JUCA DELIVERY SERVICE

Os braços finos guiavam o carro com perícia. As ruas não eram mais as mesmas depois do projeto de esgotamento sanitário inacabado, o esgoto corria a céu aberto. O pneu se chocou com um paralelepípedo solto, fazendo o eixo dar um tranco. Antes que o carro passasse por aquela água salobra, ele manobrou o carro dando uma ré, e conseguiu se desvencilhar da poça infecta.

É manhã de domingo, dia de feira na pacata cidade de Araçás. As ruas e travessas seguem o esquema de montanha russa, mas Juca vence todas as suas sinuosas ladeiras e seus desníveis. O sino da Igreja do Senhor Deus Menino anuncia a hora da missa, Juca passa pela frente da loja de móveis do seu Sergipe, e percebe que aquele velho grisalho já não trabalha mais lá.

Mesmo sem saber o motivo, ele veio por aquele caminho. Tinha algo naquela praça que lhe chamava atenção. Os mais velhos diziam que a feira funcionou ali, ele tentava enxergar aquele movimento e comércio na Praça da Matriz, mas como não nasceu naquela época, não viu os vendedores de fita, os ventríloquos, o tempo em que seu pai não bebia e nem jogava.

Por um momento ele gostaria de ter nascido naquela época, onde os músicos a fazer sucesso eram Júlio Nascimento e Amado Batista, quando todos conheciam todos pelo nome. Um tempo que ele só conhece de ouvir falar, e embora não possa revivê-lo, não custa imaginá-lo! Ele continua o seu caminho e dobra a esquina. Segue pelo colégio municipal já desativado.

Depois de enfrentar um trânsito fechado e quase atropelar dois pedestres que entretidos com seus celulares, não viram a sua aproximação, Juca chega ao local do antigo cemitério, onde atualmente funciona a nova feira. Uma área coberta e bem organizada, as roupas ficam de um lado, produtos piratas do outro, e a não ser pelos redemoinhos repentinos, tudo fica em seu lugar.

A entrada da feira se tumultua de gente e carros. Juca espera impaciente vai para um lado e acerta a perna de senhora, tenta outro e é fechado por outro carro, recua, gira e volteia. Consegue uma brecha entre dois homens conversando e pedindo uma licençinha! Ele chega ao estacionamento.

Os colegas de profissão o recebem com E aê! Um deles pergunta:

— Já fez algum carrego hoje? — pergunta Otávio esperançoso.

Juca ajeita o carro de mão e deita-se nele. Só depois ele responde:

— Só um, desde seis horas que só fiz esse — responde com voz de sono.

Otávio alisa a penugem no rosto que ele alega ser um futuro bigode. Dos garotos é o mais velho. Nessa sociedade anônima chamada de carreto, ou carrego para os seus associados, não existe idade mínima para trabalhar, dos seis a idade incógnita todos eles lançam mão de qualquer sonho e pousam as responsabilidades encima dos ombros.

O outro garoto sentado no carro de mão se espreguiça e depois diz:

— É a crise.

— Que crise? — rebateu Otávio. — Crise de consciência, só se for.

Ele ajeita o boné na cabeça. Juca já decidiu antecipadamente que quando chegar aos doze anos, ele quer ser como Otávio. Primeiro que de todos os garotos que pegam carrego, ele é o mais bem vestido e bem cuidado.

— Otávio! — Juca tenta chamar sua atenção. — Porque você faz carrego?

— Eh, esse bicho é todo usuravi — comenta o garoto atrás de Otávio. — O pai e a mãe desse sacaninha é crente e o cara fica viajando, fazendo carrego.

— Cala boca Professor — o outro garoto obedece. — É por isso que os cara chama você de Professor, e quando eles quiserem te bater de novo, não me chame não viu! Meus pais são crente, eu não. Faço carrego para não depender de pai e mãe a vida toda, igual a um, certo Zé-ruela que faz carrego por aqui.

— Oxe! — Juca cruza os braços. — Como é isso mestre? Tu não vai lá praquela Igreja das Testemunhas de Jeová?

— Vou por obrigação.

Juca e professor passam a rir do amigo. Pois mesmo não querendo ser um, ele anda todo enfatiotado quando vai para o culto, com a bíblia na mão e tudo.

— Eu já sabia Otávio que você era excomungado — diz professor. — Vai me dizer também que não acredita em Deus?

O Otávio revirou os olhos e pegou o seu carro de mão. Mas antes de sair ele parou um instante e disse:

— Se Deus realmente existisse, ele ia deixar a gente penar nesse Sol, andando cerca de dois, três quilômetros para ganhar dois reais?

A pergunta flutua no ar até Otávio desaparecer entre as várias barracas.

Professor vai até aonde Juca esta e como se contasse um segredo diz:

— Não ligue não Juca, esse cara é azedo assim mesmo, Deus sempre está olhando por cada um de nós.

Juca faz que sim com a cabeça, só não sabe qual deles: Deus Pai, Deus Filho ou Deus Espírito Santo? Como não sabe a resposta, faz um sinal da cruz e pede proteção a todos os santos que conhece.

Para cada freguês que passa, Professor faz um gracejo, talvez pela sujidade do garoto, pois todo o domingo Professor insiste em vir à feira com olhos remelentos, ou porque o acham muito ousado, passam por ele sem lhe dar bola. Juca apenas sorrir, Professor vê no garoto o amigo que nunca teve, Juca vê em professor o irmão mais velho que nunca teve.

