PROCURA-SE UM HERÓI PARA O MENINO EDUARDO

Cabeça Dinossauro era a mensagem diária de bom dia. Música perturbadora para um jovem de sete anos apenas. O primo de Eduardo, onze anos mais velho, acordava pontualmente as oito da matina para preparar a abertura do boteco, localizado em frente à casa de ambos. Talvez pela ansiedade que antecedia a apresentação para o serviço militar obrigatório, Édson, assim que acordava, sempre buscava na estante da sala algum disco de vinil que fosse suficientemente vibrante para acordar o espírito. Esse comportamento, geralmente, acordava os familiares também. Havia uma hierarquia nas prioridades. Primeiro, era o rock e, após a missão cumprida, a escovação dos dentes e o café.

Eduardo observava essa rotina diariamente. Às vezes, Bichos Escrotos saíam dos esgotos para lhe atormentar o desjejum. Outras vezes, Marilu era cantada pelos quatro cantos do quintal. A tal Marilu, no entanto, parecia uma galinha muito especial pelo fato de colocar ovo pela cloaca. Até então, ele nem imaginava que se tratava de um orifício. Num certo dia de domingo, e Édson de folga, o vinil não parecia gritar tanto, e a música parecia mais amena. De certa forma, até agradável. Foi uma manhã tranquila em que uma Infinita Highway despontava soberana no horizonte, sem motivos, nem objetivos. Eduardo, definitivamente, fora fisgado pelo som subversivo do rock.

- Qual o nome dessa banda?

- Engenheiros Do Hawaii, Edu. Tenho outros discos bem legais. Rock é vida!

- Que música legal primo!

-Você não ouviu nada ainda. Deixa que eu toque “Jesus não tem dentes no País dos Banguelas”. Você vai se amarrar moleque... – afirmava Édson, não percebendo os olhos esbugalhados de Eduardo ao ouvir o nome da famigerada música dos Titãs.

Eduardo nunca havia ouvido falar sobre um país cuja população era totalmente desdentada. Também não era de sua ciência que Jesus fosse banguela. No exemplar vermelho da Bíblia da Criança nada havia sido dito a esse respeito. Sua mãe, católica roxa, também nunca relatou esse fato curioso. Ele também se questionava sobre o que poderia ter levado alguns engenheiros, supostamente exercendo suas profissões no Havaí, a montarem uma banda. E com letras em português. Tudo parecia muito estranho e confuso para ele, porém, a sonoridade de guitarras e bateria parecia começar a fazer algum sentido.

Certo sábado à noite, Édson e suas irmãs recebiam seus convidados para uma festinha americana. A mãe de Eduardo não permitia que ele se envolvesse nesses encontros, afinal, o que um garoto dessa idade estaria fazendo no meio de pós-adolescentes desvairados? Pela fresta da janela de seu minúsculo quarto, Eduardo via os jovens paquerando e tomando suas cervejas, com permissão dos tios dele. Ele ouviu, de repente, a voz estridente de Édson, entre seus amigos, cantando uma indagação um tanto relevante... “Será que é tudo isso em vão? Será que vamos conseguir vencer?”

- Ô, ô, ô, ô, ô, ô, ô, ô, ô – Era como um perfeito coral de vozes, livres de regente.

Eles pareciam tão leves e felizes. Eduardo, em sua inocência, pensava sobre o que geraria tamanhas gargalhadas e abraços. Rock, realmente, parecia dar vida àquelas pessoas. Era um estado de espírito que ele ansiava muito por experimentar, embora tão menino. Mais à frente, a música apontava para novas perguntas...”Brigar pra quê, se é sem querer? Quem é que vai nos proteger?”... Nesse exato momento, coincidiu que a tensa conversa entre seus pais, viesse a se transformar em xingamentos gratuitos e ofensivos.

- Edu, me acode aqui meu filho! Olha só o seu pai...

- Para meu pai! Por favor! Para, para! – clamava o jovem Eduardo cujo coração parecia sair-lhe da boca.

Seu Assunção, tentando considerar o pedido do filho, cerra os dentes e, subitamente, sai de casa, batendo a porta violentamente. Uma pequena lágrima se formava no cantinho do olho esquerdo de Eduardo e, de tanto insistir, acabou por escorrer sobre seu rosto. Imaginando que seu pai fosse voltar bêbado pela alta madrugada, como de costume, a tal questão viera mais uma vez à tona: “Quem é que vai nos proteger”? Tentando consolar sua própria mãe, os pensamentos de Eduardo cogitavam alguma espécie de herói para lhe amparar nos seus pequenos dilemas.

Talvez a Legião Urbana também estivesse na mesma busca.

AUTOR: André Nasser

André Nasser
Enviado por André Nasser em 15/09/2016
Código do texto: T5762216
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