Pombo-correio

.:.

Acordei amarrotado. A noite, mais uma das muitas mal dormidas, entretanto, foi apimentada por dores que me visitavam, às vésperas do parto inexistente. Eram dores lancinantes[1] e intermitentes[2]. As pulsações, distensões e contrações se asseveraram depois que a esposa decidiu ajudar-me, aplicando massoterapia[3] localizada. Fui orientado a respirar fundo, relaxar – lamentei nunca ter frequentado aulas de aprendizagem dessas técnicas, mas sentia que a hipoxia[4] ia se reduzindo à medida que as mãos me acariciavam a dolorida articulação... E sentia, também, o deleite das duas filhas, num esbaldar-se de sorrisos, ao presenciarem o pai, coitado, quase indo às lagrimas. Naquele momento, a sala de visitas da casa era um misto de dor, alegria, trejeitos[5] e meneios[6]: o pai chorava; a esposa e as filhas sorriam. O pai contorcia-se em cintilantes posições; esposa e filhas, nunca perdendo a sutileza do sexo feminino, entreolhavam-se e sorriam. A família festejava em harmonia.

Pulei da cama, hábito exótico que herdei da época de internato na Academia Militar. Infelizmente, os reflexos do jovem cadete em nada se assemelhavam aos impulsos dolorosos do homem de meia idade. Ao pulo seguiu-se a queda e o grito. A perna ainda estava viva, vivinha, e pulsando – as contrações que se perpetuaram na madrugada, estavam apenas cochilando e o ato mecânico do salto reacendeu a chama das lamentações e do suplício[7].

– Bom dia, pai! – pergunta a filha mais nova. – A perna ainda está doendo? – Uma pergunta e um sorriso.

– Acordamos todos juntos, filha: eu, você, sua mãe, sua irmã e a dor...

Novos sorrisos. A esposa, do toalete, grita:

– Quer outra massagenzinha?

Mais sorrisos.

Levantei – caxingando[8] – e fui ao banheiro cumprir as amenidades do acordar.

– Já são seis e oito. Vão perder o transporte! – rotina de mãe em dias letivo das filhas.

Dois minutos depois:

– Seis e dez. Vão perder o transporte! – e perderam.

A função da mãe é: levantar, acordar as filhas, providenciar o café da manhã – a moça que nos auxilia chega depois das sete horas – e deitar. A do pai: descer com as rebentas e as levar até o local onde o transporte passa, saindo impreterivelmente – o transporte – às seis e dez. Quando o espelho atrasava o ritual da mais velha das filhas, adolescente, ao pai caberia a missão, árdua missão, de encalçar[9] o homem do transporte, até garantir o itinerário das refratárias até o colégio... Deu tudo certinho e as meninas embarcaram. O dia nascera cheio de promessas, seria um daqueles.

No trabalho, cumpridas as formalidades militares, um único desejo: sentar. A dor não cessava e as lamentações renderam novos olhares atravessados.

– Já procurou um médico, chefe?

– Não!

– Conheço um ortopedista que é muito bom – comenta o coronel.

– Até pensei em procurar, mas a mulher me disse ontem, enquanto massageava o local, que era uma veia quebrada na perna esquerda e nada mais – foi uma resposta ingênua, confesso, mas...

– Veia quebrada, é? Massagem, foi? Sei... – diz o coronel, fazendo cara de reprovação. O cabo também quis sorrir, mas preferiu sair da sala.

– Algum problema, coronel? O senhor acha que é grave e demora pra recuperar uma veia quebrada? Ela pulsa muito.

– Imagine! É molinho, rapaz! Nada que outras sessões de massagens caseiras não resolva, nossa! Veia quebrada... Sente-se, isso é ruim demais. Se quiser poder até ir embora.

Escuto alguns sorrisos vindo da sala ao lado – o cabo e o tenente. Ao me levantar, sou interpelado pelo coronel:

– Fique sentado mesmo! Sem estresse. Descanse. Vai que a veia estoura.

Não escutávamos mais sorrisos, mas gargalhadas. Estava ficando incomodado. O coronel brincava ou estaria, deveras, preocupado comigo? Afinal, era minha primeira veia quebrada e toda primeira viagem tem seus encantos e deslumbramentos, apesar dos medos.

