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Meus contos em 2019, setembro ... José João Bosco Pereira

J B Pereira

           José João Bosco Pereira, nascido em Alfenas – MG, em 25 de março de 1961. É filho de Sebastião Pereira e Maria Mercês N. Pereira. Professor de língua e literatura portuguesa desde 1992. Formou-se em Letras em 1996. Possui o mestrado em Teoria da Literatura (2011), ambos pela UFS- MG. Os artigos (2004–2019) estão em: UFSJ – MG; UFG – GO, Assis – SP, Maringá, UEM - PR. Título da dissertação do mestrado é "Sebastião Bemfica Milagre (1923-1992): o Lírico da modernidade em Divinópolis". Mais e-book "O desafio da escola democrática na era das novas tecnologias", Novas Edições Acadêmicas (2014). Tem 4 livros de poemas e 14 e-livros no Recanto das Letras. Publicou o poema "Telhado de vidro" na Antologia poética do Paraíba. Participou da I Antologia de Poemas Recanto das Letras. Escreveu sobre Imigração Italiana para Andradas – MG (2019). Envia seus artigos a jornais locais e às revistas acadêmicas.

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Aurora: mirar bem a sofrência!
 
          Estava eu, restrito ao recinto úmido e frio, escuro e desconfortável. Há dez anos, fico entre estas paredes lodosas e às do pátio de sol, pela manhã. Minha visão turvou-se de modo a pouco enxergar-me, não me reconheço mais, a voz não sai. Não tenho com quem falar. Estive delirando...
 Agora estou em paz. Não sei por que o advogado não vem mais. E os amigos e os parentes diminuíram até desaparecer. Sinto-me transcendendo a mim. Vem um pássaro velho pela manhã, um grilo à tarde e um rato à noite. Cousa estranha, viver assim! Ao fim de alguns anos, definhamos. Alguns — dizem os carcereiros — acostumam-se absurdamente, tal o medo que eles têm de sair e não conseguirem viver lá fora na luz do dia, debaixo do sol... As trevas nos engolfam e nos aprisionam não só o corpo árido como também assola a deserta alma silente de humanidade.
 Nada sei que sei: se sei nada sei. Se sei nada poderia saber ser-aí? Poderia ter sabido de que e como me acharam para prender. Puxa: o mal, esse vilão parceiro do encardido, depois que veio do Éden como astuto animal fingido, agora habita os íntimos das consciências enxotando as luzes, as cruzes, urzes, com ódio e inverdades mil. Amanhã, novo dia será: poderei sair. Mas se sair, aonde ir? E, se for, onde ficar? E se ficar, por onde e como começar?
 Todos os dias, antes da visita, ia à capela e soturna oração fazia. Passava a rua, do outro lado, havia o grande prédio da Santa Casa. A maternidade ficava ali junto, ao lado. O elevador subia lento e o coração batia rápido.
Ao abrir a porta da UTI, um morrera. O pai do bebê chorava. Todos ficaram apavorados, e este pai pôs-se a orar confiante: “O justo nas mãos de Deus deve se lançar”.
As vozes inquietas interiores esboçavam clamores. Aquilo era verdade, o coração vivia na ansiedade. Olhou ao redor, tudo quieto. De trás, uma moça veio:
 
— Faça jejum, oração, pode seu filho recuperar... Se for da vontade de Jesus, será!
Tocou-o com o dedo tremeluzente e cuidadoso; e entre agulhas e tubinhos, soros e remédio, a água-benta tornou-se batismal.
 — Eu, meu filho, batizo Lucas em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo. Amém!
Passados 24 dias, naquele janeiro de 1998, saíram da Santa Casa; tomara banho o pequeno e magro filho, ainda com metade do cabelo, que, confiantes, as enfermeiras do banho logo rasparam por igual. Carequinha lá estava!
E saímos da Maternidade São Lucas. Nascimento: 11 de janeiro, Batismo de Jesus: às 20 h. Vinha são e curado, o menino! Percorremos o quarteirão por trás, adentramos à clínica, foi feito o teste do pezinho. Milagre!

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Milagres existem? Sim, houve sinais e ouça a brisa doutro tempo: fé na criança interior!

