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A história do vaso quebrado

Dona Anita ganhara um vaso de casamento que disseram, era chinês. Hoje em dia não valeria muita coisa, mas há cinquenta anos, o produto vindo do país do Rio Amarelo era uma preciosidade. Na realidade a porcelana era fina e digna de cuidados, afinal era um presente do padrinho e amigo da família, o ilustre doutor Olavo.
Toda vez que a senhora recebia visitas, fazia questão de lembrar a procedência e repetia a todos que era uma preciosidade pois o padrinho era amigo do seu pai, da época que ele trabalhou na botica da cidade onde nascera.
Detalhes à parte, o importante é que o vaso deveria ser limpo uma vez por mês, sob os olhos dela, para evitar que D. Iracema pegasse na raridade com descuido.
Certa vez, após receber os netos para um almoço de família, a senhora percebeu que o vaso estava quebrado.
Imediatamente chamou Iracema que chegou amedrontada pelos gritos da patroa.
- Juro pelo meu santinho que não mexi nesse vaso! Nem limpei essa semana...
Os meninos brincavam pela casa inteira e se tivessem entrado na sala de estar, reservada aos adultos, ela teria percebido.
Após consultar as filhas ouviu que as crianças não tiveram participação no episódio. Ficaram da porta da cozinha para o quintal.
Mas quem afinal teria esbarrado no jarro para quebrar uma de suas alças e trincá-lo na borda?
A investigação deu pano para manga e muita chateação à criada, presente na família há mais de duas décadas.
Sr. Reinaldo acalmou a esposa e trouxe do comércio, uma cola própria para cerâmica. Catou as peças com cuidado e as colou com a destreza de um ourives.
Mas nada consolava a mulher, que resmungava dia e noite o vaso quebrado.
- Esqueça, querida! Um dia tudo se vai... O vaso durou íntegro por cinco décadas! Isso por si só, é motivo de alegria! Não sabemos o que aconteceu e quem provocou o incidente, mas de que vale pensar nisso agora?
Anita enxugou as lágrimas e aos poucos foi aceitando o vaso com as partes coladas.
No domingo o casal, como de costume, foi à missa e, quando o padre ia encerrando a homilia, disse aos presentes sobre a importância do conteúdo que temos em nosso "vaso". Falou sobre as belas porcelanas que por serem preciosas e raras não são úteis. Ficam acumulando o pó no fundo dos armários ou servem de mero enfeite às avessas. De que vale uma jarra se não pode oferecer a água que nos vivifica?
Dona Anita ouviu tudo aquilo e aos poucos foi sentindo que esteve por muito tempo mantendo o verniz intacto de muitas coisas na vida. Percebeu que o objeto que serve, traz as marcas da sua utilidade e por vezes se desfaz de tanto servir. Qual seria a serventia daquele presente ilustre, além de representar a soberba e o orgulho? Pensou.
De volta para casa, passaram na florista e ao chegarem em casa, ela  encheu o jarro de água e pôs ali o maço de margaridas que compraram. Eram suas flores prediletas!
O marido a abraçou e carinhosamente alisou-lhe os cabelos brancos. Ele viu em seus olhos que ela finalmente absorvera a lição que os episódios diários nos presenteiam.


Cláudia Machado


Uma breve análise do texto pela autora:

A) Personagens:
Anita: Diminutivo de Ana. Pequenez. Considerando que Ana significa graciosa e cheia de graça, a personagem possuía pouca das virtudes.
Reinaldo: tem no nome a palavra Rei. Significando certa nobreza. O personagem tinha uma visão mais elevada da vida.
Iracema: a criada, a que servia e que nem sempre era tratada com consideração. Tem um nome indígena que representa a pureza do ser humano primitivo. O significado do seu nome é "lábios de mel" e talvez seja também aquela pessoa que profere palavras edificantes. A personagem, por seu papel simples naquele lar, fosse a praticante do silêncio. A que não revela o nome de quem cometeu o delito. A que sabe ouvir em silêncio sem necessidade de retrucar.

B) Objetos:
O vaso chinês nos lembra o "vaso de sabedoria" de um ser humano.
A utilidade que damos ao vaso (objeto) está em nós e não nele em si.
O artefato chinês no passado era presente de grande valor (alguns ainda o são), mas hoje com o acesso fácil a produtos chineses, já não tem o glamour (exceto antiguidades) do passado,  mas ainda assim a porcelana chinesa de qualidade é um artigo de luxo.
As margaridas simbolizam a luz, pois como os raios do sol tem suas pétalas dispostas em todas as direções.
Cláudia Machado
Enviado por Cláudia Machado em 21/08/2018
Reeditado em 23/08/2018
Código do texto: T6425504
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre a autora
Cláudia Machado
Belo Horizonte - Minas Gerais - Brasil
773 textos (24256 leituras)
60 áudios (3040 audições)
1 e-livros (23 leituras)
(estatísticas atualizadas diariamente - última atualização em 13/08/20 03:40)