Meu telefone celular toca.

– Alô! – atendo.

– Chegou uma encomenda pra você dos correios, um envelope. Quem é Tony Bahia?

– Um amigo meu, escritor, de Curitiba.

– E que envelope é esse?

– É meu presente de aniversário, ora! Não posso receber presentes?

– Sei. (Odeio esse “Sei” como resposta!). Posso abrir?

– Que que você acha?

Meu dia mudou. Aliás, ressurgiu. A sensação de receber uma carta fez de mim um enamorado e saudosista homem. Senti-me vagando no tempo, no túnel do tempo, em remotos tempos de quando os amantes, os amigos e toda a urbe[10] aguardava, espreitando[11] das janelas, o carteiro passar. Sentia-me importante, digno de alguém ter o trabalho e desvelo de se dirigir aos correios e me postar uma carta, realimentando em mim a esperança pueril das gentilezas, dos pequenos atos – impulsionadores das verdadeiras transformações.

– Passou a dor?

– Não, coronel! É que recebi uma correspondência, uma carta.

– Essa felicidade toda é por causa de uma cartinha?

– Sim!

– Sei. Seu problema é mesmo na perna?

– O coronel hoje está inspirado, chefe! – complementa o cabo, esboçando o prenúncio de novo sorriso.

– Se estamos todos sorridentes, por que mudar esse estado de alegria, não é mesmo? Permissão, coronel, estou indo. A perna está doendo muito; irei pra casa.

– Traga atestado! Se for ao médico, traga comprovante da consulta.

– Sim, senhor!

Saí apressado, sem dor, rumando direto para onde me aguardava, ignorando toda a emoção que me sondava o íntimo, a silenciosa carta.

Duas ruas antes de chegar, resolvi ligar:

– Alô! – atente a esposa.

– Estou chegando. Peça pra uma das vendedoras me esperar na porta da loja com a carta.

– Que pressa é essa? Não pode esperar até fecharmos a loja?

– Estou chegando. – respondi e desliguei.

O semáforo abriu. Dobrei à esquerda – coincidentemente há uma agência dos correios no cruzamento que leva à loja. Aproximei-me e, de longe, apesar da miopia, vi o envelope amarelo-cor-dos-correios fechado e me esperando, aguardando o meu contato. Toquei-o com uma das mãos e ali mesmo, dentro do carro, decidi abrir. Havia dois volumes: um livro – os pássaros – e um CD – poemas para Maria. Se o vil metal nos enche os olhos da ilusão materialista, a leitura nos apraz[12] o mais íntimo da alma, enriquecendo-nos a finitude da alma terrena.

Pus o CD no som do carro e viajei nas bênçãos e devotamento do poeta... Ao parar noutro sinal, abri o livro e me encontrei no encontrar-se da poesia da página 16: “O que eu quero não se procura: encontra-se...”.

O tempo voou. Na terceira poesia aciono o controle remoto. Entro. Estaciono. Subo até o segundo pavimento. Retiro o peso da farda e retomo a leitura. Resolvo banhar-me, deixando o torpor das poesias recitadas me invadirem as sutilezas dos sentidos: minhas mãos adoram tatear as páginas; meus olhos apreciam as gravuras dos pássaros estilizados das ilustrações do livro, pássaros-mulher: perfeita harmonia entre o canto animal e o apelo da fêmea... E meus ouvidos se arrefecem[13] do calor das visões distorcidas, dos verbos fortes e penetrantes dos recentes diálogos no quartel. Meus sentidos estão exasperados[14]; minha alma, errante, voando e bendizendo – sou integralmente graça, prazer e devotamento[15].

Saio do banho. Visto-me, apesar de ter a alma despida.

“Quisera os meus pés molhados pela água e pelo sal! Quisera o meu corpo banhado pelo teu corpo, quisera...” – é o que me brinda a página 33, enquanto enxugo os pés ao sair do banho.

Os desencontros, penso, nada mais são que encontros anacrônicos. Portanto, quando tudo parecer destruído, atrase os ponteiros da vida ou os adiante – quem sabe nesse novo tempo não residam as esperanças das desventuras do tempo dilatado, diferido[16].

O interfone toca, anunciando visita. Na ausência da moça que nos ajuda, atendo:

– Pronto?