Era tarde da noite, o garoto acabara de nascer. E, à mãe, não voltara. O casal ficou preocupado. Logo, a enfermeira disse estar na incubadora! Então, os dois ficaram apreensivos, o pai vomitou no banheiro, a mãe chorou baixinho.
Lá foi o pai ver o filho quieto, entre outros prematuros. Todos lá a aguardarem sinais de recuperação, o pai orou ao céu pedindo o milagre e à capela adentrou. Viu a Virgem com o Menino Jesus de lado e uma prece marga logo evocou. Deus concede vida e por Jesus, que mesmo não o poupou por nós, dê a ele chance. Faz o milagre.
Os dias se passaram. A freirinha veio com o vidro escuro com água-benta para o pai batizar. “Como chamará seu filho?”, ela perguntou. Não sei, irmã, eu disse, ainda vou falar com a mulher. “Leva este frasco”, ela ofereceu, “lá pode você batizar, entrega a Deus e aguarda o sinal”.
Todos os dias, antes da visita, ia à capela, soturna oração fazia. Passava a rua, do outro lado, havia o grande prédio da Santa Casa. A maternidade ficava ali junto, ao lado.
O elevador subia lento e o coração batia rápido.
Ao abrir a porta da UTI, um morrera. O pai do bebê chorava. Todos ficaram apavorados, e este pai pôs-se a orar confiante: “O justo nas mãos de Deus deve se lançar”.
As vozes inquietas interiores esboçavam clamores. Aquilo era verdade, o coração vivia na ansiedade. Olhou ao redor, tudo quieto. De trás, uma moça veio:
— Faça jejum, oração, pode seu filho recuperar... Se for da vontade de Jesus, será!
Tocou-o com o dedo tremeluzente e cuidadoso; e entre agulhas e tubinhos, soros e remédio, a água-benta tornou-se batismal.
— Eu, meu filho, batizo Lucas em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo. Amém!
Passados 24 dias, naquele janeiro de 1998, saíram da Santa Casa; tomara banho o pequeno e magro filho, ainda com metade do cabelo à cabecinha. Confiantes, as enfermeiras do banho logo rasparam por igual. Carequinha, lá estava!
E saímos da Maternidade São Lucas. Nascimento no dia 11 de janeiro, Batismo de Jesus, às 20h. Vinha são e curado, o menino! Percorremos o quarteirão por trás, adentramos à clínica, foi feito o teste do pezinho. Ele muito chorou.
E nos aliviados, dissemos:
- Milagre!

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TEXTO ORIGINAL
17/10/2019.

Aurora: mirar bem a sofrência!

Estava eu, restrito em recinto úmido e frio, escuro e desconfortável. Há dez anos, fico entre estas paredes lodosas e às do pátio de sol pela manhã. Minha visão turvou-se de modo a pouco enxergar-me, não me reconheço mais e a voz não sai. Não tenho com quem falar. Estive delirando...

Agora estou em paz. Não sei por que, o advogado não vem mais e os amigos e parentes diminuíram até desaparecer. Sinto-me transcendendo a mim. Um pássaro velho pela manhã, um grilo à tarde e um rato à noite. Cousa estranha, viver assim. Ao fim de alguns anos, definhamos. Alguns — dizem os carcereiros — acostumam-se absurdamente, tal o medo eles têm de sair e não conseguirem viver lá fora na luz do dia e debaixo do sol... As trevas nos engolfam e nos aprisionam não só o corpo árido, mas também a deserta alma silente de humanidade.

Nada sei que sei: se sei nada sei. Se sei nada poderia saber ser aí? Poderia ter sabido de que e como me acharam para prender. Puxa: o mal, esse vilão parceiro do encardido, depois que veio do Éden como astuto animal fingido, agora habita os íntimos das consciências enxotando as luzes, as cruzes, urzes, nurses, com ódio e inverdades mil. Amanhã, novo dia será: poderei sair. Mas se sair, aonde ir? E, se for, onde ficar? E se ficar, por onde e como começar?

Lá o portão abriu-se, o coração inquieto, quis de novo à velha jaula adentrar-se. O novo, como dói: vejo os colegas em delito, saíram aflitos e agora de novo nesse infernal abrigo.

O homem com a caminhoneta parou, olhou e me disse pelo nome e um sorriso. Puxa! Nem sabia que sabia que sabiá sorria. Talvez o que me mantinha na prisão fosse uma Bíblia, a imitação de Cristo, o tratado da verdadeira devoção à Virgem Maria. E eu, depois de muitos anos, agora ao ver o sol lá longe, ensaiei um só — sorrir, sorriso, riso, sem precisão, sem saber o que iria acontecer. O homem, eu nem o conhecia, só depois de alguns dias caiu à memória: era o amigo de meu filho.

