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Aquele Vizinho Esquisito

– Olha, vizinha, eu acho que o guri do 420 está na droga.

– Também acho... tem todo o jeito. Ele quase não sai de casa, ta enfurnado no quarto o dia todo.

– E esses motoqueiros que vêm aqui todo dia? Sabe-se lá se o que estão entregando... É droga!

- Olha que eu também já reparei. Os pacotes que esses caras trazem parecem livros, tenho certeza que não são de comida, não têm cheiro nenhum.

- E esse guri não conversa direito com ninguém. Sempre discorda de tudo que a gente diz, sempre questiona tudo que a gente fala. E qualquer resposta que a gente dá ele já se irrita, parece que a gente falou alguma asneira. Ah, e sempre olha pra baixo, parece que foge da gente.

- Isso é culpa no cartório! E fica acordado até tarde da noite... a senhora já notou que a luz do quarto fica acesa madrugada adentro? Duvido que esteja estudando.

- E os olhos? Se estivesse lendo a Bíblia não ficaria com aquelas olheiras medonhas, os olhos cansados, inchados... Aqueles óculos fundo de garrafa não disfarçam nem um pouquinho.

- E vermelhos! Esse guri tá muito estranho. Dessa idade e não tem uma namorada.

- E não é de hoje. Uma vez a minha sobrinha chamou ele aqui em casa. Passaram um tempinho no quarto juntos, eu achei que estavam de namorico... Abri a porta de supetão e... que nada! Estava ela no celular, e ele fuçando no computador, tinha aberto tudo e tirava umas peças... Falava umas coisas tipo capacitores, linhas de tensão. Parecia que a guria nem estava ali.

- Ah, sei, eu lembro que ele também ajudou o meu finado marido com o imposto de renda. Mas olha, não sei o que ele fez com as informações... Hoje em dia, a gente não sabe se esses emaconhados não vão vender os dados da gente para um bandidão, para trocar pela droga.

- E a fumaça que de vez em quando sai da janela do quarto dele, hein? Só pode ser do fumo. Esses dias a dona Maroca faxineira ainda comentou que ele tem uns vidros e frascos de química no quarto. E seguido ele fala em “2%”. É capaz de estar fabricando essas químicas do mal.

- Valha-me! Ela também me falou que tem um monte de tralha no quarto desse rapaz... um lixaredo, sucata velha. E ele não deixa ela limpar, diz que constrói coisas com esses materiais. Sabe-se lá se não tá ficando louco da droga. Daqui a pouco vai virar um doidão.

- E quando ele para no jardim do prédio e se deixa na grama de noite? A senhora já viu? Diz que ta contemplando a natureza, estudando as estrelas. Quando eu vi, ele até estava com uma luneta e tal, bem maluco. E daí depois dorme até tarde, chega meio-dia ele ainda não tá de pé.

- Aliás, parece que nem toma banho. Acho que a droga não deixa perceber que está fedorento.

- Ai, eu já reparei! Que horror! Imagina que fica tão ligadão das maconhas que nem percebe!

- E outra, né? Uma hora tá felizão, rindo por nada, falando em “conexões de ideias”! Outra hora tá tristão, outra hora ta brabão. Qualquer barulho deixa ele todo irritadinho. Que guri maluco.

- Bem louco, né? Eu noto isso também quando ele desce as escadas pra buscar as “entregas”... Às vezes sai correndo, às vezes se arrasta. Se a gente pergunta alguma coisa, fica hipersensível.

- Está bem estranho mesmo. E as roupas? Sempre com aquelas camisetas molambentas, de desenhos agressivos e mensagens esquisitas... Tem tudo que é língua, japonês, chinês, sei lá.

- E a dona Maroca diz que tem um monte de livros no quarto dele, enciclopédias, livros grossos. uma estante de parede inteira cheia de livros em tudo que é língua... E ele sabe ler todas elas!