Depois de muito tentar uma senhora com as mãos cheias de sacolas, muito suada e arfando, pergunta o preço do carrego. Professor diz que é um e cinquenta. A senhora olha para o garoto, e começa a negociação. Centavos sobem e centavos descem num câmbio anormal, até que o negócio é fechado por um real. Professor sai com o carro cheio de sacolas e a mulher em sua cola.

Estando sozinho, Juca também decide ir atrás do seu. Ele desce pelas barracas de verdura, os fregueses sempre deixam suas mercadorias lá para vir pegar depois. Mas muitos ainda não terminaram de fazer a feira. Uma senhora deposita uma sacola de náilon, e prontamente Juca se dispõe a levar.

— Carrego senhora?

— Oh, não meu fio, é de minha barraca mesmo.

Juca agradece, mesmo sem motivo. Mais duas voltas por todos os verdureiros e ninguém deseja carrego. Juca se desanima, desde as seis horas trabalhando e só um real no bolso. Um senhor vem arqueado pela carga nos ombros, um sacolão que não tem mais tamanho. Juca o assedia, mas outro garoto encosta, diz ter mais força e receber menos, Juca perde o freguês.

Juca vai até o portão da feira, alguém lá pode precisar colocar mercadorias adentro. Ninguém lhe dirige a palavra. Manobra o carro de mão e corta pelos vendedores de DVD. Tudo quanto é música toca nos altos falantes, pagode, arrocha, forró, tantos sons, tantas cores que dá vontade de ficar olhando aqueles eletrônicos o dia inteiro.

De repente ele vê seu sonho de consumo, um carrinho que pega pen-drive e cartão de memória. Parece uma linda Ferrari. Mas ela não custa um real.

Uma senhora grita entre os vendedores de DVD, Juca se vira.

— Coisinho!

Automaticamente ele entende que se trata dele, coisinhos são pessoas que andam com carros de mão, nenhum freguês sabe o verdadeiro nome deles, e não tem nenhuma fidelidade. Juca às vezes se irrita das coisas serem assim. Ele volta de ré. A senhora nem pede licença e joga suas sacolas no carro. Após perguntar o preço ela olha para o garoto e pergunta:

— Esse preço todo? — Juca defende o preço do serviço, diz que é o mais barato, mas o que a mulher observa é o seu físico franzino. — Mas você é tão magrinho meu fio, tem certeza que tu guenta levar no Mirim?

— Oxe, guento sim senhora.

Sua confiança se quebra até ele segurar os dois braços do carro de mão. As pernas bambeiam. O peito arfa, e com a força que ele coloca, consegue algum impulso. O carro range a cada um dos passos pequeninos. A mulher explica tudo direitinho a ele, Rua Recife, número tal, colocar as sacolas no rol da casa azul. Pagamento foi antecipado.

O bairro do Araçás Mirim é o trajeto mais longo, porém, o menos íngreme nessa cidade morro, é a entrada da cidade para quem vem em direção de Alagoinhas. Vencendo a ladeira da praça do ar que é uma descida, o resto é moleza, pois Juca sabe tanto quanto todo mundo, para descer todo santo ajuda. Atravessa o trevo, e passa em frente ao mercadinho agropecuário.

Mas algumas passadas ele chega no caldo de cana de seu Doutor, que não tem formação, nem diploma, mas sabe coisas que o Diabo duvida. Graças a seu Doutor que ele conheceu a História de Antônio Conselheiro, que foi tão mal recepcionado em Araçás, que enquanto dormia a noite, a volante lhe jogou uma casa de caçarema, um fato histórico, gravava seu Doutor.

Outra coisa que seu Doutor sempre conversava entre o servir de um caldinho e outro, era à destruição do Sobrado, uma construção do período colonial. Um patrimônio Histórico, assim o dizia com nostalgia nos olhos. E Juca ficava fascinado com toda aquela história que Araçás acabou perdendo para os “arrastões do touro” e outras coisas mais.

Juca pensou em parar e tomar um caldo de cana, mas aquele real serviria para comprar pão, ou talvez o seu pai lhe tomasse das mãos e fosse gasta-lo numa mesa de bar ou de carteado. Juca prosseguiu sua viagem.

Mas a frente viu o antigo CMA, colégio que deveria estar toda semana, mas ao invés disso ele está toda semana na garagem de casa. A oficina de bicicleta improvisada complemente a renda do programa bolsa família. Juca, entretanto, nunca ajudava o pai, ele nunca estava lá. Ele só tinha tempo para as bodegas más frequentadas da região.

O menino achava que a escola não era para ele. Mal tinha dinheiro para tomar o café da manhã, como poderia comprar a lista de material escolar? Então ele nunca pediu a mãe para matriculá-lo. Deferente de Professor que queria ser um desses engravatados, ou Otávio que queria sair pelo mundo, o sonho de Juca era mais modesto.

Ele pensava em comprar um carro e fazer frete, quem sabe um dia com um pouco de estudo, tirar uma carteira de motorista em Alagoinhas e virar carreteiro. Parou para descansar um pouco e bateu no bolso estalando as moedas. Sonhava em ter um carro, mesmo velho e feio. Quantos carregos eu preciso fazer para comprar um carro? Pensou ele sonhando.

E de tanto sonhar acordado, ele não percebeu o carro se aproximando em alta velocidade. Naquele momento, a luz de mais um sonho se apagou.

Caliel Alves
Enviado por Caliel Alves em 27/07/2016
Código do texto: T5710487
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