram muitos que ali trabalhavam. Era uma pequena empresa de assessoria de gestão e comunicação onde ele já nem sabia ao certo que papel desempenhava. Foi até a mesa onde aguardaria que os superiores pedissem uma dúzia de tarefas, cuja maior parte não será relacionada ao trabalho, mas para facilitar suas vidas pessoais. Mas o que ele poderia fazer, dizer não? Já fazia um tempo que as contratações eram baseadas nas relações entre funcionários, os amigos e parceiros de festa de um chefe genérico preenchiam as novas vagas sempre que possível, enquanto ele ficava cada vez mais esquecido. Achava que se morresse no seu cubículo de trabalho levaria semanas até que alguém notasse. Nessa hora se tornava ainda mais miserável, sentia-se um burro de carga e questionava todos os rumos da vida na sociedade. O Capital por deus supremo, trabalhar até não aguentar, ganhar o máximo possível para quando seu corpo já não tiver mais forças, ele possa ficar em casa parado esperando a morte chegar. Será que era esse o sentido da vida? Valeria a pena gastar o curto e precioso tempo sobre esse planeta para viver nesse sistema? Vendia a vida, oito horas dela por dia no mínimo, e vendia barato. Escutava broncas por erros que não eram seus, mas seu desânimo era tão grande que já não tinha mais nem vontade de se defender, aceitava tudo. A imagem de alvo já era geral tanto no trabalho como onde morava, colegas e vizinhos tomavam coisas emprestadas, inclusive dinheiro, não devolviam, pois sabiam que ele não reagiria nem se manifestaria, podiam ver que já não se importava mais com o que acontecia ao seu redor.
De sua mesa no escritório o objeto que lhe era mais valioso era o relógio, ficava ali por horas quando era possível encarando os objetos e vendo os minutos passarem. A cada volta dos ponteiros ele ficava se questionando se seria agora ou quantas mais voltas teria que esperar para poder sair disso tudo. Queria descansar, descansar para sempre. A morte era um desejo forte, que o separaria para sempre dos vizinhos barulhentos, da multidão mal-educada, dos bancos, das contas, dos serviços de tele vendas, dos aniversários dos parentes, das dores nas costas, das consultas médicas… de tudo que era humano e lhe atingia fundo na alma. A burocracia era seu tormento, o cotidiano seu agressor.
Muito raramente ele se deslocava até um pequeno bar onde aconteciam shows de bandas de blues. Odiava a vida noturna atual com suas baladas, grandes festas, promiscuidade e músicas eletrônicas, odiava todo e qualquer tipo de festa e confraternização que o deixavam exposto aos olhares de seus semelhantes, mas ainda dava algum crédito aquele tipo de música. Não entrava no bar, ficava na rua, admirando através do vidro aquela bela melodia que era executada. Se imaginava fumando um cigarro enquanto seu corpo acompanhava o embalo das notas musicais, depois voltava a si e rumava para casa no máximo vinte minutos após ter saído.
Às vezes se perdia por dias a fio, como em uma semana que achava estar morto, após muito pensar, chegou à conclusão de que provavelmente sua tentativa de suicídio havia sido bem sucedida e que aquilo que tomava por mundo real seria o inferno ao qual estaria condenado a viver dia após dia para toda a eternidade. Às vezes focava tanto em seus pensamentos obscuros que nem via passar um ano inteiro. Nem sempre se via como esquizofrênico, pelo contrário, gostava de pensar que ele era o correto. Alguém que acha que a vida é trabalhar até se desgastar, dormir, comer, defecar e se procriar? Este sim deveria ser o esquizofrênico, esse sim que deveria viver nas clínicas contido por tiras de pano em uma cama hospitalar. Ah sim, ele sabia muito bem o procedimento de clínicas psiquiátricas, afinal já foi recebido em uma. Era uma noite de sexta, o desejo pela morte gritava mais alto do que os demais dias, assim parou em uma emergência psiquiátrica… buscava remédio… encontrou a realidade novamente. Antes de se justificar já haviam seis homens para amarrá-lo, um deles o estrangulou enquanto ele se debatia, até que fosse dominado. Todas as noites esse era um pesadelo constante que lhe assombrava, ao invés da paz que procurava apenas ganhou mais um demônio, mais um esqueleto no armário que abalaria a sua paz.
A cada momento difícil tentava encontrar consolo na teoria de que sua situação não poderia se tornar pior, mas o destino sempre lhe provava ao contrário, pois até mesmo no poço mais fundo ainda pode se cavar mais alguns metros. Nessas ocasiões que renegou sua fé, amaldiçoou todos os deuses e santos que já existiram no panteão humano com ira e jogou sobre todas as religiões o peso de sua amargura. Nessa altura foi tornando-se cada vez mais fechado e frio, perdendo o contato com as poucas amizades que tinha e se trancando dentro do apartamento e dentro de si mesmo. Enquanto uma pessoa fala em média quase 10 mil palavras em um dia, era raro ele dizer 100, mas pensava em milhares criando um emaranhado de questionamentos em sua mente. Das 100 palavras que dizia, provavelmente 50 delas era “sim” durante o expediente de trabalho ou atendendo ao pedido de algum dos vizinhos que lhe sugavam o resto de alma que tinha.
Acho que esse é um pequeno resumo digno dessa personalidade e de sua rotina. Seus devaneios claros que não caberiam em linhas ou publicações, mas já se tem um ideia do total.
É mais que natural que um homem assim passe despercebido em qualquer lugar que esteja, afinal a nuvem carregada que pairava sobre a sua cabeça não era realmente visível, afinal quem daria importância e por que daria importância? Trancado em seu mundo, mal sabia o que o destino que tanto o amaldiçoou guardaria pra ele.


Domingo pela manhã ele despertou com barulho da campainha, se ergueu como se levasse um choque, afinal já fazia um tempo que não escutava aquele som. A questão era simples, quem seria e o que iria lhe pedir, simples assim. Abriu a porta sem ao menos arrumar o cabelo. A figura que aguardava do outro lado da porta não lhe era nem um pouco familiar, uma moça de uns 27 anos, quase um metro e setenta, cabelos vermelhos, olhos verdes, dona de uma beleza praticamente sem igual, mas isso era algo que um homem como ele não dava mais valor algum, nunca sentiu atração pelo mesmo sexo e a atração pelo sexo oposto desaparecia a cada dia, afinal eram as pessoas em geral que não o atraíam mais. Não sentia vontade de fazer sexo ou de se envolver já fazia algum tempo. Ela ficou olhando para aquele sujeito com cabelos embaraçados, com as marcas do travesseiro estampadas no rosto e cara de poucos amigos.
  - Eu te acordei? – perguntou a moça
Ele apenas continuou fitando a com um olhar sério e desanimado e agora tinha até vontade de chorar pela imbecilidade da pergunta.
- Desculpe – Disse a moça – é que me mudei a pouco para o apartamento ao lado, queria saber se não poderia me emprestar um pouco de açúcar.
Ele não mencionou uma única palavra, deu alguns passos até a mesa e pegou o açucareiro que mal era usado entregando-o a moça.
- Obrigado, lhe devolvo logo mais. Meu nome é Vitória – apresentou-se a moça.
- Prazer – disse ele o mais seco possível, logo após acenou com a cabeça, tentou forçar um sorriso e fechou a porta.
