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Sob a sombra de um hibisco vermelho.

Sob a sombra de um hibisco vermelho, ali estava eu, sentado, contando as gotas de suor que escorriam pelo rosto, passei a mão na nuca, os dedos quase grudaram naquele líquido retido do meu corpo. Dizia eu: “até quando seremos castigados com tanto calor? Quanto pecado ainda resta para pagarmos? A ajuda de Simão pouco adiantou ao querer dividir o peso da cruz.”.
__ Quanta blasfêmia! – falou minha mãe aterrorizada.
Minha mãe estava ali, estendendo roupas no varal, todas brancas balançando com o vento discreto que surgia vez e outra tentando apaziguar o “mormaço” que fazia. A claridade das roupas com o forte sol fazia minhas vistas doerem mais ainda. Era melhor  fechar a boca e não blasfemar mais, pois a velha poderia de onde estava me acertar um pau na cabeça e me mandar pro além, vai que assim acertava as contas de uma vez e acabaria a agonia de procurar ar pra respirar. Acendi um cigarro de palha, só assim os pensamentos de blasfêmias se esvaíam e me dava um ar de refrescância.
__ Tá procurando refrescância tacando fogo no ar que nos resta? Vai acender essa carniça no inferno!
 A velha parecia ter lido meu pensamento! Mas dei um jeito de apagar logo o cigarro porque praga de mãe é pra valer, se pega na gente é uma vez só! Tô longe de querer partir desse mundão e muito menos querer ir pro inferno, lá deve estar bem quente.
__ Homem barbado e sem juízo ficou tu, o dia inteiro sentado na sombra ao invés de caçar o que fazer! Ao menos podia se dar o trabalho de buscar uma mulher pra cuidar de tu quando eu partir dessa vida que já tô é calejada de tanta lida.
E eu vou buscar mulher onde? A Maria por quem era enrabichado fugiu pra cidade grande atrás de homem rico. A Lizette é mulher minha e mais de uma quarentena do povoado. A Francisca tá solteira mas é tão magra que chega parecer doente a coitada, se me caso com ela nem herdeiros hei de ter. Tem a Virgínia que é moça velha, não muito bonita mas de nome respeitado e dona de mercado, difícil é dar trela pra fracote sem emprego como eu.
___ Pois ande logo criatura! Levante daí! Pare de pensar na morte da bezerra e vá no mercado buscar a quarta de polvilho pra fazer os biscoitos, ande! Vá depressa!
Abri os olhos meio tonto, meio agoniado com as batidas do pano de prato que minha mãe sempre carregava nos ombros, a velha era brava por demais, já devia ter me chamado uma vez e eu não escutei por pensar em Virgínia.
Levantei apressado, ajeitando o chapéu na cabeça e alisando a camisa no corpo, ia me encontrar com Vírginia, na desculpa da quarta de polvilho quem sabe não a chamaria pra tomar um refrigerante na venda do Zé Pelé. Eita lasquera! Mas nem dinheiro pra refrigerante tenho!
___ Cidade sem emprego é lugar abandonado por Deus, fim de mundo da porra!
E nem fui no mercado ver Virgínia, caí no chão com o peso do chinelo que veio numa voadora me acertando bem de cheio na nuca.

Liliene Rodrigues
Enviado por Liliene Rodrigues em 15/10/2019
Código do texto: T6770180
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre a autora
Liliene Rodrigues
Catalão - Goiás - Brasil, 35 anos
54 textos (3117 leituras)
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Liliene Rodrigues