— Ele me deu dinheiro para cuidar do senhor depois que saísse da prisão estadual. E agora, infelizmente, morreu daquela doença — disse ele.

Fui ao banheiro, vomitei, chorei engasgado... Achava que o menino meu ainda vivia. E ele me lembrou ao amigo. E o amigo se lembrou desse velho cárcere carcomido pela insanidade e ingênua saudade.

Meu coração renascia a cada noite. Tudo era diferente. Ele, aos amigos apresentou. Vive momentos estranhamente. Vi mulheres, como são lindas! A prisão nos coloca em um buraco e nem carne e nem sexo a gente sabe mais que tem. Naquele instante, uma energia fluía aqui; o corpo alimentava de novo comida boa, namorada, casa, carro, jardim e flores, cão até peguei para cuidar.

O amor e a alegria à vida vieram junto com as lágrimas e dores. Cada coisa, tudo fazia a mim chorar. Eu espiava pela vidraça os guris a bola jogarem, as meninas com os meninos, agora juntos, estão criando e driblando. É bonito isso.

Fui careta: queria só a minha, que não chegava. Pois não sabia onde encontraria. Maria era a mais jeitosa, tímida, amorosa, fiel, boa filha e mãe seria, certamente. E com ela quis eu casar. Tudo deu certo. Mas, um dia, à porta a polícia bateu: pegou meus documentos, pediu que eu fosse à delegacia. Fui preso sem saber: confundiram-me com outro, e o pecado dele lá na prisão úmida e fria paguei. Agora, dez anos depois, nada sei. Só sei que a vida continua: deixe-me viver o pouco que me resta. E viver é bom à beça!

Milagres existem? Sim, houve sinais e ouça a brisa doutro tempo: fé na criança interior!

Era tarde da noite, o garoto acabara de nascer e, à mãe, não voltara. O casal ficou preocupado. Logo, a enfermeira disse estar na incubadora! Então, os dois ficaram apreensivos, o pai vomitou no banheiro e a mãe chorou baixinho.

Lá foi o pai ver o filho quieto, entre outros prematuros. Todos lá a aguardar sinais de recuperação ou... Orou ao céu pedindo o milagre e à capela adentrou. Viu a Virgem com o Menino Jesus de lado e uma prece marga logo evocou. Deus concede vida e por Jesus, que mesmo não o poupou por nós, dê a ele chance. Faz o milagre.

Os dias se passaram. A freirinha veio com o vidro escuro com água-benta para o pai batizar. “Como chamará seu filho?”, ela perguntou. Não sei, irmã, eu disse, ainda vou falar com a mulher. “Leva este frasco”, ela ofereceu, “lá pode você batizar, entrega a Deus e aguarda o sinal”.

Todos os dias, antes da visita, ia à capela e soturna oração fazia. Passava a rua, do outro lado, havia o grande prédio da Santa Casa. A maternidade ficava ali junto, ao lado. O elevador subia lento e o coração batia rápido.

Ao abrir a porta da UTI, um morrera. O pai do bebê chorava. Todos ficaram apavorados, e este pai pôs-se a orar confiante: “O justo nas mãos de Deus deve se lançar”.

As vozes inquietas interiores esboçavam clamores. Aquilo era verdade, o coração vivia na ansiedade. Olhou ao redor, tudo quieto. De trás, uma moça veio:

— Faça jejum, oração, pode seu filho recuperar... Se for da vontade de Jesus, será!

Tocou-o com o dedo tremeluzente e cuidadoso; e entre agulhas e tubinhos, soros e remédio, a água-benta tornou-se batismal.

— Eu, meu filho, batizo Lucas em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo. Amém!

Passados 24 dias, naquele janeiro de 1998, saíram da Santa Casa; tomara banho o pequeno e magro filho, ainda com metade do cabelo, que, confiantes, as enfermeiras do banho logo rasparam por igual. Carequinha lá estava!

E saímos da Maternidade São Lucas. Nascimento: 11 de janeiro, Batismo de Jesus: às 20 h. Vinha são e curado, o menino! Percorremos o quarteirão por trás, adentramos à clínica, foi feito o teste do pezinho. Milagre!
J B Pereira
Enviado por J B Pereira em 18/09/2019
Reeditado em 17/10/2019
Código do texto: T6748199
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