Levou alguns minutos até que ele percebesse que não disse seu nome, mas também não achava que essa informação importava, até onde constava o único nome que poderia ter que iria interessar alguém naquele momento era “açúcar”. Voltou cabisbaixo até o quarto, abriu uma pequena fresta da janela e ficou observando a rua por alguns instantes. Todo aquele sobe e desce de pessoas dos ônibus buscando um pouco de interação naquele grande centro tomado pelos comércios, as crianças carregando algum tipo de doce nas mãos enquanto eram puxadas pelos pais como pequenos cachorros em suas coleiras, tudo aquilo lhe atingia, lhe era maçante e ofensivo. Achava uma grande merda aquelas famílias, as crianças crescendo adotando os conceitos dos pais para, por sua vez, colocarem outras crianças no mundo e lhes transmitirem os mesmos conceitos durante a caminhada para a cova. O capital era um vampiro cruel para ele, odiava todas as presas felizes que caminhavam achando que não eram um mero rebanho, que eram protagonistas de algo que poderia fazer sentido, que uma figura superior lhe esperaria de braços abertos em um parque de diversões celestial apenas porque foram “bons” na sua própria percepção. Mas e aquele pedinte que sempre ficava ali jogado na calçada? Será que ele concordaria que aqueles transeuntes deveriam fazer parte dos bons? Que deveriam herdar os reinos do céu? Duvidava com todas as suas forças. Logo sua atenção foi desviada por um aroma adocicado que invadia a janela, era uma fina e pequena cortina de fumaça produzida por um incenso de morango que estava na janela ao lado. Conforme a orientação do vento variava o perfume que provavelmente já devia tomar conta do apartamento da nova vizinha invadia também o seu.  Parecia que aquele perfume doce poderia lhe tocar profundamente, até mesmo gerar alguma calma e isso foi motivo o suficiente para que ele tornasse a fechar a janela e se isolar de qualquer coisa que poderia ser positiva.
Novamente a fúria lhe surgiu, “quem ela pensava que era para chegar e já o infestar com aquele cheiro?”. Logo mais encarou um leve cheiro que a falta da limpeza causava no apartamento e decidiu encerrar a própria crítica. Logo mais escutou o som da campainha novamente, levanta impaciente e caminha com fúria até a porta, abrindo-a rapidamente.
Um homem parado em frente a porta lhe estende um jornal. Ele não apanhou, apenas ficou encarando o homem que vestia um terno que lhe parecia ser muito caro. O homem por sua vez também não lhe dirigiu a palavra, apenas ficou ali ofertando o jornal sem manifestar-se.
- Pois não? – Perguntou
- O jornal de hoje, estamos distribuindo cortesias no seu prédio. -  Respondeu o homem
- Por quê? - Perguntou desconfiado.
- Faz parte da nossa campanha para ampliar a venda de assinaturas – Respondeu.
Ele apanhou o jornal e fechou a porta de imediato, poderia ser a pior pessoa na face da terra, mas não era burro, aquele homem não carregava uma pilha de jornais e sim um único exemplar, assim como por óbvio aquelas não seriam as vestes de um entregador de jornal.
Jogou a edição sobre a mesa e aguardou um minuto até abrir a porta novamente para se certificar de que o homem havia ido embora. Após voltou a atenção até a publicação, era um jornal de circulação local bem conhecido, estava em estado razoável. Ao examiná-lo com maior atenção notou uma folha com a ponta dobrada, abriu para arrumá-la, ficava em meio ao caderno dos classificados, mais precisamente em uma página onde prevaleciam os anúncios de acompanhantes. Deu atenção a um anúncio circulado por uma caneta vermelha “Le Vieux Loup, dias melhores, noites inesquecíveis… Desafie-se”. Leu umas três vezes o anúncio, nunca se sentiu à vontade com esse mundo da prostituição e casas noturnas. Fora umas três vezes quando era mais jovem para acompanhar alguns amigos da faculdade, mas desde aqueles tempos o temperamento conservador e ranzinza já o reprimiam por completo.
Largou o jornal tentando achar algum sentido naquele homem lhe entregar aquela edição com aquele anúncio circulado e pela primeira vez em muito tempo foi tomado pela curiosidade que há muito havia lhe deixado. Era tão desapegado e tão desgostoso que não se dava o luxo de ficar curioso ou realmente querer descobrir algo sobre o que quer que fosse, mas aquela situação pareceu lhe dar um pequeno choque. Se sentiu incomodado pela sensação diferente, serviu um grande copo de uísque que tomou junto com alguns comprimidos para dormir, ou iria ter um longo sono ou morreria, não fazia diferença, mas não queria ficar curioso nem por mais um instante. Logo uma dormência foi substituindo a queimação do uísque e pouco a pouco o sono tomou conta, caiu adormecido no sofá da sala.

Segunda pela manhã o despertador já tocava a alguns minutos até o momento que ele finalmente despertou, estava encharcado de suor, provavelmente pela mistura de álcool com os remédios. Uma forte dor de cabeça também se mostrava presente, mesmo assim a rotina estava lhe chamando, portanto se arrastou até o banheiro para encarar um banho rápido.
Quando saía do prédio conferiu rapidamente a caixa de correio, apenas para achar um pequeno panfleto do Le Vieux Loup. Na hora a curiosidade do outro dia lhe caiu como uma bomba. Estava tão distraído com uma série de “porquês” que quase esqueceu de parar para o seu expresso, passou reto por mais de uma quadra, ao se dar conta respirou fundo e voltou para ganhar o seu “bom dia”.
  Na sua frente a fila do café havia um casal bem jovem, provavelmente tinham 18 ou 19 anos de idade. Vira e mexe trocavam beijos e falavam como se fossem crianças, aquilo fez ele esquecer as dúvidas e retomar um ódio sem igual, desprezava-os sem mesmo conhecê-los, em parte era inveja pois sabia que aquilo não faria mais parte de sua vida, ninguém amaria aquilo que ele se tornou, a não ser que seja alguém tão miserável e problemático que nem ele. Aquelas demonstrações de afeto eram como facas nas suas costelas ou dedos apontados no seu rosto, o deixava desconfortável e despertava um desejo de entrar em frenesi ali mesmo no meio da loja e agredir os dois até seus dedos sangrarem.
  - Pois não? Perguntou a doce atendente. Ele havia perdido a noção do tempo e agora trancava a fila, aproximou-se do caixa meio sem jeito tentando retomar algum raciocínio mais lógico.
  - Um expresso né? – perguntou a moça, ele apenas acenou com a cabeça. Pagou o café, acenou novamente ao ouvir o “obrigada e bom dia” e retomou sua caminhada para o escritório.
Começavam a cair suaves pingos de chuva enquanto ele cruzava a rua e adentrava o prédio, passou pelo mesmo processo diário do elevador até chegar a seu andar e por vez até sua mesa.
- Bom dia – disse um de seus colegas lhe estendendo a mão. Ele ficou pasmo, ninguém realmente parava para lhe cumprimentar. Ao apertar a mão do homem sentiu um leve aroma no ar, um perfume adocicado, Cristal.
Ele conhecia aquele perfume e já o sentira no colega em algumas ocasiões, sabendo o porquê de ele estar ali. Ninguém desconfiava que ele sabia, mas aquele homem em sua frente foi um dos pontos fortes do seu divórcio, sim ... o cara que andava “comendo sua mulher” como as pessoas costumam dizer. Quando descobriu do caso ele não se manifestou, apenas afundou em seu casulo até que sua mulher resolvesse simplesmente ir embora por ter um marido quase vegetativo, assim não precisando enfrentar nenhuma crise maior. Óbvio que por diversas vezes se imaginou acordando do transe e abrindo a cabeça daquele homem com diversas ferramentas de trabalho do escritório, mas o desejo pela própria morte era maior do que o pela morte de terceiros. Tempos depois do divórcio sabia que os dois não se viam mais pela ausência do perfume, até que o mesmo voltou a aparecer a uns dias atrás, indicando que o casal voltou a se encontrar.
