O HOMEM DA BIBLIOTECA

Ele chegou, abriu a porta de vidro, olhou a todos os presentes e sentou na cadeira. O seu olhar passeou por todas as opções de leitura na estante e separou uma revista especializada em política. A bolsa tira colo preta foi colocada delicadamente no assento da cadeira vizinha a dele. O aspecto do visitante lembrava a de um oficial do Exército. O uniforme verde oliva destacava-se entre os presentes. Os óculos pretos escondiam as olheiras provocadas pelo tempo e das noites mal dormidas. O cabelo liso encobria um pouco a sua testa. As suas têmporas exibiam alguns fios brancos que se enrolavam por trás das orelhas. As sua mãos folheavam rápido algumas páginas de anúncios de cosméticos. Um anel grosso e brilhante no dedo da mão esquerda denotava o seu estado civil. Ele fora casado, e mesmo após o falecimento de sua esposa não largava daquele anel. O relógio dourado dava a impressão de ter sido banhado a ouro. Em certos momentos a fronte do homem da biblioteca encostava nas finas páginas da revista. O óculos de grau suspenso por uma correntinha pendia para o lado junto com a sua cabeça. A mesa próxima a porta de entrada era a sua preferida. O homem não conversava com ninguém para não atrapalhar o seu "ritual" de leituras e cochilos. Ninguém sabia do seu passado, pois a sua vida era um mistério. Alguns estudantes secundaristas ainda tentaram "interrogá-lo", mas ele se esquivava sempre. No inverno o homem não comparecia na biblioteca. Mas no verão a sua presença era constante. Às vezes o visitante lia em voz alta para "disfarçar" o seu sono interminável. Ele não suportava ser interrompido e certa vez ralhou com um dos estudantes. O conteúdo de sua bolsa tira colo ninguém sabia na verdade. Uns diziam que a bolsa carregava livros, outros arriscavam um palpite de uma enciclopédia. Certa vez o visitante deixou o zíper da bolsa em aberto. Um estudante tentou descobrir o conteúdo, mas foi flagrado e por pouco não levou uns socos do homem da biblioteca. Por vários anos as tentativas de descobrir o passado deste homem foram frustradas. Mas no último verão o tal homem da biblioteca sofreu um acidente e finalmente descobriram o seu passado e que tinha em sua bolsa. O fato ocorreu em frente a biblioteca. O homem teve um mal súbito na rua e foi atingido por uma viatura policial. Ele foi reconhecido por um dos antigos estudantes secundaristas. O estudante tornou-se um médico e prestou as primeiras assistências. O nome do visitante era Jacinto, tinha 63 anos e morava sozinho em um cortiço na antiga rua do Sisal. O conteúdo de sua bolsa foi revelado. Ali tinha um vidro de alfazema, duas canetas preta e azul, e um catálogo de consórcio de motos. O que dava volume a bolsa era uma grossa lista telefônica. O tal homem foi um vendedor de consórcios, mas ultimamente catava produtos recicláveis à noite. Ele não conseguia dormir durante o dia por causa do barulho do Bar da Lia. Então o homem encontrou um lugar ideal para vencer o seu sono: A biblioteca estadual. Ali reinava sempre a paz.

Levi Oliveira
Enviado por Levi Oliveira em 05/02/2017
Reeditado em 05/02/2017
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