Conto regionalista

Conto que fui um jogador de pelada no campinho frente à casa do amigo Fabiano, e metido por outras vadiagens. O ano era 1999. Eu tinha 17 anos e uma imensa fome por bola. Largava tudo que tinha, na hora de jogar. Direi que era um dessas pernas de pau, só que bem mais finas que a postura do resto do campo. Não era tão ruim quando usava os dribles, os passos, mas caia feito juá em safra mútua.

O time era "Cachoeirinha". Pertencia a Carlinhos, irmão de Fabiano e de uma turma a mais. A fazenda era do senhor Joquinha Buzina e chamava-se Cachoeirinha, - daí a nascença do time e o nome de cartório passado.

Começamos a partida. José Filho, um amigo de infância e companheiro de time, chegou atrasado, mas, éramos poucos em campo, teve chance naquela rodada. Nesse dia estavam: Dé, Pedro, Veio, Kelsom e Damião. A partida era de cinco, lado a lado. O time da gente era: Carlinhos, Celso, eu, Guilherme e Fabiano. O marcador marcava 10 minutos por pelada. A digital do relógio era quase apagada e os números, dependurados numa galha de catingueira ao lado do campo. José Filho travou uma de suas caneleiras com Damião. Foram ao chão. Iniciaram na bola e terminaram, canela a canela. Achando pouco, se atracaram um no outro, até que José Filho fez um galo na cabeça de Damião e, este lhe largou; foi chorar assim, escondido da gente. Depois de um bom instante, não deu para esconder, o galo tinha se formado e estava de crista vermelha, em alto relevo. Um olhava e passava a mão, outro vinha e dava risadas. Tudo foi como se, para fazer o senhor Buzina, vir até o lateral do campinho e falar:” Minha Nossa senhora, que galo é este que nasceu de repente na cabeça desse rapaz? "E todos deram uma gargalhada daquelas.

Eu não tinha na cabeça só a bola. Havia ainda as aventuras malucas que fazíamos por onde quer que andássemos. Guilherme, meu irmão, um dia achou estranho o sobrenome Buzina e quis repensar o apelido, numa manhã que a professora Ana Carla, soltou a gente mais cedo da aula. Peço licença pra contar que nunca achei que o mundo estivesse tão perto de se acabar. Foi quando avistamos a "Baleia", um Chevette 78, azul. Ao longe se ouvia um monte de: "píp... pibip... píp... pibip... píp... pibip!..." Aí que percebemos que era a “Baleia” de verdade, a grade dianteira vibrando em tempo de se soltar. -"Saiam do meio, saiam do meio, o carro está sem freio, o carro está sem freio!" E gritava e botava uma com a mão para fora, acenando assim, para vermos melhor. A direção estava igual a uma bailarina: dançava pra lá e pra cá. Quando ele puxava para um lado, ia se para o outro; parecia mais com Filipe Massa da Fórmula 1, nos seus treinos de partida. “Saiam do meio que o carro está sem freio, saiam do meio que o carro está sem freio” Píp... Pibip... Píp... Pibip... Píp... Pibip!..."Foi essa a idéia que ele pode ter do senhor Joaquim Emídio de Medeiros Sobrinho, vulgo, - Joquinha Buzina.

N'outra tarde, fomos mascar cana-de-açúcar, trás do balde do açude velho da Dona Biluca, mãe do senhor Buzina. Lá havia um imenso engenho exposto à chuva e ao vento. Bacia de moenda para um lado, veio para outro. "Ninguém mais utiliza isso. Tá tudo enferrujado. O museu do tempo passou a sua mão suja..." Disse Celso, filho do senhor Joquinha. E de fato, que pudéssemos ver o desprezo total por aquelas ferramentas antiga. Depois, fomos debaixo dos mangueirais, das goiabeiras, das pinheiras. Ficamos horas e mais horas escutando a flauta doce dos sabiás de coleira. Ao fim, a tarde descia entre a pestana das nuvens e as sombras do poente triste.

Resolvemos ir para onde deixamos Buzina empurrando o chão com as mãos, para rede balançar seu corpo das lutas diárias da fazenda. "Aonde era que você estava Celso, que eu já estou rouco de gritar, meu filho?" "Ah pai, estávamos no canavial, mascando cana". "Após vá buscar o gado, lá na roça das lagoas, vá rapaz!" Papai, eu vou de quer, buscar esse gado?

”Vá de ônibus meu filho, pronto. O velho ficou vermelho e a gente veio embora. É óbvio que de ônibus também não podíamos, então fomos a pé mesmo.

Assim foi que estes anos se passaram levando consigo o campinho e seus atletas, ao tom do destino improvisado e dos sonhos de cada um. Resta a saudade daquelas tardes efervescentes e divertidas, quando ainda o pai de Fabiano era em vida e o nosso também. Hoje, tudo mudou. Carlinhos casou-se e foi morar em Mapironga; Véio foi a São Paulo, José Filho também se casou e veio para a cidade, Kelsom está em São Paulo, Guilherme cuida da fazenda onde assistimos a nossa infância. Celso, está em Pombal com o pai, já doente de tantas dores. Uma porção de suas terras me parece até o campinho está a venda. Que pena, que saudades!... Mas, como na vida, tudo não é eterno, só as lembranças é que ficam plantadas em nossos corações para sempre. E me restou para contar a história.

Pombal, 19 de setembro de 2010.

Jairo Araújo Alves
Enviado por Jairo Araújo Alves em 12/10/2011
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