Talvez, se falasse que havia descoberto tudo por um perfume, achariam que ele era louco e não dariam crédito algum sobre a possibilidade de sua descoberta ser real, mas o Cristal quando usado na pele dela era mais que um perfume, era um oceano de aroma entorpecente que cegaria todo o bom senso do mais sensato dos homens, ela era uma sereia, era uma musa mitológica e aquele perfume era sua marca de domínio sobre a humanidade.
  “Você tá comendo ela?” – Se perguntou mentalmente ainda segurando a mão do homem.
O colega de trabalho livrou a mão com pouco esforço, deu um tapinha no seu ombro e seguiu para a própria mesa. Quem diabos ele pensava que era? Agora porque haviam “voltado” deveria sentir algum tipo de pena para socializar com ele de alguma forma? Mais uma vez se sentia ofendido.  Ele que era o novo iludido, deveria guardar sua pena para si mesmo, pois viria a precisar.
Ele não descreveria a ex mulher como amor mais intenso, por causa que descrevia tudo realmente como estar entorpecido e hipnotizado para o mundo naquele momento, mas descreveria qualquer outra de suas relações como intensas. Ele não tinha nada de casual em seu histórico, não se prestava nem a abraçar uma pessoa se não tivesse algum tipo de consideração ou sentimento real, assim acabava entrando sempre de cabeça nas suas relações, pois todas sempre eram mais seletas possível. Destas relações, principalmente quando era jovem, tinha uma coleção de foras e términos que envolviam os clichês de “você é bom demais para mim” até “não sou você, sou eu”. Tudo era tão doloroso, mas em meio a lágrimas tinha uma pequena dose de satisfação, pois parecia que a infelicidade era o combustível criativo de sua vida... sim, sua musa era a dor.
Logo após um término doloroso e as primeiras doses de uísque apareciam as melhores criações de texto, uma elevação de personalidade, sombria, mas de maior capacidade de observação e raciocínio se apoderava dele. Nestes períodos ele podia dizer mentalmente após uma pequena e fria análise quais eram os objetivos de cada pessoa que passassem por ele em Shopping Center. Com o tempo a análise dele, claro, se focava só nos argumentos e vontades mais frias da espécie humana, uma pessoa não estaria no shopping caçando, e seria classificada como “mais um contente achando que a vida é comer pessoas, se distraindo por decotes sem ver a própria podridão”.
Quanto mais o tempo passava, mais fundo suas observações chegavam, mais podre e quebrado ele ficava.

Após mais um expediente no qual o tempo parecia se arrastar, ele saiu do serviço e saiu caminhando sem rumo por algumas quadras. Às vezes não sentia vontade nenhuma de voltar para casa. Lembrava do livro de Herman Hesse e do personagem que por oras não queria voltar para casa, pois sabia que a sua navalha estava a lhe esperar no quarto. Ele não tinha uma navalha, mas nos piores dias qualquer coisa poderia ser letal. Então às vezes ele caminhava por diversas quadras, direções diferentes, quanto menos movimentadas melhores, apenas para organizar um pouco seus pensamentos. Caminhar parecia lhe ajudar a manter o equilíbrio, ou algo perto disso, afinal equilíbrio era uma palavra que não parecia se encaixar de maneira alguma aquela figura.
Logo nas primeiras quadras se depara com uma mulher, classe média baixa provavelmente, trazendo um cachorro em estado de cuidados um tanto desleixados por uma surrada coleira de couro. Aquilo lhe atingiu profundamente, ele encarava o cão desengonçado e conseguia se enxergar nele em outras épocas de sua vida. A família lhe tinha por perto a uma década atrás como um animal de estimação, a miséria dele fazia o sucesso dos parentes parecerem maior do que realmente eram, ele era o fracassado de estimação, o cão desengonçado e malcuidado que não permitia que as pessoas reparassem na blusa de liquidação de sua dona. Enquanto o animal cruzava bem em sua frente sentiu simpatia mais acentuada, afinal eram eles ambos cidadãos de segunda classe, mascotes de alguém que precisava se sentir melhor ou dono de algo, agora com a diferença que ele já era um mascote sem dono.
Mais tarde em casa, comeria qualquer coisa, assistiria a alguns filmes que já viu milhares de vezes, mas que revisitava apenas por nostalgia de tempos menos complicados, onde ele ainda era um só. Adiava o máximo possível a hora de ir dormir, pois sabia que assim que o silêncio predominasse e ele estivesse deitado na cama, no escuro, seria a hora que alguma memória aleatória do passado viria lhe assombrar, assim como os fantasmas de Scrooge. Naquela noite, a princípio foi ameno, havia voltado às primeiras fases da infância, apesar de o pai ser um tanto cabeça quente e gostar de lhe dar algumas surras, não era nada tão traumático e fora do comum na sua concepção familiar. Bons momentos fluíam das lembranças, como quando gostava de jogar futebol e por alguma razão queria ser goleiro, lembrava dos pais lhe buscando mais cedo na escola para assistir em casa os jogos da Copa do Mundo, acompanhado de um pão quentinho de uma das padarias próximas. Havia outras crianças na vizinhança que tinham irmãos e pais que ficavam o dia com elas, não era o caso dele naquele momento, o pai fazia plantões a noite, a mãe passava o dia fora, então mesmo que tivesse quem o cuidasse, que tivesse companhia, não era no elo familiar que imaginava, mas tudo bem, tinha seus carrinhos, as jantas na noite de sexta onde geralmente tinha algo como pizza ou pastel, acompanhado de refrigerante… comparado ao resto eram ótimos momentos. Não tinha acesso aos grandes centros comerciais, morava bem retirado, ir em um fast food era bem ocasional, assim como conseguir chegar até uma locadora de filmes, provavelmente o que despertou sua paixão por filmes era esse difícil acesso. Uma vez no mês poder pegar um filme daquela loja com milhares de títulos… Aquilo lhe encantava tanto que via a pessoa por trás do balcão da locadora como uma ganhadora da loteria. Assim o menino que queria ser goleiro viu seu sonho mudar, queria ser dono de uma locadora e poder ver quantos filmes quiser. Instantes após sua cabeça avança no tempo das memórias… o divórcio dos pais não pesou tanto nele quanto pesavam as brigas que o antecederam, na verdade ele até gostou, tinha um segundo espaço para fugir no final de semana (e podia alugar filmes em quase todos finais de semana), eram duas vidas agora para ele curtir e sem tem que presenciar conflitos… ao menos era pra ser assim… Mas o que havia acontecido mesmo? Seu corpo se agita quando ele sente como uma pancada um novo salto temporal na suas memórias, a chegada do mal, o início dos cacos que ele era… Ele salta da cama ofegante, lágrimas correm de seu rosto até ele se recobrar e ver que não mais a criança indefesa contra a parede, se sentia um maldito museu das péssimas recordações, se sentia como um soldado traumatizado pelas memórias de uma guerra, não aguentava mais. Se pôs sentado ao lado da cama e acendeu um cigarro… Foda-se a revolução.

Fumaça e demônios.
Ali fumando o primeiro cigarro há um longo tempo, as memórias continuavam lhe bombardeando a cabeça. Seu pai continuava em turnos noturnos de trabalho, dormindo maior parte do dia, mas sempre lhe dava atenção. A mãe além do trabalho ingressa na vida política da cidade, no meio de campanhas de solidariedade e projetos sociais era onde morava escondido aquele ser que não era o que aparentava. Ele o conheceu através da mãe, assim que o mal apareceu, ele passou a ser um protagonista do banco de trás, aprendendo política só de ouvir a conversa dos adultos. Uma noite após uma janta em casa ele flagrou sua mãe aos beijos com o mal, lembra de ter chorado, não sabia porque, afinal ainda desconhecia tudo que lhe esperava, talvez fosse um pressentimento. Aquele homem deixou o casamento que tinha para essa nova relação, ele lembra de ainda com pouca idade atender uma das ligações da ex mulher daquele homem, onde lhe falara “avisa para a sua mãe que ela é uma puta”. Com o tempo a sua casa passou a ser também a casa do mal, não havia outro nome que sua memória daria aquele homem.
