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FELIZ ANIVERSÁRIO


Mário acordava sempre em sobressalto no dia em que fazia anos.Saía de um sonho transformado em pesadelo em que a Fada boa e luminosa era arrancada do seu corpo pela Fada Má que a expulsava e tomava o seu lugar dentro dele.Um disparate e  uma insânia.Uma espécie de luta entre a vida e a morte.

E depois metia-se no duche de água quase a ferver, arranjava-se sumariamente, preparava uma bebida forte e descia até à cave.Abria a arca e tirava de lá o cofre onde guardava as cinzas da mãe.Quedava-se um tempo a lembrar-se dela.Às vezes com um sorriso e às vezes  com lágrimas.Que tempos…Que saudades…Que tristeza…

A Senhora Joana despertava-o do transe e fazia-o voltar à terra.
- Bom Dia.Se o senhor tenciona chegar a Lisboa à hora de almoço, tem que se pôr já a caminho.
-Ah sim.Tem razão.Bom Dia.Vou despachar-me.Não demoro.
- E já agora Parabens.Pasmo como o senhor aguenta vir de véspera e percorrer mais de trezentos kilómetros para isto.

E partia ainda o Sol não estava sequer altivo a 80…100…120 kilómetros à hora com a janela aberta e a apreciar um cigarro, o único que fumava no ano, precisamente naquela data.

Aproveitava para ver o filme passar na sua mente.As décadas, os ritos, as personagens, as cenas, os dramas, os momentos mais marcantes.”Irei como um cavalo louco, à desfilada.Irei voando como o falcão.Irei sem saber muito bem quando nem para onde”.Punha o cd com a Marília Pêra a declamar a canção do Roberto Carlos num crescendo de emoção insuportável.

IP 3, Auto-estrada, Pombal, Leiria, Santarém, uma vida de passagem e chegava à capital quase sem dar por isso com o trânsito de sábado a decorrer tranquilamente.

Em casa, Marta, sua mulher, encantadora e  ligeiramente perturbada já se levantara e se preparava para o almoço fora.
- Olá, Querido.Um Beijo.Muitos Parabéns.Muitas Felicidades.Abre a tua prenda.Vou queimar incenso e acabar de me pintar.

Ele agradecia-lhe com um beijo e ia respondendo distraído enquanto ela conversava animadamente e ele se refrescava e mudava de camisa.
- Fizeste boa viagem?Viste novos gatos na quinta?

Pouco depois, dirigiam-se ao restaurante perto de casa ao encontro da família e dos amigos.As suas duas tias octogenárias  supermodernas assomaram com uma pontualidade britânica.Cada vez mais rejuvenescidas com as suas fatiotas incongruentes muito giras , alegres e felizes a adorarem sempre convívios como aquele que as faziam sentir vivas e em acção.A mais velha segredou-lhe:
- Hoje à noite vou sair com um amigo.Achas mal?
- Claro que não, Tia!Atira-te a ele!
- Mas ele tem 85 anos.Está mais para lá do que para cá.

Dois ou três amigos e outros tantos colegas, uma mesa pequena e corrida com gargalhadas, lembranças, conversas e partilhas de quem já se conhece há muito.Rituais.Pensou talvez que  os seus pais os observassem lá de cima  e aprovassem a tradição mantida.

O almoço acabou cedo.Separaram-se todos com beijos e abraços.Voltaram para casa e ele afundou-se no sofá a olhar sem ver para a televisão.Já tinha idade para ganhar juízo, aquiescer, conformar-se com o desenrolar da vida.Os anos  traziam desordem, corridas mas a forma como a humanidade se defrontava com a tragédia e a provocava muitas vezes parecia não mudar desde  tempos infinitos.Desde sempre.

A angústia voltou cruelmente ao seu coração e ele acedeu a criar o ambiente para que o seu Conjuge se acalmasse, ceasse frugalmente como era habitual, telefonasse ao filho e ao pai e se deitasse muito cedo depois da medicação forte como acontecia todos os dias e da indispensável sessão de meditação.
- Não posso comer muito senão engordo.
- Mais tarde, talvez vá beber um copo com o Manel.Não sei ainda.

O velho amigo trabalhava aos sábados, era médico e alguns bastantes anos mais novo.Vinha eufórico.
- Estou esfomeado.Temos que ir jantar naquele sítio em frente ao rio.A propósito pá, parabéns.Dá cá um Abraço.E espero que gostes.Um voucher para uma  tarde no SPA erótico.Indescritível.Massagens com pedras quentes, piscina de água quente e   com duas orientais que tomam banho connosco e se roçam por ti de cima abaixo, com uns  seios macios e  descomunais, enfim, termina tudo  com um final feliz, Estás já a imaginar?
- Tu és louco!Gastaste uma fortuna.E eu posso vir a ter um ataque cardíaco com essa luxúria toda!
- Na nossa idade , temos que ejacular uma vez por semana por causa do cancro da próstata.
-Bem…se assim é!

Comeram o camarão delicioso e beberam o vinho espumante e transparente.Deixaram fluir o pensamento partilhado como outrora nos tempos da despreocupação e aventura, deixaram que o silêncio caísse por vezes para admirarem a paisagem magnífica do rio imerso e na noite cheia de luzes e brilhos.Riram como se fossem jovens ou inconscientes.

Às vinte e três e cinquenta e nove, Manuel levantou-se com uma taça em punho.
- Amanhã já não fazes anos.Já fizeste.Levanta-te.
-Levanto-me.E agora?
- Vamos brindar!...À nossa…Viver não deixa de ser maravilhoso.E tu és o meu melhor amigo e eu o teu.Ou não?
- És!Que pieguice!Já estás com os copos?
- Moderadamente.Que para o ano estejamos todos juntos aqui ou em qualquer lugar sem ser no cemitério.
- Sim.Apetece-me correr.Até ficar sem fôlego.Vamos pagar e correr pela margem do rio?
-Correr não digo mas caminhar…talvez - senão ficarmos tontos – e como  tivéssemos dezoito anos e uma vida inteira à nossa frente…



José Manuel Serradas
Enviado por José Manuel Serradas em 14/08/2019
Código do texto: T6719855
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Sobre o autor
José Manuel Serradas
Lisboa - Lisboa - Portugal
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José Manuel Serradas