ZELANDO PELA NATUREZA - QUEM SEMEIA VENTO,COLHE TEMPESTADE

O sítio do Pixingolê ficava do outro lado da fazenda do Coronel Galdino Borges.

Era um sítio pequeno, mas bem conservado, com um riacho limpinho e uma matinha preservada. Isso, porque a proprietária, dona Amelinha, jamais consentiu que a devastassem.

Aquilo era tudo que o marido lhe deixara ao abandoná-la.

Havia na região alguns donos de terras que só pensavam em aumentar os lucros, sem muita preocupação com a qualidade de vida. De vez em quando, promoviam queimadas, destruindo assim o mato, alguns animais e sujando o ar.

Era como semear vento, ou seja, não se importar com conseqüências.

E faziam isso com a finalidade de vender os lotes para construção de casas. Era um negócio muito vantajoso.

Só não pensavam que o homem estava começando a invadir áreas que não lhe pertenciam. E nem imaginavam que algum dia isso seria cobrado pela Natureza.

Pois não é que de tanto mexer naqueles matos, um dia eles levaram o maior susto?

Deixaram um descampado tão grande , que os bichos ficaram sem seu habitat natural. Como se fora coisa combinada, começaram a aparecer nas construções que se erguiam no lugar da mata, animais de todos os tipos . Desde tatu e cobra até capivara e ainda uma onça pintada. Tudo isso deu um trabalho danado. Pularam, correram, pegaram em arma, até que conseguiram abater a onça. E a cobra que não era venenosa, acabou fugindo sem prejudicar ninguém. O susto é que foi grande.

Estava ali o anúncio do perigo que representava derrubar as matas.

Resolveram às pressas fazer o replantio de algumas áreas, cujo resultado chegasse rápido também. Fazia-se urgente devolver às animálias o seu pouso natural.

Entretanto, para a dona do sítio do Pixingolê, o sentimento de consideração à mata e aos animais sempre esteve presente. E o seu riacho nunca recebia lixo.

Certa vez, chegaram uns homens e lhe fizeram uma proposta: pagariam um bom dinheiro se ela permitisse que eles derrubassem uma parte daquela matinha. É que eles precisavam de um pasto para algumas cabeças de gado e queriam alugar o espaço.

Outros propunham tirar uma parte da matinha pra fazer uma roça a meio.

Diante de ofertas desse tipo, ela nem pensava, mesmo com as dificuldades financeiras que enfrentava. Respondia:

_ Não. As criaturas De Deus, isto é, os animais, precisam ter o seu refúgio. Como ficariam eles sem o seu teto , o seu chão?

E tanto quanto foi possível, ela conseguiu incutir essa consciência nos seus netos e em quem freqüentasse a sua casa.

Ali não havia passarinhos em gaiolas e as arapucas armadas pelos dois netos eram apenas para capturar animais para o alimento.

Quantas vezes, enquanto varria o terreiro, cantava!

“ Passarinho preso canta

preso deve de cantar.

Como foi preso sem culpa

canta para aliviar.

Passarinho em gaiola

Não procure, por favor

Que seu canto é tão triste

Cheio de mágoa e de dor.

Como posso eu fazer

Coisa tão sem coração

Tirar do pobre bichinho

Os encantos da amplidão?”

Vendia frutas, verduras e ovos para a vizinhança. E as pessoas gostavam muito das cocadinhas que ela fazia. Um ou dois dias na semana, Anterinho e Tonho, os netos, penduravam os jacás nos lombos das mulas, enchendo-os com a pequena produção e iam vender no povoado.

Era assim a vida daquela mulher que amava a Natureza e sabia de sua importância para o homem.

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Esther Lessa
Enviado por Esther Lessa em 09/06/2013
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