Com o tempo via sua mãe mudar e acatar as opiniões e visões daquele homem que tinha rompantes de raiva, já não sabia sua identidade pois estavam sempre gritando com ele, uma criança sendo chamada de inútil, imbecil e por aí vai. Seu sangue também começou a ferver, assim como o do homem que lhe disparava estas ofensas, mas ele era uma criança de pouco porte e nada podia fazer. Lembrava de uma vez na praia, na maior das inocências, de ter perguntado ao mal porque ele ficava virando a cabeça de sua mãe, eis que o mal respondeu “vou virar mais ainda”. Ele não entendia, mas deve ser isso que o mal faz, mexe com a cabeça das pessoas. Não demorou muito tempo para as ofensas virarem agressões, nem para as agressões migrarem para torturas psicológicas e físicas, todas por suposto presenciadas pela mãe, que vivia um encanto por aquele ser e acabava nada fazendo. Sua respiração trancou quando a memória de sua cabeça sendo segurada embaixo d’água voltou a memória… Tinha fobia até hoje por causa desses episódios. Cresceu sendo consumido pelo mal, atormentado… a raiva que não podia expressar foi sua primeira fratura, já não era uma pessoa inteira após tudo isso. Nenhum dos familiares o socorria daquele inferno, então ele sabia que somente ele poderia se salvar.
Quando atingiu a idade de 15 anos decidiu que já era a hora de enfrentar o mal. Retribuiu suas ofensas e quando aquele homem com o dobro do seu tamanho se jogou a sua frente ele não se encolheu, ele não murchou, ele levantou a cabeça e cerrou os punhos sem se importar se teria chances ou não. Sua mãe evitou o confronto, pouco depois terminou a relação para evitá-lo, mas ele sabia que no fundo não deveria ser ele a pessoa protegida por esta ação e sim o mal, pois pela primeira vez ele havia levado perigo ao seu carrasco.
Assim que sai dos seus pensamentos ele repara que está caído no chão às lágrimas, com o cigarro ainda entre os dedos, afastou as lembranças da cabeça e se perguntava por que diabos as noites tinham que ser tão difíceis.
Na manhã seguinte ele acorda ainda deitado no chão, apagou ali sem conseguir ir para a cama, estava em péssimo estado, seu corpo repleto de dores, as olheiras mais presentes do que nunca, mas ainda precisava encarar o rotina.
-  Bom Dia - diz Vitória surgindo pela porta ao lado.
- Oi - responde ele sem a menor das motivações.
- Você está bem? - pergunta a vizinha.
Ele se vira para ela um tanto confuso, a pergunta parecia ter ativado alguma espécie de gatilho mental, por que diabos alguém iria querer saber se ele está bem? Quando lhe perguntaram isso pela última vez? Alguma vez ele já havia respondido essa pergunta com sinceridade?
- Oi? - Responde com outra pergunta
- Você não parece bem - insiste a vizinha.
- Nada demais - responde de qualquer jeito.
Ele acena para ela tentando encerrar uma conversa que não quer ter e segue apressado para fora do prédio, evitando ter companhia da vizinha que também estava saindo.  Seguiu cabisbaixo pelas ruas pensando em mais um dia terrível de trabalho que teria que aguentar, quase esqueceu de sua parada obrigatória para o café, para ganhar o seu “bom dia” e deixar as demais pessoas da fila verem seu rótulo imaginário de “Desgarrado”. Naquele dia a fila estava um pouco maior que o comum “que coisa boa” ele pensou de forma sarcástica, ficaria mais tempo exposto ali do que o necessário, mas enfim, esperaria. O tempo se arrastava, ele cuidava as pessoas da fila para ver se ninguém o observava, às vezes buscava a atendente com o olhar, encarar aqueles olhos azuis o relaxava de alguma maneira, mas mesmo assim se sentia culpado por isso. Logo chega sua vez… Expresso curto… Bom dia … E tudo estava acabado. Saí para a rua, toma seu café em dois goles e deposita o copo em uma lixeira logo a frente da cafeteria.
- Você devia pedir o telefone dela - Diz uma voz masculina vindo de trás dele.
Ele se vira um tanto assustado com a sugestão e vê um homem por volta de 60 e poucos anos, cabelos e barba grisalha, vestindo um casaco surrado e escorado em um carrinho de supermercado cheio de bugigangas catadas do lixo.
- Oi? - Questionou, como se fosse só isso que ele soubesse dizer.
- Ela é bonita né? A moça, vi você olhando para ela - Diz o homem sorrindo.
Ele se aproxima alguns passos, puxa alguns trocados do bolso e entrega ao homem, provavelmente um morador de rua. Seu sorriso parece ganhar mais intensidade assim que recebe as moedas.
- Obrigado meu filho - diz o homem contando os trocos - mas ainda acho que você devia pedir o telefone dela.
Ele ignora e segue seu caminho, não precisava de conselheiros amorosos.

Novamente no escritório, pronto para a rotina, novamente o colega que tenta parecer simpático vem cumprimentá-lo trazendo consigo o perfume que por muito tempo lhe torturou. Malditos casais felizes, malditos relacionamentos e pegações, tudo que era demonstração de afeto parecia lhe torturar em alguns momentos, cresceu ouvindo falar sobre como os homens não prestavam e querendo ser diferente, querendo ser o cara legal, o resultado foi que em um mundo de homens podres fora uma mulher que corrompeu seu coração. Sim, cresceu em meio ao ódio e torturas lutando para ser uma boa pessoa, acabou por ser a vítima perfeita. A caminho de sua mesa se lembrou do primeiro beijo, ainda lembrava da data, uma garota que batia de idade com ele e que havia ficado com quase toda a cidade fez a caridade de lhe ensinar, apreciou o momento mas ficava confuso em como alguém poderia ter tão pouco respeito por si próprio, se deixar ser taxada como um objeto coletivo e achar que havia algum futuro nisso. Logo no primeiro beijo ele ficou imerso em pensamentos sobre o sentido das relações e como as pessoas se entregavam a impulsos momentâneos, não havia percebido na época, mas com todos aqueles pensamentos, mais que o primeiro beijo, havia sido seu primeiro encontro com a morte, a falta da razão das ações humanas.
