O VESTIDO BRANCO


Noite de ano-novo chegando, e ela não tinha sido convidada para nenhuma comemoração. Passaria a virada do ano sozinha, como tantas outras vezes.

As pessoas no escritório a achavam uma criatura estranha, e falavam dela pelas costas: cabelos mais encaracolados do que seria desejável, quebradiços e sem-brilho. Olhos escondidos atrás de grossas lentes redondas e fora de moda. Pele branca demais, magreza extrema, postura de ponto de interrogação, devido a antigas dores nas costas, que a acometiam se ela tentasse andar ereta, ela passava pelas mesas servindo café e sendo ignorada. Jamais se atrevia a dirigir a palavra a alguém. Dela, ou de sua vida, ninguém sabia, a não ser que tinha trinta e sete anos e vivia sozinha em um pequeno apartamento em Copacabana. O aluguel, segundo diziam, era pago por caridade por alguma tia que morava distante.

Ah, é claro, ela tinha um nome: Ana Beatriz. Mas ninguém a chamava por ele. Quando alguém desejava dirigir-se a ela, usava algo como  "Ei! Psiu!"  Ou "Garota do Café!" e até mesmo "Coisinha!"

Ana Beatriz nunca era convidada para as festas do pessoal do escritório, e nem participava do amigo-oculto no final do ano. Geralmente, nem se lembravam dela, de tão apagada que era. Como vingança, enquanto servia os comes e bebes, ela disfarçadamente cuspia em algumas taças. Adorava ver aquelas mulheres bem-vestidas, bem-maquiadas e bem-acompanhadas sorvendo as taças com seu cuspe. Sabia que elas levariam para suas casas, um pouquinho dela, de seu veneno. Quem sabe, morressem em agonia durante a noite?

Naquele 30 de dezembro, ao sair do escritório ainda com  dia claro devido ao horário de verão, ela passou, como de costume, por uma vitrine de roupas femininas que sempre ignorava; mas daquela vez, Ana Beatriz viu algo com o canto do olho: uma mancha branca que chamou sua atenção. Ao virar-se de frente para ver melhor, quase perdeu o fôlego: era um lindo vestido branco, com decote tomara-que-caia, justo na cintura, com corpete rebordado em branco e rosa-pálido e uma saia longuete bem rodada. Ela ficou admirando o vestido,  e ao olhar a etiqueta de preço,  viu que apesar de muito caro, ela podia pagar por ele; tinha suas economias, já que raramente comprava alguma coisa.

Foi para casa, e à noite, não conseguiu dormir, pensando no vestido. No dia seguinte, ao sair do escritório, às seis da tarde, ela não resistiu: foi até a loja e pediu para experimentá-lo. A vendedora olhou-a dos pés à cabeça várias vezes, antes de dizer: "Ele é caro demais." Ana Beatriz ignorou o tom de desprezo, e insistiu: "Eu tenho dinheiro."

A vendedora, de má-vontade, entrou na vitrine e, tirando o vestido do manequim, estendeu-o a Ana Beatriz, que imediatamente, entrou na cabine da loja e o vestiu.

Ao olhar-se no espelho, ela mal pode acreditar no que via: servia-lhe como uma luva, e nem mesmo sua magreza extrema fazia com que ela não parecesse simplesmente deslumbrante nele. Aprumou as costas - e surpresa, não sentiu nenhuma dor . Ao curvar-se para ajeitar a barra do vestido, os óculos cairam de seu rosto, e atônita, ela percebeu que enxergava perfeitamente sem eles. E viu que seus cabelos eram macios, cheios de brilho, belíssimos! Percebeu que o verde de seus olhos cintilavam, e quanto mais ela se olhava no espelho, mais bela ficava!

Saiu da cabine ainda vestida, deixando suas roupas velhas jogadas no chão, e pagando pelo vestido e mais um par de sandálias , saiu porta afora. Nem percebeu o olhar espantado da vendedora!

Andou pelas calçadas de Copacabana, sorrindo feliz, enquanto todas as cabeças se viravam para olhá-la. Mulheres e homens boquiabertos de admiração interrompiam suas caminhadas para vê-la passar. Alguém tirou-lhe uma fotografia, para a qual ela posou, gentil.

Assim, chegou a meia-noite, e Ana Beatriz foi até a praia, para ver os fogos de artifício. Na hora da virada, sentiu que alguém a puxou pela mão, dando-lhe um beijo apaixonado na boca. Nem percebeu que o homem em questão estava embriagado, apenas deixou-se ser beijada pela primeira vez em sua vida. Ao mesmo tempo, os fogos de artifício pipocavam e faiscavam acima deles.

Depois daquilo, ele a puxou para um canto escuro, e fez amor com ela, que não ofereceu qualquer resistência, tão extasiada sentia-se!

Na manhã seguinte, acordou nas areias da praia, e ele tinha sumido.

Dias depois, quando o escritório retomou suas atividades, Ana Beatriz voltou ao trabalho. Percebeu que as pessoas do escritório a olhavam demoradamente, e pela primeira vez, a cumprimentavam com respeito. Ela retribuía os cumprimentos com educação e simpatia. As pessoas se perguntavam quem seria a nova moça do café. Foi quando uma das moças mais bonitas do escritório dirigiu-se a ela: "Ei! Psiu! Coisinha, pode me trazer uma xícara?"

Ana Beatriz encheu a xícara de café, e chegando junto da mesa onde a moça estava sentada, derramou-a bem devagar sobre a saia de seu vestido, enquanto dizia calmamente: 'Meu nome é Ana Beatriz."

Bem, nossa heroína acabou casando-se com seu chefe, e hoje, divide com ele a administração do escritório.

Possíveis Morais da História (escolha a sua!):

-Precisamos acreditar nos milagres de ano-novo!

-Às vezes, é aconselhável trocarmos as lentes de nossos óculos.

-Uma boa transa  pode renovar a autoconfiança de uma mulher mal-amada.

-Um banho de loja pode ajudar uma mulher a redescobrir-se.

-Esta história não tem moral nenhuma, e vestidos milagrosos não existem.
Ana Bailune
Enviado por Ana Bailune em 23/11/2012
Reeditado em 15/04/2014
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