SAÚDE PRECÁRIA
(Continuação de Almoço em Família)
- Alô! Sim, ele está aqui. Um momento que eu vou chamar. (fora do interfone) Karol! Oh! Karol! Sua namorada no interfone, lhe procurando.
- Eu já disse que nós somos só amigos. Alô! (pausa) vou sim. Já estou subindo. (e para o irmão) Lula eu vou lá para o 12, na piscina, encontrar Carol. Você sabe onde está minha sunga verde?
- Deve estar na bagunça que você deixa no gavetão da sua cama ou então Berna botou para lavar. Pergunte a ela, e fale baixo para não acordar Benjamim.
- Meu amor, seu calção está dobrado dentro da gaveta, junto com o seu roupão. Não se esqueça da sandália e vá pelo elevador de serviços. Você sabe as regras do condomínio. Seu Lopes estava reclamando outro dia...
- Mas não sou eu nem Carol quem usa o elevador social quando vamos para a piscina.
- Melhor assim e veja como se comporta. Nada de fazer bagunça. Se sentir fome, tem comida de gente na geladeira. (risos) Aquele almoço estava horrível...
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- Eu procurei por você, mas tinham saído todos.
- É. Nós fomos almoçar na casa de Thomas, (e sorrindo) o bichinha de nossa classe.
- Na casa dele? Por quê?
- É assim. O pai dele foi casado com minha mãe e é pai dos meus irmãos com a letra B. aí quando ele se separou de minha mãe, casou com uma alemoa e teve dois filhos, Thomas e Helga que tem 11 anos. Ela é a menina mais bonita que eu já vi em toda minha vida. Os olhos dela...
- Não precisa contar detalhes da sua queridinha. Eu nem me importo com ela...
- Você está com ciúmes de mim?
- Estou. E daí?
Karol segurou a cabeça da amiga e deu-lhe um beijo na boca. Surpresa com a atitude incomum do amigo de sempre, Carol caiu sentada num dos cadeirões da piscina e tapando o rosto com as mãos disse.
- Você está louco Karol? Quem disse que eu quero ser beijada assim?
Com o rosto em fogo e os olhos fechados, Karol disse:
- Eu descobri que te amo e acho que você também me ama.
- Amo. Mas não queria ser beijada assim. Queria que nosso primeiro beijo fosse... bem romântico.
- Depois a gente dá o primeiro beijo novamente.
- Onde já se viu dois primeiros beijos, Karol?
- É uma invenção nossa. Todo dia vai ter o primeiro beijo. (risos) Lá vem seu Lopes.
- A piscina vai fechar às 17h00 para manutenção e ninguém pode ficar por aqui.
- Sim senhor. (disseram os dois) Vamos só dar uns mergulhos, depois vamos tomar sorvete lá em dona Margarida.
- Eu também vou com a turma lá de casa, quando vocês estiverem saindo avisem para irmos todos juntos.
- Sim senhor (e quando seu Lopes se afastou) ir com esse chato, não vou de jeito nenhum. (risos)
- E como foi o almoço?
- Horrível, muito ruim, comidas estranhas. Eu só gostei do apfelstrudel.
- E isso é de comer?
- É um doce com massa folhada recheada de maçã.
- Hum! Deve ser bom mesmo.
- Depois do almoço a “tia” Frida passou mal.
- Passou mal?
- É. Eu não sei bem o que aconteceu, mas minha mãe botou ela dentro do carro e levou para o hospital, porque “tia” Frida estava sangrando muito.
- Ela se cortou, foi?
- Não sei, mas tinha muito sangue no chão.
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- Berna, você tem ideia do que aconteceu com frau Frida para tia Beatris sair com ela naquela correria toda?
- Frau Frida teve um aborto espontâneo.
- Você acha que pode ter sido por conta do mal estar da situação?
- Pode ter antecipado, mas mamãe disse que ela está com anemia muito severa e que o aborto aconteceria a qualquer momento. Eu liguei para mamãe e ela tinha acabado de fazer uma curetagem para ver se estancava a hemorragia. Ela agora está tomando transfusão de papa de hemácias porque a hemoglobina está muito abaixo do tolerável.
- Viver com um chato como “tio” Thomas adoece qualquer um.
- Não fale mal do meu pai.
- Se ele não fosse um chato, tia Beatris não teria trocado de marido. Ele é tão chato quanto minha mãe. Deviam ter ficado juntos.
- Um já teria matado o outro. (risos)
Karol abriu a porta como um furacão e Luiz perguntou:
- Ué! Já acabou o banho de piscina?
- E foi tão rápido que nem deu para molhar os cabelos (disse Bernadete e os dois adultos riram para o irmão adolescente).
- Nós resolvemos ir tomar sorvete lá em dona Margarida e vamos logo porque o seu Lopes disse que vai levar a família e quer ir com a gente...
- Ele vai dar palpite no sorvete dos outros (risos)
- Ele ficou lá em cima dando ordem a todo mundo, aí, sem que ele visse, nós descemos.