Sentado na mesa folheando uma pilha de documentos em modo automático, sua mente se encontrava em outro lugar, a primeira vez que experimentou o sexo. Era uma garota que conheceu por amigos em comum, nos antigos chats da internet usava o nick “Morta”. Frequentadora das mesmas festas que ele ia, onde um bando de adolescentes rejeitados tomavam vinho de procedência duvidosa e curtiam rock. Os dois ficaram próximos e viviam pendurados no telefone, apesar de ela ter um namorado, fato que não impediu que os dois se encontrassem. Ela sabia do fato que ele nunca se deitara com uma mulher e parecia gostar desta informação, assim podia moldá-lo ao seu gosto e foi exatamente o que aconteceu. Durante todos os dias de semana ela passava a tarde em êxtase com o novo amante, os finais de semana eram reservados ao namorado. Apesar de ser o “extra”, ela não lhe permitia ver outras pessoas, ele deveria ser propriedade dela. Certa vez descobriu que ele saiu com outra pessoa e gerou uma grande crise. Ele se achava o único amante, mas não era e mesmo assim seguia as regras que lhe eram impostas. Depois de vários meses foi promovido ao posto de oficial, e o antigo oficial rebaixado a amante, fato que ele descobriu em seguida. Achava que o mundo era belo, que havia encontrado o amor da sua vida e que por uma fatalidade ela estava com a pessoa errada, mas logo descobriu que sua dedução que era o erro. Tinha tanto apego àquela pessoa que alguns meses após o fim do relacionamento estava com ela novamente, e assim sempre que ela saia de uma relação ou queria apenas transar, sabia que podia procurá-lo e que apesar de qualquer falha ou deslize seria sempre recebida, ele estava sobre seus domínios. O sonho do conto de fadas havia ruído, o cara diferente era a vítima ideal e o mundo perdia gradualmente sua cor. Foi neste momento que ele começou a se questionar sobre as pessoas, a sociedade, as motivações… Se sentia um peão preso a um tabuleiro, não sabia se era um ser ou uma tábua de apoio, se era um homem ou um vibrador em uma gaveta. Essas dúvidas lhe martelavam a cabeça mês a mês e ele já enxergava a humanidade como um vírus cheio de processos mecânicos, onde dinheiro, sexo e status era o que realmente comandava o jogo… ele não conseguia enxergar, mas era neste momento que estava nascendo o monstro.
- Cara? - Chamava uma voz em frente a sua mesa, sabe-se lá a quanto tempo.
Ele ergue a cabeça e vê o office boy do escritório com a mão estendida segurando um envelope. Ele o apanha e o jovem vai embora ainda com uma expressão assustada. Já era tão normal ele se desligar da realidade, mas os pensamentos do passado não costumavam lhe atingir tanto durante o dia. Quanto tempo havia ficado congelado enquanto falavam com ele? Ah se o monstro ainda estivesse aqui, poderia ouvir a sua risada.
Era um período obscuro entre a dor e o ódio, ele tinha seus 16 anos, escrever era a melhor maneira de extravasar as emoções, escrevia em formato de monólogos do mal do século, eram cartas para as pessoas que lhe decepcionaram, cartas que nunca seriam entregues. Escrevia sobre o cotidiano, sobre as pessoas e como as via, escrevia sobre si mesmo. Foi ali no meio da dor e do ódio e ao lado de uma mar de folhas escritas a mão que ele descobriu algo aterrorizante…
Ele havia escrito cartas para si mesmo em várias ocasiões sem nem reparar até revisitar o texto. Em algumas pedia paz, pedia o fim dessa doença, que o deixasse respirar, como se fosse vítima de algum agente de tormento. Em outras esse agente parecia lhe responder dizendo o quão podre era o mundo e questionando porque “eles” não poderiam aproveitá-lo.  Assim com o tempo foi descobrindo e conhecendo melhor uma personalidade sombria, sarcástica e destrutiva que agora vivia dentro dele, eles se comunicavam já não mais só através de cartas, mas nos pensamentos… Ali se apresentava o monstro. Enquanto ele era motivo de piada na escola, o monstro chegou para ser o centro das atenções, enquanto ele era vítima das pessoas, o monstro chegou para ser o carrasco. O monstro era um lado dele que não tinha o peso moral ao qual ele era submetido, o monstro não se importava em mentir, agredir, xingar, enfrentar e manipular, assim por óbvio os dois vivam em constante enfrentamento. Quando uma garota partia seu coração o monstro lhe confrontava, lhe mostrava o que acontecia se o deixava de fora da situação, o quanto ele era fraco, bobo e chorão no seu mundo correto. Quando o monstro partia o coração de alguém ele que partia para o confronto, mostrava o quanto o monstro era doente, destrutivo e sem propósito. Assim eles viviam se enfrentando dia após dia. Por mais que o monstro tenha lhe dado uma vida social, ele implorava para que o mesmo fosse embora a cada confronto.
O monstro trouxe mais garotas que ele para cama, arrumou e terminou com relacionamentos, foi o centro das atenções nos lugares que frequentava, mas sempre deixando seu estrago através das ações e de sua língua ácida. Sim, o monstro tinha tudo para prevalecer e se tornar a personalidade dominante de uma pessoa quebrada e destruída, mas um pequeno erro de cálculo foi sua queda. Ele estava em um relacionamento com uma pessoa incrível e centrada, foi o primeiro homem dela e tudo ia realmente bem, até que o monstro quis fazer um experimento social, ainda querendo entender a primeira mulher que lhe traiu após lhe trazer aquele mundo, decide repetir a experiência nesta outra relação apenas para tentar achar um motivo e para ver se é capaz. O monstro talvez conseguisse esconder uma traição por muito tempo, mas o outro cara só a escondeu por uma única hora. Neste dia, ambos os caras aprenderam que era mais doloroso machucar alguém que você ama, do que ser machucado por ela. A guerra se intensificou entre os dois e após várias trocas de insultos e dedos apontados o monstro acabou por acatar a sugestão e simplesmente foi embora. Por uns dois anos ele se sentiu grato por estar livre e ter a chance de voltar a ser uma boa pessoa, apesar de tudo que já havia lhe acontecido até o momento, mas com o passar do tempo teve vários momentos que ele se arrependeu e chegou a chamar de volta pelo antigo companheiro… Tudo em vão, pois o monstro seguia desaparecido.


- Deus dá dente para quem não sabe mastigar - diz uma voz distante o despertando do transe.
“Deus dá dente para quem não sabe mastigar”... Foi a frase que ele ouviu naquela noite há alguns anos atrás e que fez seu sangue ferver. Ele estava em uma mesa de bar tomando algumas cervejas ao lado de uma mulher linda, o sorriso dela era atraente e carregava consigo o peso da vida. Ela lhe pediu um beijo, ele sabia que devia ter dito não, mas consentiu. “Deus dá dente para quem não sabe mastigar”, disse um dos garçons ao outro. Ele sabia que ela era bonita demais para ele, mas mesmo assim no pequeno momento antes de ser atormentado pela culpa que viria aquela frase fez seu sangue ferver. Enquanto ela estava ali com ele, em outra cidade havia um marido solitário em casa que acabara de perder o emprego. A frase havia voltado ao ser mencionada por um pequeno grupo onde estava um chefe que tropeçava em contratos mesmo sem conseguir focar sua atenção em único tema por mais de uma hora, acompanhado por mais dois funcionários além daquele que agora carregava o perfume de seu tormento. Ele conseguiu reparar que olhavam para ele no momento em que a frase foi dita e não precisou fazer quase nenhum esforço para saber que o assunto naquele círculo era a nova relação do colega e a tentativa de compreender porque ele havia tido uma oportunidade com aquela mesma mulher. Seu sangue ferveu, coisa que já não era tão habitual, levantou em um impulso e atravessou a sala em cinco longos passos até aquele grupo que o observava. O portador do perfume lhe deu um sorriso e tentou puxar assunto, mas a única palavra que conseguiu mencionar foi “então” antes que um soco atingisse sua boca. Ele havia perdido o controle, não conseguia enxergar ao redor nem os homens que tentavam lhe conter. Os gritos do chefe pareciam estar sem volume enquanto ele se esforçava para se desvencilhar e acertar o colega mais duas vezes no rosto.
