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Chapeuzinho Rosa Choque (Roque)

Chapeuzinho Vermelho fora a praia de calcinha cavada segura por uma fina linha de tecido à altura dos quadris. Estendeu a esteira na areia e abriu o guarda-sol Azul Alice. Olhou as nuvens passando ligeiras, se perguntou então “pra onde elas vão?” Ela mesma respondeu: “Ah eu não sei, não sei”.

Frente a frente, quando muito a cinco metros, alojou-se no areal da praia a adolescente Chapeuzinho Rosa Choque, vulgo Roque. Aba do boné rosa choque puxada em direção à linha da íris nas pupilas verdes. Nos ouvidos a canção do Luiz Melodia: ... “os sonhos seus vêm dos lugares mais distantes, terra dos gigantes, super-homens, super moscas, super cariocas... No coração do Brasil, baby é magrelinha..., baby é magrelinha... Ouviram do Ipiranga as margens plácidas...”.

Nos ouvidos os fones plugados ao celular de Roque o canto continuava: “o sol não adivinha, baby é magrelinha, baby é magrelinha...”. A aba do boné de Chapeuzinho Roque impedia o visual dos olhos avermelhados, assim como as lentes escuras dos óculos. Ela, Chapeuzinho Vermelho, vulgo Carminha, estava na fase de estudos de Chapeuzinho Roque. Parou descalça uns dois metros da outra e ficou assuntando o ambiente, espreitando os arredores:

Caminhou devagar em direção a Roque. Essa, se mantinha sentada na banqueta com o calcanhar de apoio roçando a coxa esquerda. O babado da calcinha adentrava-se nos grandes lábios que pareciam sapecas, a mascar a beirada da perereca. — A canção de Paula Toller, “Calmaí”, estava a zuar no ouvido dela em substituição à Magrelinha: “o sonho de ganhar muito dinheiro/de ter o mundo a seus pés/de controlar o tempo inteiro/as mentes, correntes e marés... calmaí, calmaí, calmaí...”.

Sem tirar os fones dos ouvidos, Roque baixou um pouco a linha dos óculos em direção à ponta do nariz, e olhando para a outra, Carminha, parada a pouca distância falou:

— Chega mais sem cerimônia, você está na praia! Aqui não tem excelências, pode vir que é bem-vinda. Não fui ao salão esse fim de semana, tenho de aparar as unhazinhas.

Carminha aproximou-se enquanto olhava um rapaz com aparência de “neymar” passar bem perto da banqueta de Roque, olhar fixo no cofrinho da fofinha. Depois de um olhar de suposta reprovação em direção ao rapaz, aproximou-se da amiga e comentou:

— Você fumou mas não limpou o vermelho das retinas. Estendendo a solução ocular em direção aos olhos da maneca do biquíni rosa choque, Carminha foi logo pingando o colírio enquanto apoiava a mão esquerda debaixo do queixo curvado para trás, a segurar a cabeça de Roque apoiada no diafragma, logo acima do umbigo nu.

— Pingando o colírio para clarear, Carminha tomou a iniciativa e sentiu-se à vontade sob o guarda-sol da agora nova amizade: “teus olhos de tão vermelhos pareciam estar fora de foco”.

Roque, a garota do band-aid rosa choque, continuou com o calcanhar levantado no canto da cadeirinha. Num gesto meio brusco jogou os cabelos para o lado esquerdo enquanto aprumava o olhar outra vez nos dedos dos pés e movia as lâminas da tesourinha a cortar outra unha. O biquíni parecia um curativo adesivo resvalando para dentro do vinco da xerequinha mal vestida no biquíni rosa choque.

— ““Daqui a pouco vai estar assim de “neymar” em volta da Magrelinha””, — pensou Chapeuzinho Carminha. Falando dela para com ela mesma, disse: “Não vou dizer nada para não parecer outra coisa, que estou numa de para-raios, ou com inveja da exposição”.

