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Felicidade

Aurora chegava às cinco da tarde do trabalho. Vinha do centro da cidade, cambaleando por entre um mar de gente nos coletivos. Era doméstica fora de casa, mãe dentro dela. Eram duas as conduções, pagava com o dinheirinho que a patroa lhe dava a mais no salário. Sempre dizia "boa tarde" ao motorista o qual nem sempre era recíproco, mas não podia deixar de desejar uma boa tarde a quem quer que fosse "não posso deseducar as crianças"- pensava Aurora; "se um não retribuía, um outro bem que poderia fazer essa gentileza". Nunca tinha a sorte de ir sentada, às vezes alguém lhe cedia um lugar, raras as vezes na verdade; gente cansada não é tradução de gente educada. Depois de uma hora de viagem, descia do ônibus.
  Aurora, num certo dia de nuvens escurecidas, pensou em agradar às crianças e ao marido. Parou numa mercearia, pediu uma sacola de legumes sortidos e um quilo de agulha com osso -faria um cozidão naquela tarde-noite fria. "Eles vão adorar".
Tirou uns trocados da bolsa e os entregou à dona; em sua mente eram os doze e cinquenta mais bem gastos do mês, pois a felicidade da família não tinha preço, amava-os mesmo com o dinheiro escasso.
  Na frente de casa revirou a sua bolsa, não achava a chave. Resolveu então chamar por Gabriela, a sua filha mais nova (cabelos enrolados e os olhos escuros como petecas). A filha viria a abrir o portão em cinco minutos, estava saindo do banho. Gabi ajudara a mãe com as duas sacolas e a bolsa. Deixou-as em cima da mesa da cozinha.
   Aurora tirou a roupa, procurou por um toalha, encontrou e então entrou no banho. Debaixo do chuveiro pensava na noite reunindo todos à mesa, um natal fora de época, uma hora fora do comum, longe das rotinas urbanas isoladas em seus anseios diários. Acabou. A toalha enxugava o corpo e a alma, um dia pesado sob a condição humana do trabalho, além de de ter duas filhas pra criar. Saiu do banho.
   Aurora então se vestia, a melhor roupa era para a noite.
   Pôs-se a cozinhar. Alho, cebola, cheiro-verde, pimentinha, carne, água e sal. Não necessariamente nessa ordem.
   Aurora então deixou a comida no fogo, esperaria o marido chegar. Seria o tempo ideal. Tudo estava em seu simples, entretanto eficiente plano.
   Marcou seis e meia o relógio da cozinha. O marido nunca chegava antes das seis. Atraso pelo trânsito era uma consideração. Esperaria mais tempo, que mal faria?
    Às oito horas a família começou a ficar preocupada, pensava em ligar para a firma. Uma ligação cortou o ar da sala, pairando pelo cheiro da comida na cozinha antes que pudessem ir atrás do homem.
    Aurora atendeu ao telefonema. Ficou alegre ao ouvir a voz do marido. Contudo, o sorriso deu lugar às lágrimas em poucos segundos. Afinal, o que teria dito o homem pelo telefone?
    "Cuide das crianças. Não voltarei para casa. Já estou em um ônibus para outra cidade. Indo procurar a minha felicidade. Fiquem com Deus".
   
   
Gabriel Meira
Enviado por Gabriel Meira em 29/11/2019
Código do texto: T6806833
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Sobre o autor
Gabriel Meira
Belém - Pará - Brasil, 24 anos
33 textos (804 leituras)
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Gabriel Meira