Em menos de 30 minutos ele já estava saindo do prédio, com suas coisas em uma pequena caixa e escoltado por um segurança. Havia perdido o emprego. Ele saiu caminhando pela cidade pensativo, por um instante até havia chegado a se encher de esperança achando que o monstro havia voltado e que apesar dos danos colaterais iria reerguer a sua vida. Mas não era era isso que havia ocorrido, aquele rompante era dele e somente dele. Em um primeiro momento se assustou por chegar neste ponto, em outro após pensar muito, ficou surpreso de isso nunca ter acontecido antes.  Após uma hora de caminhada aleatória ele para na lateral de um viaduto, estava perdido em pensamentos e nem lembrava de como chegara até ali. Contemplava em silêncio os carros que passavam lá embaixo, parava alguns instantes e encarava a caixa na sua mão.  Será que ele conseguiria voar? Será que deveria continuar? Assim que a adrenalina baixou ele se sentiu mais cansado do que nunca e aquela pista lá embaixo a quase 20 metros de distância lhe parecia cada vez mais a cama perfeita.
-  Você não tá pensando em pular né? - Pergunta uma voz masculina
Ele se vira e vê o homem que havia lhe entregado o jornal na porta de casa, estava tão abatido que a curiosidade já nem lhe importava. Olhou para o homem e voltou a olhar para pista.
- Dia difícil né? Sabe, todos eles são. - Continua o homem se aproximando dele - Eu não culpo as pessoas por quererem pular da ponte, olha como esse mundo tá doido, quem não iria querer?
Ele desvia o olhar da pista, agora o homem tem a sua atenção.
- Partir pode ser uma coisa triste, mas será que precisa ser? Você é o tipo de pessoa que sairia desse mundo sem estilo? Sem aproveitar nem uma despedida? - Continua o homem apontando o dedo para uma faixa em um prédio antigo logo após o viaduto.
“Le Vieux Loup, dias melhores, noites inesquecíveis… Desafie-se” lia-se na faixa. Ele volta a encarar o homem que ficou parado sorridente, a curiosidade lhe voltava, mas fazia esforço para se desprender dela. Encarou a pista mais uma vez, acenou para o homem e se dirigiu até aquele prédio antigo.
Chegando lá, um porteiro com um uniforme antigo, que mais lembrava o de carregador de algum hotel, abriu uma alta e grande porta dupla de madeira revelando um ambiente que lembrava uma pequena recepção com uma chapelaria do lado. Tudo naquele prédio era antigo e razoavelmente cuidado, o carpete um tanto puído cobria todo o chão, dando destaque para o tom madeira das pernas das mobílias antigas, parecia que ele estava na década de 1940. Uma senhora um tanto acima do peso usando um vestido em seda estava de pé em frente a outra porta dupla. Ela soltou um leve sorriso assim que o avistou e abriu a porta. Dessa vez chegou em um grande ambiente, que lembrava as antigas casas de burlesco na decoração e pouca luminosidade, mas as pessoas que ali se encontravam mostravam que ele não havia voltado no tempo, e sim aquele lugar que se encontrava parado nele. Uma jovem usando uma mini saia jeans e segurando uma bandeja nas mãos o guia até uma pequena mesa no canto esquerdo do salão.
- Vai tomar alguma coisa querido? - Pergunta ela sorridente.
- Uísque - Responde ele se segurando para não dar um sermão por ser chamado de “querido”.
- Ok, já vou trazer, alguma das meninas já vai vir falar com você.
Não lembrava direito a última vez que havia estado em uma casa de má reputação, mas certo que deveria ter sido em sua juventude. Não via graça nenhuma em pagar por sexo, se chateava com os elogios e gemidos falsos, mas achava a falsidade destes lugares a melhor comparação ao padrão de funcionamento da sociedade moderna. Sim, Status, Dinheiro e Sexo, era perfeito. Pessoas vinham aqui, o dinheiro garantia o sexo e o status, “ó você é tão lindinho”, “nossa é o maior que eu já vi”. Se pegou rindo sozinho ao passar essa comparação na cabeça… Nossa, quanto tempo fazia que ele não ria? Uma das mulheres que trabalham na casa se aproxima da mesa, caminhando lentamente enquanto seu corpo reage a música que toca de fundo. Cabelos escuros caindo sobre o rosto conforme ela se mexe, em um corte que vai até a altura do início das omoplatas.  Ela se senta ao seu lado, solta um “oi querido” enquanto passa a mão em seu rosto em uma pequena carícia, logo ela para e parece congelar no lugar.
- Ai meu deus, você aqui? - Fala em tom de surpresa.
Ele força um pouco a vista, os anos haviam passado, ela estava bem diferente, mas eis ali a pessoa que a duas décadas atrás lhe deu o seu primeiro beijo.
- Não acredito, é muita coincidência - Diz ela abrindo um grande sorriso - Lembra de mim né?
  Ele assente com a cabeça  e tenta forçar um sorriso que não sai nada natural.
- Que eu lembre você era bem mais comunicativo, o que aconteceu? - Pergunta
- O mundo - Responde ele agora encarando o copo de uísque.
- Xiii, que papo mais deprê - Fala ela tomando o copo de suas mãos e virando em um só gole - Quem é que vem para um cabaré para ficar depressivo?
Ele se esforça para pensar em alguma resposta, mas nada lhe vem à mente.
- Você tem que me contar o que anda fazendo, mas primeiro vamos acabar com essa cara fechada, vem, vamos dançar. - Insiste ela, o puxando pelo braço.
Mesmo relutante, acaba cedendo e logo está tentando mexer o corpo ao ritmo da música enquanto ela insiste em guiar com frases motivacionais como “vamos lá, se mexe”.  Enfim, era estranho, não conseguia lembrar da última vez que dançou porque provavelmente nunca o fez de verdade, no máximo já mexeu os ombros ao ritmo de alguma música bêbado em alguma festa, ou trocou empurrões em uma roda punk. Ela faz um gesto para um homem que está ao lado do som, logo a música troca para algo mais lento, ela puxa os braços dele e os encaixa ao entorno de seu corpo. Ele fica trêmulo, como se o nervosismo da adolescência voltasse a tomar conta dele, era estranho sentir outro corpo próximo ao dele depois de tanto tempo, o toque suave na sua nuca… o perfume lhe adentrando as narinas, parecia entrar em torpor.
- Então o que o tempo fez com você meu lindo? - Perguntou ela quase num sussurro.
Ele permaneceu calado.
- Tão Ruim assim? - Ela insistiu - Tem certeza que você não tá meio propenso ao drama? Tipo, olha pra mim… Veja onde estou e o que ando fazendo, nem por isso estou reclamando não é mesmo? Ah querido, você não tem ideia do tipo de gente que vem aqui, todos chorando sobre a vida como se tivessem perdido as pernas, mas na realidade todos eles só estão frustrados e desinteressados, mas insistem em jogar a culpa da falta de ânimo no universo. Você está aqui… Dançando… Respirando… Tirando sua capacidade de fala, não parece ter problema algum. Então por que parece tão abatido?
- Me aconteceu tanta coisa nos últimos anos - Eles responde a olhando diretamente nos olhos.
- Ah, ele fala. Muito bem - Zombou - E o que poderia ter te acontecido? Aposto que foi um rabo de saia não foi? Eu lembro como você sempre queria ser tão certinho, me passava muito pela cabeça que queria te encontrar depois dos 30 para ver se você havia mudado o mundo ou o mundo havia mudado você. Me parece que foi a segunda opção não é?
- É - respondeu um tanto sem jeito.
- Pobre menino bom, mais um rabo de saia quebrou seu coração. Desculpa por estar falando demais, mas tento compensar o que você não fala. Sabe, tem gente muito tímida que vem aqui que a gente praticamente tem que arrastar para o quarto. Falando nisso, eu até ia te convidar para a gente subir até um dos quartos, eu poderia tirar a sua roupa e contar as suas cicatrizes, poderia até dizer o quanto você é especial e o quanto eu te amo, se isso fosse fazer você se animar para investir num programa, mas acho que você não entrou aqui para isso não é? Não… Você não. Esse mundo aqui não combina nenhum pouquinho com você.
