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Festa Surpresa

Venceslau era o típico funcionário bajulador. Tal característica seria um problema dentro de uma empresa, principalmente em relação aos funcionários da mesma.

Com Venceslau, no entanto, dava-se o contrário, era admirado e respeitado por todos os colegas. Era considerado o mais solícito funcionário daquela conceituada empresa. Não havia tempo ruim, nem sequer obstáculos quando se tratava de socorrer a um colega em apuros, mesmo quando isso significasse ficar até mais tarde no serviço, sem receber hora extra. Para ele, o importante era ajudar.

Até mesmo o chefe, Dr. Bartolomeu, ao invés de se irritar com todo aquele cuidado excessivo do subordinado, tinha para com aquele homem uma grande admiração.  Afinal de contas, não faltava ao serviço mesmo doente, era o primeiro a se voluntariar para as tarefas mais penosas, além de não reclamar quando precisava fazer serão.

Apesar de um contumaz puxa-saco, Venceslau tinha a seu favor o fato de jamais falar mal de qualquer um dos colegas de trabalho, o que era muito bem visto por todos, e que lhe dava a fama de "o mais confiável funcionário", na opinião de seus superiores.
Um dentre muitos dos exemplos de suas qualidades mais positivas foram  testemunhados por Julinha, representante do grêmio - a qual tinha como uma de suas atribuições arrecadar fundos para os colegas em apuros financeiros -, não foram raras as vezes quando Venceslau ajudou a engordar as listinhas de doações com substanciais contribuições.

Julinha, entusiasmada com aqueles gestos de generosidade, não conseguia segurar a língua, apesar dos rogos do rapaz, para que nada falasse sobre suas quantias doadas. "que sua mão esquerda não saiba o que faz a sua mão direita", dizia ele.

Assim, também exposta sua generosidade franciscana, deu-se um fato que alteraria sua boa trajetória no escritório. Foi em uma certa ocasião, enquanto separava alguns papéis no arquivo, em busca de uma nota fiscal antiga, quando notou que algo havia se enganchado no trilho da gaveta do arquivo, dificultando o bom funcionamento da mesma. Habilmente foi tentando retirar o pedaço de papel amarrotado, até conseguir com que o mesmo saísse quase inteiro.

 Era uma antiga fotocópia.

Abriu o papel, esticando-o sobre o arquivo, tentado retirar alguma graxa que havia ficado em algumas partes.

Foi quando, para sua surpresa, leu o nome do atual chefe de seu setor: Bartolomeu Silva Santos, e a data de nascimento do mesmo.

Foi como jogar um fósforo aceso em um balde de gasolina. Ficou entusiasmado ao perceber que o aniversário do chefe se daria em uma semana. Foi o que bastou para que o coração bajulador de Venceslau batesse mais forte.

Não demorou para que o homem fosse percorrer cada canto escondido da empresa com uma listinha de contribuições para a festa surpresa do Dr. Bartolomeu. E, conhecendo a tenacidade daquele indivíduo, era praticamente impossível escapar da facada no bolso.

Nem no banheiro os pobres funcionários estavam livres de escapar da listinha da festa surpresa do chefe, ou até mesmo alguns clientes que tiveram o azar de cruzar com Venceslau.

Assim, arrecadando um valor considerável - em sua visão muito menos que o chefe merecia -, saiu para comprar os itens para a festinha.
No dia seguinte, o setor amanhecia já enfeitado de balões multicores, faixas de congratulações ao Dr. Bartolomeu e um grande bolo de nozes, com tantas velinhas que era até difícil ver a parte de cima.

Equipados com chapeizinhos de festa e línguas de sogra, todos ficaram posicionados, segundo as ordens de Venceslau, que pediu silêncio, pois o Dr. Bartolomeu havia acabado de entrar no prédio.

Bartolomeu, sem ter a mais remota ideia do que o esperava, foi surpreendido por um ruidoso e coletivo "feliz aniversário", liderado pelo entusiasmado Venceslau, que já correu em direção ao chefe assim que acabaram de pronunciar o "ra-tim-bum", apertando sua mão com tal ímpeto que, por muito pouco, não atira o homem ao chão.

Assim, quando a balburdia se acalmou e todos já haviam pego sua fatia do bolo, Dr. Bartolomeu chamou Venceslau em um cantinho da sala, e perguntou, ainda não refeito da surpresa, quem teria sido o responsável por aquela festa.

Com um largo sorriso, Venceslau apontou o indicador para si próprio.

- Fui eu, Dr. Bartolomeu! Fiz uma vaquinha e preparei essa merecida surpresa ao nosso querido líder!

-Mas quem lhe disse que faço aniversário hoje?

Assim, retirou do bolso a xerox e entregou ao chefe.

- Caro Venceslau, você cometeu um equívoco! Meu aniversário não é hoje! Veja aqui, tem um pouco de graxa no mês, e o que parece um 12, é, na verdade, um 10!

Venceslau, que até aquele momento era o rosto mais feliz da empresa, ficou lívido, e depois avermelhou como um pimentão.

A princípio ficou paralisado. Depois foi saindo de fininho, sumindo pela porta que dava para a recepção.

Se passaram anos depois do ocorrido. Alguns funcionários ainda lembram do semblante do pobre Venceslau, e de como passou por todos muito transtornado.

Nunca mais foi visto! Dizem que pediu demissão por carta. E que, alguns meses depois do ocorrido, ficou muito doente e morreu.

Pobre Venceslau!




Koelho
Enviado por Koelho em 14/10/2019
Reeditado em 14/10/2019
Código do texto: T6769428
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre o autor
Koelho
Diadema - São Paulo - Brasil, 55 anos
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