Algum tempo depois, Karol aparece na sala.
- Lula eu botei um pouco do teu perfume...
- Pelo cheiro forte que está, você gastou o frasco todo. E que arrumação é essa? Camisa de manga comprida? Não era você que nunca mais na sua vida iria usar camisa de manga longa?
- É porque a ocasião é especial.
- Vai pedir Carol em casamento?
- Não. Claro que não.
- Mas vai dar um beijinho nela?
- Já dei.
- Rapaz! Senta aqui. Me conta como foi isso?
- Foi assim. Quando eu falei com meu psicólogo, psicólogo não, psiquiatra, ele disse que eu deveria dizer a Carol que gosto dela. Aí, eu disse a ela que gostava dela, e ela me disse que gostava de mim também.
- Ah! Meu irmãozinho. Dê cá um abraço. Você agora é um homem de verdade.
- Venha cá meu irmão querido. Deixe eu lhe dar um beijo e um abraço também. Trate Carolzinha muito bem. Mulher gosta de ser tratada com carinho assim como eu sou tratada por Lula.
- Tome aqui, compadre.
- Caraca! Cinquentinha... É adiantamento?
- Não. É presente. Isso merece uma boa comemoração. Ligue para a mãe de Carol e pergunte se ela deixa vocês irem assistir ao filme dos Trapalhões, diga que eu vou levar e vou buscar. Quando terminar a sessão, você liga e vamos todos comer pizza com guaraná.
- Mas esse dinheiro dá para tudo?
- Não. Esse é para você pagar as entradas.
- E a pipoca com coca?
- Você paga com esse outro aqui. (disse Bernadete entrando na sala e entregando outra cédula de R$50,00)
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- Olavo! Você aqui? Estava me esperando ou aconteceu alguma coisa?
- Não. Não aconteceu nada. Só fiquei preocupado com o estado de frau Frida. Como ela está?
- Agora estável, mas deu muito trabalho, chegou a fazer parada cardiorrespiratória. O organismo dela está muito debilitado.
- Algum comprometimento?
- Não. Só precisa corrigir a desnutrição. Conversei um bom tempo com Thomas sobre o quadro dela e ele disse que não tem a mínima ideia das razões desse comportamento da mulher, mas nós conhecemos a peça, não é?
- Aquela moça vive em constante pressão psicológica. Assim como foi o aborto poderia ter sido um surto psicótico. Enquanto vocês foram para o hospital eu conversei com as crianças. Thomas não quer ir para a Alemanha, exatamente, por causa do comportamento do pai. Helga alimenta a esperança de que, junto com os avós a vida deles melhore. Eu gostaria de ficar com eles...
- Nem pensar! Tire já essa ideia maluca da cabeça.
- Só por um ano.
- Definitivamente, não.
- Beatris, são duas crianças...
- Que não nos pertencem. Que vão alterar completamente, para pior, a vida do nosso filho. Já basta a confusão que criamos para ele com a mistura de nossas famílias. Você sabe muito bem que não é normal, um adolescente com 13 anos urinar na cama e viver em três casas. Nós não damos a ele o acompanhamento de que precisa. Está certo. Temos que trabalhar para nosso sustento e realização pessoal, mas estamos falhando com ele. De alguma forma Berna e Lula tentam compensar nossa ausência com o exemplo familiar que ele precisa. Até chamaram ele para compadre, mas não basta. Os pais somos nós doutor, e nós falhamos feio.
- Mas outro dia ele conversou comigo...
- Não Olavo. Ele conversou com o psiquiatra, não foi com o pai. Você sabe disso. Não venha querer tapar sol com peneira.
- Beatris! Beatris pare de falar um pouco e ouça. Karol está namorando com Carolina, a menina do primeiro andar.
- E ela está sabendo disso?
- Sim. Acertaram-se hoje, lá na piscina. Lula levou-os para comemorar no cinema e depois foram para a pizzaria.
- E levaram Benjamim para pizzaria cheia de gente. Eita povo irresponsável...
- Não mulher! Laís ficou com ele.
- Meu bebê namorando...
- Eles estão apaixonados um pelo outro e você, acabe com esse negócio de chamar o rapaz de “meu bebê”.
- E dona Carolina sabe disso?
- Sabe e aceita. Com certa reserva, mas aceita. O pai é quem está muito satisfeito. Semana passada nos encontramos no voo de volta para casa e o Dr. Antônio até brincou de que vizinhos tenham que viajar para poder se encontrar. Eu falei a ele sobre a conversa que tive com Karol e ele disse que ouviu a filha, conversando com uma colega, dizer que estava “loucamente” apaixonada por nosso filho. E que ele ficou muito satisfeito por saber a origem do futuro genro.
- É. Vamos acompanhar isso de perto. Liberdade vigiada ainda é a melhor forma de educar.
(Continua em Meu Diário II)
Advertência: Propositalmente, fiz a mistura dos pronomes de 2ª e 3ª pessoas, assim como descumpri as regras gramaticais, a fim de dar maior realismo aos diálogos.