- Eu deveria ir embora? - Ele pergunta.
- Querido, para ir embora, em primeiro lugar, você precisaria estar aqui e não sinto que você realmente esteja. - Ela responde antes de lhe dar um beijo no rosto e se afastar.
Ele realmente não estava ali presente… não andava presente em lugar nenhum além do museu de torturas do passado que ficava na sua cabeça. Ele dá as costas e sai para a rua tentando entender tudo o que havia acontecido… Que dia louco havia sido. O que aconteceu no escritório? Aquilo era algo que o monstro faria, não ele, demorou um pouco a entender que o monstro nunca havia partido, do mesmo jeito que nunca havia chegado, ele era o monstro quando o alimentava, aquela fera era ele próprio, a diferença era sua capacidade de decidir ou não usar a coleira.
- Me consegue um cigarro? - Pergunta uma voz meio rouca assim que ele chega na rua. Ele olha de sobressalto e vê novamente aquele velho morador de rua novamente.  Puxa o maço de cigarros do bolso e alcança um para o homem.
- Obrigado meu rapaz, que deus lhe pague. Já estava começando a achar que eu era invisível - Diz o Velho abrindo um sorriso.
- Invisível ? - Perguntou.
- Sim - Responde o velho gargalhando alto - É só pedir uns trocados ou um cigarro e a gente fica invisível, todo mundo passa correndo sem olhar na sua cara.
- Verdade - Concordou - Invisível.
Quantas vezes ele já se sentiu invisível sem nem precisar pedir nada? Já perdera as contas.
- Um trago? - Pergunta o velho lhe oferecendo uma garrafa de uísque da procedência mais duvidosa possível.
“Por que não?” pensou ele antes de apanhar a garrafa e dar um longo gole. Parecia mais um tipo de combustível do que uma bebida alcoólica. Ele se engasgou por um momento e tossiu algumas vezes.
- Isso, sempre ajuda - Diz o Velho apanhando a garrafa de volta - Sabe, eu posso não ter muita coisa agora como tinha na sua idade, mas mesmo sem trabalhar mais e sem ter casa, não tem dia que eu não consiga relaxar no meio fio tomando o meu uísque e fumando um cigarrinho.
- Você sente falta? - Perguntou - Do trabalho, da casa?
- Diabos não, emprego é para loucos filho. E a casa… Bem… A casa sem uma família é só um centro de amontoar contas e se apoiar… Sem a família, a casa não é nada. - responde o velho parecendo travar no meio da resposta.
- O que aconteceu com sua família? - Se arriscou a perguntar.
- Foram embora… Mulher, filhos… todos eles. Eu tinha mais dinheiro que podia contar, filho, mas deixava o mundo me atingir, deixava o emprego me atingir e acabava descontando tudo em casa. A patroa pegou as crianças e foi embora morar com a irmã em outro estado e eu, tão cheio de mim, me achando o dono da razão, ignorei, achei que ela viria correndo atrás de mim. Cinco anos depois eu havia afundado tanto que já não tinha emprego e fui despejado. Assim o tempo foi passando… as memórias se indo… mas fica o uísque e o cigarro de companhia. - responde o Velho com os olhos ficando pesados de tristeza.
- Por que não tenta ir atrás da sua família? - Perguntou.
- Olha filho, se eu fosse atrás deles, com toda certeza posso dizer que encontrá-los faria muito bem pra mim. Mas que bem que eu faria para eles? Entende? Seria só mais uma atitude egoísta - Complementa o velho - Agora que tal se a gente ir até aquele mercado do outro lado da rua e você entrar e comprar uma garrafa pro seu amigo aqui passar a noite?
Ele concorda e os dois seguem até o mercado. O velho fica esperando do lado de fora enquanto ele entra. Não gostava muito de entrar em supermercados, lhe irritava o monte de pessoas se esbarrando com carrinhos cheios de bobagens que não precisavam… Ah, o grande centro do consumo. Crianças chorando porque querem “aquele” ou “aquilo”, gente no celular repassando listas de compras… tudo tão maçante.  Ele tenta ser objetivo, pega duas garrafas de um uísque decente, aproveita também e pega alguns pacotes de macarrão instantâneo para a janta… Será que estaria vivo até a janta?  Não importava, rumou até o caixa e largou seus itens sobre o balcão enquanto a atendente checava o troco para entregar a cliente a sua frente.
- Parece um jantar promissor - Diz uma voz feminina surgindo de trás dele na fila do caixa. Ele se vira e se depara com sua nova vizinha, Vitória.
Duas garrafas de uísque e macarrão instantâneo, se ele não tinha verdadeiramente um letreiro lhe indicando fracasso, aquelas compras sobre o balcão faziam perfeitamente o serviço. Não havia muito o que responder, apenas deu de ombros e forçou um sorriso.
- Desculpa, não queria te importunar, só puxar assunto - Responde ela um tanto sem jeito - Você não tá bem né?
O que diabos acontecia? A depressão tinha um letreiro luminoso ou a vizinhança estava repleta de videntes?
- Então, tirou o dia de folga? - Ela pergunta.
- Demitido - Ele responde rapidamente
- Nossa, que chato… ou não né? depende do emprego. - Ela comenta sem graça.
Ele sai do mercado, ela segue junto, momentaneamente em silêncio, algo pelo qual agradece. Assim que chega do lado de fora ele entrega uma das garrafas ao velho, que lhe agradece sorrindo e sai cantando pela rua.
- Que bacana - fala Vitória, ao ver sua atitude - Conhecido seu?
- Outro desgarrado - Ele responde sem pensar muito. Outro desgarrado? Que diabos havia falado?
- Ah, entendo. Então você se considera um desgarrado? Deve ser difícil - Ela diz enquanto lhe observa.
- Olha, me desculpe, eu só estou preso. Preso em um momento ruim, ok? - Ele tenta justificar sem saber ao certo como poderia fugir daquela conversa nada agradável sem parecer ainda mais idiota.
- Preso? Acho que talvez eu entenda - Diz a mulher mostrando um sorriso.
Eles seguiram rumo ao prédio sem trocar mais nenhuma frase, mas por todo o caminho aquele último sorriso não deixou o rosto de Vitória em nenhum momento.
Assim que chegam ao andar, ele vai até a porta do seu apartamento, convencido que poderia escapar até mesmo de uma saudação de despedida.
- Espere - Diz a vizinha lhe chamando - Vem cá, quero te apresentar alguém.
Ele retira a chave da porta e coloca no seu bolso após um longo suspiro, quase havia escapado. Ele se vira e segue até a próxima porta onde Vitória lhe aguardava ainda com um sorriso estranho no rosto. Assim que ele passa pela porta vê o modesto apartamento ainda tomado por caixas da mudança. A cozinha era o cômodo mais ajeitado que ele tinha visão, até o momento. Alguns vasos com flores já se encontravam espalhados pela sala e no chão havia diversas folhas de jornais e pedaços de plástico bolha.
- Sófia, temos visita - Diz Vitória fechando a porta.
“ Quem diabos deveria ser Sófia?” - Pensou ele.
Alguns segundos depois com um leve ruído elétrico, surge da direção do quarto uma menina de sete anos, cabelos cacheados na altura dos ombros, com um óculos quadrado de armação azul. As sardas no seu rosto combinava com seus cachos ruivos. Ela estava em uma cadeira de rodas motorizada, um tanto quanto surrada pelo uso. O braço direito estava dobrado em repouso sobre o corpo e não parecia responder, enquanto o esquerdo guiava um pequeno controle no braço da cadeira que a fazia se mover.
