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A Porta

        Fitou a porta envergada, envernizada em tom carvalho seco. Segurava a maçaneta refletindo por um momento se devia ou não entrar.  Novamente ali, loop desgraçado sem fim! Até quando? Perguntou-se. Queria poder caminhar com as próprias pernas, sem questionar-se. Sem duvidar de si mesmo, e muito menos sem precisar de um estranho qualquer, a quem falsamente confiar; pois sabia... Afinal quem é de fato de confiança?
        Ok. _Dois minutos pensando e ainda nem entrei. E se alguém me observasse de longe, provavelmente ia ter a certeza de minha loucura. – Pensou. Calou seus pensamentos, criou coragem, girou a maçaneta enferrujada cor de bronze e entrou ao marcar do ponteiro às 15hrs.
               
        _Pensativa hoje.
        Olhava fixamente as gotas borrifadas na persiana à sua esquerda.
        _Honestamente, dessa vez é diferente. Dessa vez eu não sei o que fazer.
        Virou com calma o semblante, a mão comprimindo a cabeça escorando com cuidado o cotovelo em uma perna trêmula. Parecia segurar o choro, o lábio inferior mordia o superior; o estômago fazia movimentos nervosos. Não sabia se conseguiria conter.
        _Em relação ao que pretende para o próximo ano ou ao que pretende para o final desse?
        Respira. Pensa... Os olhos umedecem e diz.
        _A pessoa que devo ser; a pessoa que sempre fui e não quero ser mais. Por que devo ser sempre tão correta? Por que sempre podem pisar em mim? Talvez nesse final de ano eu reflita sobre a pessoa que eu não quero ser mais, e no próximo ano eu exerça a pessoa que pretendo ser. Certo?
        _ Talvez. É importante ser? E não ser?
       
        _ Como assim?
        _ É mais importante ser ou não ser? Ou para você não é mais importante a busca do saber? Não seria sobre isso afinal, que se trata essa busca do seu “ser”?
        Incredulidade. Perplexa com pergunta tão complexa pediu uma pausa com os olhos. Pois honestamente, não sabia o que dizer diante de tal questionamento utópico.
               
        Observou a persiana novamente, já parara de chover. Ficara aquela onda cinza nebulosa pairando o ar, com a aparência de bater um vento bem gélido nos pequenos pinheiros, que formavam fileiras às costas dos pequenos terrenos acidentados.

        _Somos tão cheio de nada.
        _Você tem tomado seus remédios? – Olhando para a caderneta enquanto anotava talvez, os últimos dizeres da paciente.
        _Argh! Lá me vem você com esse papo de remédios. O que tem haver meus questionamentos e minhas angústias com o fato de tomar o remédio todo dia? E de fato, esse talvez tenha sido o ano em que mais segui esse tratamento fajuto. E continuo me sentindo cada vez mais vazia.
        _Não tem haver necessariamente com o efeito dos remédios.
        _Ah não!?
        Já se encontrava em pé, alterada, gesticulando e mais próxima de seu terapeuta; que até agora não movera um centímetro de sua poltrona. E claro continuava com sua perna humildemente cruzada, como quem pratica um pequeno teste com ratos em laboratórios.
        _Tem haver com disciplina, e com a fé que você deposita na droga.
        Claro não vou ser hipócrita de dizer que não tem seus benefícios, e consequentemente seus efeitos colaterais. Mas acima de tudo, não é o remédio quem cura o paciente. É o paciente quem cura a si mesmo. O fato de você sentir que precisa ser muito mais do que é, é porque está cansada de ser essa pessoa do passado. Essa pessoa que se sabota, que não permite ser-se feliz. Concorda?
        Olhou com o olhar de revolta, as palavras lhe socaram com força; direto na ferida. Gostava de ouvir a verdade, mas a mesma às vezes, no entanto doía e claro, desmontava. Cedeu e sentou novamente, mais calma e refletindo sobre o que acabara de ouvir.

        _A gente pode diminuir um pouco então. – Colocou as mãos nos bolsos e ficou de lado observando a janela ainda de pé.
        _Sente-se confortável a isso? Como tens dormido?
        _Usualmente bem. Encontrei uma forma de esvair isso, sem me sabotar. Vou usar sua palavra me permite? – Deu uma risada sem graça.
        _Claro. – Devolveu a risada, mas não tão sem graça. – Esvaindo como?
        _Música.
        _É uma bela maneira de se expressar. E o que pretende fazer com seus questionamentos?
        _Nãn... Honestamente não sei. Parar de pensar? – Parecia angustiada.
        _Posso lhe dar um conselho?
Não disse nada, acenou com a cabeça esperando que viesse palavras sábias, com uma margem de esperança para mantê-la por mais cinco anos aqui.
        _Se é tão importante para você no momento ser essa nova pessoa, porque não recomeças? Comece com coisas pequenas, em que sempre cobra a si mesmo a fazer diferente, e aos poucos vá modificando tudo o que almeja. No final vai acabar sendo aquilo que sempre quis, seja interiormente ou exteriormente. O importante é que comece, e claro, que recomece com o que está ao seu alcance, o que você é capaz de fazer por si mesmo agora. Não adianta sofrer com a ansiedade de querer o que está lá no fim de seu percurso. É importante apreciar os momentos de conquistas e crescimento, e claro saber esperar a hora certa pra tudo. Ajudei?
        Não iria demonstrar a chama crescendo no peito com cada palavra dita, não era de seu feitio. Mas acreditava que ele sabia o impacto daquelas palavras, mesmo que tentasse disfarçar, era bem nítida a paz interior depois de sábio conhecimento repassado. Apenas acenou com a cabeça demonstrando um singelo sim.

        Fechada à porta olhou para trás, pensando nos quarenta e cinco minutos mais longos de sua vida. Deu um suspiro longo, ainda refletindo sobre as palavras que martelavam: Recomeço. É tão simples como a própria palavra? Esperava que fosse, estava cansada de lidar com o fracasso.
        _Ei, tu vai entrar aí ou vai ficar parada encarando? – Um sujeito alto, magro com cabelos rasos e sujos, de óculos quadrados observava incrédulo, talvez um pouco assustado. Possivelmente pensando que ela conversava com a porta? Bom ela provavelmente pensou que ele pensou isto dela. E ele? Bem entrou naquela porta envergada, envernizada em tom carvalho seco.
P Silveira
Enviado por P Silveira em 03/10/2017
Código do texto: T6131959
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Sobre a autora
P Silveira
Belo Horizonte - Minas Gerais - Brasil, 30 anos
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P Silveira