- Vizinha, que pavor! Eu já ouvi ele no celular falando em línguas, parecia que estava em transe. E ele tem uns tiques, a senhora já reparou? É da droga, com certeza. Fiquei toda arrepiada.

- Que medo! Deve ser desses efeitos que a droga tem no psicológico da pessoa. A senhora já ouviu falar? Diz que ele até abandonou a faculdade! Foi faltando, faltando, faltando, até que perdeu o semestre. E olha que ele cursava Informática na Federal! Dizem que dá emprego certo.

- Mas que barbaridade! Um guri dessa idade sem estudar. E garanto que não trabalha, pois está o dia todo em casa. E que eu ouça quando passo na frente da porta, parece que está é nos videogames - ou naquele piano eletrônico modernoso que ele tem -, e a droga é que deixa ele ligadão a noite toda pra essas bobagens.

- A dona Maroca disse que ele estuda e trabalha de casa, coisa de internet. Mas não sei não, hein? Sem emprego e sem estudo nessa idade, daqui a pouco está pedindo dinheiro para os vizinhos, pra sustentar o vício. Deus nos livre!

- É... e isso se não nos roubar, que essa gente tem ligação com bandido, daqui a pouco tá invadindo a nossa casa, pegando nossos pertences, pra vender e trocar pela droga.

- Pois a dona Maroca disse que as coisas do 420 estão sumindo... só aumentam os cacarecos. Diz que quando ela perguntou, ele falou em minimalismo... acho que deve ser outra dessas ladainhas de bandido para doutrinar os guris drogados. Vão virar um exército de escravos deles.

- E a senhora já reparou nas companhias? Esses caras que vêm trazer a “mercadoria”... um gordinho esquisitão, uma guria tatuada, um magrão esquisito. Eles se dizem nerds, geeks, gamers, até os nomes são esquisitos. Imagina, se a turminha nova dele é essa, as únicas pessoas que falam com ele são assim, imagina se esse rapaz não está no mau caminho...

- É... a guria eu já vi trazer um monte de doces... É pra atacar o efeito das maconhas. E olha que ele deve estar falando com os outros bandidos nessas internet também. Já pensou? Essa gente que vem aqui já é bizarra... imagina o feitio dos outros, os da internet, que a gente nem vê?

- E não tem televisão, a senhora sabia? Passa o dia lendo ou no videogame ou na internet ou futricando no lixaredo ou nas química dele, a dona Maroca que disse. Ela disse que ele até fica desenhando uns seres bizarros, diz que são personagens dos livros... bem louco.

- Imagina! Não tem respeito nem quando a faxineira está lá. A senhora sabia que ele discute o preço da faxina com a dona Maroca? Faz umas contas bem loucas, de cabeça, fala da quantidade de minutos que ela usou na faxina, fala de análise combinatória, vê se pode! Além de tudo, é um sovina! E diz que é coerência, proporcionalidade. Tá ficando malandro com os bandidos.

- Esse guri passou dos limites. Eu soube que ele foi até ver uma psicóloga. Tinha que ver era um padre, pastor, pai de santo, sei lá. Olha ele ali chegando, todo faceirão – tá naqueles chiliques.

- Vizinhas! Fiz um teste de Q.I., e deu 150! Fiz outro teste, e fui considerado do grupo da Mensa!

- Ai que horror! Que grupo é esse? É algum grupo de risco? E aí, a psicóloga mandou te internar?

- Que me internar o quê! Só se for para eu me internar em casa! Já me recomendou mais outro trabalho intelectual avançado que eu posso exercer via internet! Amo ser Analista de Sistemas!
Aline Malanovicz
Enviado por Aline Malanovicz em 14/10/2019
Reeditado em 14/10/2019
Código do texto: T6769407
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre a autora
Aline Malanovicz
Porto Alegre - Rio Grande do Sul - Brasil, 39 anos
388 textos (376228 leituras)
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Aline Malanovicz