Sófia, esse é o nosso vizinho, ele não fala muito - Diz Vitória com um sorriso ainda maior.
- Oi - Diz Sófia com um grande sorriso de alegria no rosto.
- Ela tem paralisia - Completa Vitória antes mesmo que ele tenha a chance de perguntar.
- E sou a melhor aluna da classe. E eu sei pintura a óleo, você quer ver o que eu pintei? - Pergunta a menina sem perder a alegria.
- Ela também estuda Francês por conta própria e toca algumas músicas no teclado com a mão boa - Fala Vitória em um sussurro em seu ouvido conforme se aproximava. - E ai? Você ainda se sente preso? Se sente quebrado?
Uma bomba lhe atingiu o peito com aquelas perguntas, não conseguia respirar direito e a visão parecia embaçar. A sala começou a girar enquanto ele buscava apoio sobre a mesa. Assim que os sentidos pareciam se recobrar ele conseguiu visualizar a porta, saiu por ela sem se preocupar nem um pouco com o que mandaria a boa educação. Foi se encostando na parede do corredor até chegar a porta do seu apartamento, se alguém falara algo de sua saída repentina com certeza não tinha a capacidade de ouvir naquele momento. Apanhou as chaves e com certa dificuldade conseguiu destrancar a porta. Assim que entra em seu apartamento e tranca a porta, tenta entender o que se passa. O ar ainda parece lhe fugir dos pulmões, uma sensação estranha lhe toma o corpo… Ele cai de joelhos no chão e começa a chorar. Assim que as lágrimas começam a escorrer o ar parece lhe voltar e as paredes param de girar.
Derramar lágrimas não era algo estranho para ele, mas aquilo era realmente mais forte, tanta coisa parecia sair dele naquele momento, enquanto a cabeça ficava lhe martelando informações. Como podia aquela criança ser tão feliz, mesmo com limites impostos pela vida, enquanto ele era tão miserável? Como ele achava que tinha o direito de se martirizar? O sorriso da criança ainda estava cravado em sua memória visual. Ele se arrasta pelo chão e pega uma garrafa de uísque quase vazia que havia ao lado da cama e toma um bom gole. Sua visão agora está um tanto desfocada por causa das lágrimas que não param.
Assim que largou a garrafa vazia no chão se lembrou do velho, como podia? Alguém que vive nas ruas e vê o desprezo da sociedade de uma forma tão mais clara que ele, conseguia sorrir e ser feliz, colocava seus objetivos de vida em ter uma dose de bebida e um cigarro apenas? Nesse momento ele chega a se sentir como um dos mimados boa vida que sempre o desprezaram no colégio, era isso que ele parecia ser diante o morador de rua, alguém que tem muito mais do que precisa e acha a vida podre. Como ele poderia viver condenando a depravação humana, a frieza dos hábitos da sociedade, enquanto sua ex que presenciava esses hábitos de perto parecia não deixar se impactar por eles? Será que ela era tão forte assim? Ou ele que seria fraco demais?
Conseguia sentir sua derrota, mas desta vez era de uma forma diferente, ele percebia que não só estava em pedaços, como estava dentro de um poço e ao invés de tentar escalar ao topo, tudo que fazia era cavar mais e mais. Estava chorando demais, tentou pensar na última vez que havia chorado tanto e… Não conseguia lembrar. Ele não lembrar de algo? Um sorriso agora aparecia em seu rosto enquanto ele repetia feliz: “eu não lembro”.  Encarou a janela, o sol parecia mais forte, o quarto parecia ter mais cor e ele começou a se sentir mais leve do que jamais se sentiu. Levantou-se do chão, alegre, estranhou aquela sensação, mas um tanto mais calmo. Enxugou as lágrimas com a palma da mão, ergueu a cabeça e respirou profundamente. Sua cabeça estava em silêncio, sem nenhuma crise ou memória lhe atormentando naquele momento. Algo dentro dele havia lhe dado o direito de tirar uma folga.
Precisava se desculpar com a vizinha, assim como agradecer a ela e mais algumas pessoas. Só o fato de conviver, pouco que seja com alguém, nos últimos dias parecia ter levado ele a um limite, onde encarava a realidade ou sucumbia. Saiu pela porta, agora armado de um sorriso, caminhou pelo corredor e sentia que seu corpo flutuava, mas assim que chegou a porta do apartamento vizinho, sentiu novamente o chão. A porta ainda estava aberta, sua sacola de compras estava no chão no meio do cômodo… tudo estava empoeirado e vazio. Não havia uma mobília e nem uma única caixa. Na janela que dava para a rua podia ver que havia um cartaz de “vende-se”. Ele revirou o apartamento enlouquecido, no meio da poeira que cobria o chão só conseguiu enxergar a marca das próprias pegadas.
Chocado, saiu para a rua apressado, assim que passou pela frente do mercado, viu um funcionário na frente varrendo os cacos de vidro de uma garrafa que lhe era bem familiar, era a garrafa de uísque que havia dado ao velho. Ainda tomado pelo espanto, decidiu se aproximar.
- O que aconteceu com o velho? - Perguntou ao rapaz.
- Que velho? - Perguntou se virando - Ei, você é o cara que derrubou a garrafa.
Sua desconfiança estava provavelmente certa, ele estava ficando maluco. Correu em disparada para o  outro lado da rua, mas apenas para ver que a placa onde dizia: “Le Vieux Loup”, agora dizia “Vende-se”.  O local estava completamente abandonado e havia até algumas tábuas pregadas a portas e janelas para evitar invasores.
  O ar começa a lhe fugir de novo. Que diabos era aquilo? A ex… O velho… A Vizinha… ninguém realmente existia, o pouco contato humano que teve nos últimos dias havido sido uma ilusão. Será que seria internado e passaria o resto dos dias sendo medicado? Estava assustado. Ele acende um cigarro e começa a caminhar sem rumo. “Foco”, pensava ele. Deveria haver algum sentido em tudo que aconteceu, precisava ter.
Enfim, algumas quadras depois o sentido lhe encontrou. Ele cai de joelhos e deixa o cigarro cair entre os dedos. Ele não estava ficando louco, ele já era, ele era quebrado. O monstro que nunca existiu era um pedaço dele, assim como o garoto inocente e sonhador fora outro. Agora ele conseguia entender… O Velho… todos os outros, eram pedaços dele mesmo, cada parte tentando salvar o todo. Cada frase que ouvia é o que queria dizer para si mesmo, o que sabia que precisava ouvir. Se sentia melhor, mas foi com um falso apoio, não poderia contar com aquelas pessoas pois elas nunca existiram. Então, pra que se sentir melhor se ainda era tão sozinho? Qual seria a diferença? Ali ele estava trancado em uma encruzilhada entre o “terminar de cair” ou “se levantar.
- Você tá bem? - Pergunta uma voz feminina as suas costas.
Ele se vira e vê a moça do café se abaixando ao seu lado.
- Expresso curto né? - Diz ela sorrindo e lhe oferecendo um café que trazia nas mãos - Toma, você vai se sentir melhor.
Ela é real, pensou ele ignorando qualquer crise ou encruzilhada mental que se apresentava, levantou do chão enquanto a olhava bem nos olhos e um sorriso voltava a lhe surgir.
- Você tá bem? - Pergunta ela novamente.
- Sabe… Acho que eu tô - responde ele sorrindo.

Ísis Oliveira
Enviado por Ísis Oliveira em 04/12/2019
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Sobre o autor
Ísis Oliveira
Porto Alegre - Rio Grande do Sul - Brasil, 32 anos
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Ísis Oliveira