Chapeuzinho Roque continuou no nheconheco da tesourinha cortando as unhazinhas. À mostra os babados da calcinha roçando sensualmente os grandes lábios. Como quem está nem aí, sem perder o charme e o porte de mocinha, levantou o pé esquerdo de apoio no calcanhar por sobre a beira da cadeirinha. Olhando para a amiga recente, falou:

— Ainda são nove horas e o sol tá que tá prometendo. Quente na pele. Como é seu nome?

— Carminha! Me chamam de Chapeuzinho, porque eu estou sempre na cola de um lobo mau.
 
Roque levantando a aba do boné rosa choque em direção à amiga, baixando os óculos em direção à ponta do nariz, olhou uns “neymar” se aproximando e comentou: “olha aí a rapaziada chegando e teu lobão logo vai estar colando na cútis”.

— Pudera, tu estás chamando atenção com esse visual de chega-mais -chega-mais.  Nem precisa tanto. Daqui a pouco os “neymar” vão estar na cola. Tá vendo aqueles ali?

— Não seja por isso, acabei de cortar as unhas que estavam passando de grande. Falta a base e o esmalte. Não provoca, bonde de “neymar”  é barraco na certa.

Carminha, olhar curioso para a sombra do guarda-sol, viu um livro saindo do bolso posterior da mochila fashion de lona listrada modelo “forever 21”. Achou estranho e se perguntou, advertindo-se só para si: “essa vadia é muito safa! Faltava está fazendo faculdade. Até leitura trouxe para a praia. No maior dos provoque, exibindo a cor de rosa choque, e ainda chegada a leitura. Vê se pode!”.

— Vê se pode!

— O quê? Vê se pode o quê? Roque perguntou à Carminha que logo se censurou por ter pensado alto e voltou a falar:

— Nada, nonada, não! Você é chegada numa leitura? É Paulo Coelho ou é coisa de faculdade?

— É o livro “Onze Minutos”. O autor ensina você como ser coelhinha na Suíça e ganhar dinheiro com os gringos.

Chapeuzinho Carminha pareceu interessada e perguntou:

— Fala sério, fazendo programa de onze minutos. Conta outra. Onze minutos não funciona. Por quinhentos dólares é fim de semana. Esticado.

— A mulher do livro é do tipo Maria Parafina. Em vez de curtir uma de Bruna Surfistinha, vai à luta por grana no lugar onde a grana está: nas europas. Onde é que a Bruna Surfistinha poderia faturar 500 dólares num programa de onze minutos?

— Eu quero ler esse livro. Mas não acredito nesse escritor. Quem sabe seja por aí que eu dê um jeito de agregar uma grana para fazer uma feira de fim de semana. Uma feira pra valer.

— Isso aí, essa coisa de namorar “neymar” e entrar numas de Maria Chuteira, é romantismo demais. Os caras chutam elas como se fossem bolas em jogo de futebol: rola e rola de mão em mão... E no fim... Você sabe como termina.

— De mão em mão, não! De pé em pé! Corrigiu Chapeuzinho Roque. — Nos finalmentes os caras não valorizam mulher. O ambiente deles é de camaradagem entre marmanjos. A amapô pode acabar como aquela mulher daquele goleiro do Flamengo. Ingênua, pensou que o Chuteira ia prestigiar ela e o filho deles.

— A Girina se acaba no rola-rola do fingimento apaixonado, que nem Julieta atrás de Romeu, e termina ficando embucetada... “E a vaca vai indo para o brejo até não voltar mais”. — Disse de si para consigo Carminha.

— Carminha continuou seu raciocínio, mas se enrolou nas palavras:

— Na melhor das “hipotecas” a vadia entre numa de pirulita. E fica! Fica pirulita para o resto da vida.

— Minha família está com o apartamento hipotecado, disse Chapeuzinho Roque, enquanto sorria do deslize verbal da outra. E pensou consigo mesma: “Essa aí é muito Regina”. Hipótese por hipoteca, benza Deus! Tirou então os fones do ouvido, desligou o celular, depois de ouvir a canção cantada por Marisa Monte “Arrepio”.