– Major, o coronel pediu pro senhor assinar um documento que o senhor esqueceu-se de assinar antes de sair.

– Estou descendo.

Pelo transe e enlevo[17] frutos da correspondência, saio sem me aperceber que a pequena Looty Fly, nossa cadelinha de estimação, me acompanha. O vento sopra atrás de mim e o portão se fecha. Ficamos ilhados. Com as chaves dentro de casa, não havia como entrar. As filhas ainda na escola, a esposa no trabalho, a secretária doméstica no médico, restou-nos esperar...

Assinei o documento e o porta-voz da correspondência partiu.

Morávamos na chapada fazia cinco anos. Da sacada da nossa residência a visão da Floresta, da mata virgem, enxertada por edificações que se incrustam[18] no ambiente verde, dá imponderável prazer. Entretanto, nunca tinha percebido os detalhes da vegetação à testa da nossa casa. Bem à minha frente, confrontando o portão que nos isolou, imponente ipê-amarelo cumpre a promessa da perpetuação das espécies: algumas folhas brotam, outras caem. E o chão tem, aliado ao lúgubre tom do calçamento, o amarelo da ostentação, do ouro. A não mais que vinte metros, à esquerda, o chão se inebria com o tom calmo das flores do ipê-rosa caídas no chão. Decido caminhar. Looty Fly, farejando tudo e descobrindo um território tão próximo de onde mora, acompanha-me, balançando o rabinho preto com pintas douradas, freneticamente.

Olho para trás. Um tapete multicolorido dá cor ao meu espírito. De onde estou, embaixo d’outra árvore – lindo ipê-branco – meu ângulo de visão me revela faixas da natureza, cordões de cores numa miríade[19] de flores, em branco, rosa e amarelo, que se esparrama pelo chão. O vento sopra brisa leve, acariciando meu rosto que se nutre do ar puro, em meio aos caos da cidade tão ali pertinha de mim.

Observo. A pequena Looty Fly. Numa das árvores, surge uma família de soins, aparentemente dóceis. Eles se achegam, observam nossas reações e descem no telhado do sítio que fica em frente. Uma senhora sai, corta algumas fatias de banana e coloca numa vasilha. Eles descem e se esbaldam, comendo tudo sem pressa, sentindo-se filhos da casa.

Noutro retrocesso temporal, relembrei minha infância, meu pai ressurgiu sorrindo pra mim, ainda vivo, e não senti o tempo passar. Despertei com a buzina do moto taxi que se aproximava, trazendo a chave. Ele ma entregou e foi embora, seguindo o mesmo caminho do porta-voz do quartel.

Dei alguns silvos[20] e a cadelinha surgiu. Entramos. Em casa, da sacada da varanda, resolvi revisitar o ambiente que circunda minha residência. Descobri novas árvores, novas flores, novas vidas que se aninhavam nas casinhas dos pássaros e, antes de entrar, fechando a porta, recebi novo presente: o canto de um lindo canário belga, talvez fugido de alguma gaiola.

Nijair Araújo Pinto

Crato-CE, 28 de junho de 2012. 14h40

[1] Que produzem pontadas agudas.

[2] Que param e recomeçam por intervalos.

[3] Tratamento por massagem.

[4] Diminuição de oxigênio no sangue. Hipoxemia.

[5] Gestos, caretas, esgares.

[6] Movimentos de um lado para o outro, saracoteados.

[7] Sofrimento.

[8] Mancando, claudicando, capengando, coxeando.

[9] Perseguir.

[10] Cidade.

[11] Espiando, espionando.

[12] Agrada, deleita, delicia.

[13] Esfriam.

[14] Exacerbados, enfurecidos, “à flor da pele”.

[15] Abnegação, renúncia.

[16] Adiado.

[17] Deslumbramento, arrebatamento.

[18] Inserem, fixam.

[19] Grande número indeterminado.

[20] Assobios, sibilações.

Nijair Araújo Pinto
Enviado por Nijair Araújo Pinto em 28/06/2012
Reeditado em 26/05/2014
Código do texto: T3749580
Classificação de conteúdo: seguro
Copyright © 2012. Todos os direitos reservados.
Você não pode copiar, exibir, distribuir, executar, criar obras derivadas nem fazer uso comercial desta obra sem a devida permissão do autor.