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Onde foram parar meus óculos

Ele ainda existe e continua sendo o boteco mais fedorento do bairro.

Tão pequeno e acanhado que os clientes no balcão ficam com os glúteos do lado de fora e por isso é carinhosamente conhecido como Bunda de Fora, e para os mais íntimos simplesmente Bundinha.

Para variar um dia bebi todas e mais algumas e voltei para casa trêbado e ziguezagueando igual a uma máquina de costura pela rua. Não satisfeito com o porre homérico ainda trouxe duas doses de vodca da pior qualidade - carinhosamente apelidada de combustível da NASA -  devidamente acondicionadas em embalagem para viagem.

Milagrosamente cheguei em casa  e coloquei o combustível no congelador. A seguir desabei na cama.

No dia seguinte acordei com sentimento de derrota no peito. Mais uma vez deixei minha mulher - a santa - preocupada com minhas constantes bebedeiras que, naquela época, eu utilizava como anestesia para os tantos problemas que me atormentavam.

Com a cabeça latejando, secura na boca igual a um perdido no deserto e jurando que aquele porre seria o último levantei da cama. Enxerguei tudo embaçado e demorei uns segundos para chegar à óbvia conclusão que estava sem meus óculos.

Procurei no quarto, vasculhei os demais cômodos e até tentei na casa do gato e nada. Com os neurônios que me restavam relembrei o itinerário do dia anterior além do Bundinha: banco, supermercado e farmácia.

Cegueta fui a cada um deles, perguntei e ninguém tinha achado nenhum óculos. Última parada e esperança: bundinha. Meus assíduos parceiros bem como o dono da espelunca não sabiam de nada. Com o tanque de combustível abastecido voltei para casa cegueta e derrotado.

Pedi ajuda da santa que amorosamente deu uma geral na casa sem sucesso. A solução temporária foi pegar meus velhos óculos e usá-lo até encomendar um novo. O grau era inadequado e apenas enxergava menos embaçado.

Marquei um oftalmo e na véspera da consulta minha mulher na cozinha gritou para mim que estava no quarto: Bêeeeeem vem cá! A voz era de ordem e como estava com a moral em baixa acatei imediatamente. Em lá chegando ela abriu vagarosamente a porta de congelador e me disse: olha o que está aqui te esperando!.

Com os olhos esbugalhados de surpresa eu vi algo me encarando dentro do congelador. Lá estava ele, coberto com uma camada fina de gelo e se sentindo inadequado ao lado de carnes, peixes e assemelhados - meus óculos.

Foi  então que a memória voltou e eu me vi colocando os benditos óculos no congelador - não me perguntem o por que. Desconfio que na minha insanidade pensava que o combustível da NASA pudesse criar asas e sair voando, daí a necessidade dos óculos como guarda-costas.

Hoje a bebida faz parte de um passado já distante e esse episódio apesar de hilário é  um grito de alerta para que eu nunca mais retorne ao fundo do poço onde um dia já estive acampado.
Rogério Vianna
Enviado por Rogério Vianna em 18/08/2019
Código do texto: T6723036
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Sobre o autor
Rogério Vianna
Rio de Janeiro - Rio de Janeiro - Brasil, 66 anos
27 textos (1649 leituras)
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Rogério Vianna