Alguém viu corujinhos lindos?

A Coruja Madalena voava pesadamente, a custo.

Mas tinha tanta fome, que não podia descuidar-se; ratinhos, besouros e outros, não escapavam ao seu olhar aguçado e em menos de um segundo já escorregavam para o papo.

Achara um tronco oco e nele compusera o quarto: raminhos pequenos, folhas e um tapete fofinho com as penas arrancadas do próprio peito.

Uma noite recolheu-se e os bichos pequenos do bosque respiraram de alívio:

- Viram a coruja Madalena?

Ninguém a vira… portanto viva, que deve estar morta!

Talvez a tivesse comido a Lina raposa!

Mas Lina andava triste e lazarenta, de focinho baixo, deitando a eito o dente a tudo quanto lhe iludisse a fome e lhe permitisse cobrir o esqueleto, que aparecia por baixo do pelo ruivo, outrora tão lustroso.

Os tempos eram de crise: o fogo devorara tudo e as ilhas ralas onde os sobreviventes se aglomeravam eram secas, tristes e amarelas.

Nem as silveiras deram amoras. Os casais de pássaros encolhiam as tristes asas e nem se deram ao trabalho de fazer ninhos.

Mas a coruja Madalena, era muito sábia… e agiu como sempre fizera porque “não há mal que sempre dure”

Meia adormecida, febril e sonolenta, chocava com desvelos os três ovos, que ia voltando.

Era longa a espera e maior a ânsia. Já escutava o pio-pio que soava lá dentro e lhe fazia dilatar de amor o coração.

Por fim, um a um foram rompendo a casca do ovo, ela delicadamente ajudando, embevecida perante os três filhotes nus, desajeitados, com grandes manchas escuras de cada lado da cabeça, aonde os olhos imensos esperavam ver a luz a seu tempo.

A cabeça enorme e desajeitada encimava um longo e magro pescoço.

O bico enorme e amarelo quase nunca se fechava, era um poço de reclamações.

E a Coruja Madalena, ia e vinha, agora leve porque magrinha, em busca de ratos e insectos, com os holofotes amarelos varando a noite e o dia, que descanso não tinha.

Para os bichos pequenos, desvendara-se o mistério e voltara o pesadelo.

A raposa Lina, que passava o tempo enroscada, agarrada à barriga dorida e vazia, via passar a coruja e cogitava… muito quieta, segui-lhe os voos… onde teria escondido os filhotes, aquela sortuda coruja, que ostentava prosperidade no meio de tanta desgraça?!

Passinho a passinho, foi-se aproximando… passinho a passinho, orelhas arrebitadas e nariz pontiagudo ao alto, foi-se abeirando do toco; no toco viu o buraco.

Enroscou-se de tocaia.

A coruja Madalena, mal saía, logo entrava: eram as presas pequenas e mirradas, num instante as abichavam as crias, já grandinhas, envoltas em pluminhas brancas, como babygrows de algodão.

Ah, que lindos os meus filhos – pensava Madalena!

E a raposa babava, imaginando a iguaria… quantos corujos haveria? Até sonhava com o instante de lhes enfiar o dente na carne tenra…

Saiu à caça mais uma vez a coruja Madalena e a raposa Lina, trepou pelo tronco acima, meteu o focinho no buraco e de uma só vez – traz!

Desceu correndo, que o bico de alicate da coruja era tremendo!

Madalena chega, com uma lagartixa ainda a debater-se, imaginando a alegria com que seria recebida.

Mas… tudo em silencio, tudo escuro… nada dos bicos abertos ao cimo dos pescoços depenados dos filhotes de babygrows brancos!

Uma dor imensa quase a ia matado!

Abriu o bico de espanto e a lagartixa correu …pernas para que vos quero?!

Chorando alto na noite de mau agouro, a coruja Madalena, gritava no ramo:

- Alguém viu por aí três corujinhos, muito lindos?

A lua tapou a face com uma nuvem e sorriu à socapa.

As estrelas piscaram os olhos.

Os bichos pequenos, por esta altura dormiam a sono solto, tranquilos.

A raposa Lina rebolava-se na poeira, consolada pela primeira vez desde há muito tempo de miséria.

2/10/2005