— Como é isso? Roque alterada começou a falar ao celular: — Você acordou com o pau na boca? Vai voltar para São Paulo? Vou ficar aqui no ora veja? Paga o hotel até depois de amanhã, é o mínimo que você pode fazer, disse, desligando o celular. — Filho da puta! Exclamou com raiva. E repetiu os versos da canção que havia terminado de ouvir cantada pela Marisa Monte:

— “Arrepio, arrepio/Arrepio de pancada/Pancada, pancada/Pancada de arrepio...”.

Guardou a tesourinha num nicho da mochila, apoiou os cotovelos nos joelhos, baixou a cabeça entre as pernas e lembrou de uma poesia que havia lido recentemente, “Sarah Sahara”. Isso mesmo guardou o nome na memória por que se lembrou do deserto do Saara.

Sentiu uma profunda vontade de saber aonde tinha lido a poesia. Queria reler. Reler: faltou atinar alguma coisa. Alguma coisa que a ajudaria, de alguma forma, a viver. A saber mais de si mesma. Não sabe qual coisa essa. Por isso queria ler outra vez a poesia. Alguma coisa  que poderia fazê-la agregar um refúgio, um abraço dela, nela mesma. Um olhar no horizonte de dentro para dentro. Sem fugir do frio luar da própria alma.

Ficou por um momento a vidiar a Carminha se afastar enquanto soluçava. Chorava e chorava, desolada e baixinho. Pra ninguém ouvir. Baixou a cabeça e outra vez direcionou os olhos em direção à recém-conhecida que se afastava rumo a um quiosque para tomar uma coca-cola e comer um cachorro quente. Sentiu-se sozinha. Como nunca havia estado anteriormente.

E repetiu baixinho os versos cantados pela cantora de "Arrepio":

— "Lero, lero lero lero lá..."

GLOSSÁRIO:
Acordar com o pau na boca — Aprontar, agir mal, jogar praga.
Amapô — Mulher. Gíria usada no mundo gay masculino. No mundo gay feminino é usada para mostrar alguém, tipo: “olha aquela amapô, que gata!”.
Azul Alice — Tom médio da cor azul. Indica pessoa cabeça feita.
Assuntar — Espreitar, refletir, meditar.
Band-Aid — Biquíni, maiô de duas peças, metáfora “penso rápido”, do tamanho mínimo do curativo adesivo.
Bonde — Pessoas trocando ideias juntas ou andando próximas (RJ).
Brejo — Grupo de lésbicas.
Cabeça-feita — Pessoa com personalidade. Que possui opiniões próprias.
Cofrinho — Vinco do bumbum de garotas atraentes.
Embucetada — Apaixonada ou imensamente irritada.
Fofinha — Gatinha, menininha bonita, fofeta, ninfeta.
Forever 21 — Modelo de mochila.
Girina — Adolescente recém-entrada no mundo lésbico. Ingênua.
Gringo — Excelente, bom demais, pessoa da mesma tribo, ótimo.
Maria Parafina — Garota que é chegada a ficar com surfistas.
Maria Chuteira — Vadia chegada a namorar jogadores de futebol.
“Neymar” — Caricatura de andarilho de praia.
Para-raios — Sogra.
Perereca — Vulva.
Pirulita — Bissexual.
Regina — Garota ou mulher em estado de extrema carência de cultura geral.
Sapeca — Saliente, assanhada, chegada a um namoro.
“Sarah Sahara” — Poesia de autoria de Decio Goodnews. Disponível em http:// www. Recantodasletras.com.br. Ou em http:// www. Usinadeletras.com.br (Sereno Hopefaith).
Vidiar — Olhar com intenções terceiras de descobrir o outro. Ou a outra.
(Fonte: dicionários de gírias de praia, tribos de surf, termos lésbicos e turistês).
Decio Goodnews
Enviado por Decio Goodnews em 09/08/2014
Reeditado em 10/08/2014
Código do texto: T4915550
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre o autor
Decio Goodnews
São Paulo - São Paulo - Brasil
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