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COMPANHEIROS DE BATALHA

Certo dia, notei um homem que caminhava ante mim e este parecia cansado. Logo percebi que ele carregava em sua cacunda outro homem, tinha nas mãos uma sacola e deduzi portanto a razão do seu cansaço.
Aproximando-se de uma fonte o homem aportou, desceu o outro das suas costas e o assentou ali próximo, tirou da sacola um caneco, buscou um pouco de água e o deu de beber e quando este já estava satisfeito o homem que o trouxera carregado então bebeu também da água.
Curioso eu fui me aproximando e sem muito rodeio, comentei:
— Vi que trouxestes este homem carregado. É seu irmão?
E o homem muito educado, mas ainda de cabeça baixa por conta do cansaço, assim me respondeu:
— Todos somos irmãos, desta forma Deus nos fez!
Compreendi a sua resposta, mas não era aquela a minha indagação, então continuei:
— Tens com ele algum parentesco? De certo não trabalha para ele, pois ele não parece ter como te pagar.
Os olhos daquele homem brilharam naquele exato momento, percebi uma gota de lágrima em seus olhos, ele abaixou a cabeça, notei que fechou os olhos, respirou bem fundo e me respondeu novamente:
— Este homem que me viste trazendo no dorso nada me deve. Em verdade devo-lhe tanto e nunca terei como pagá-lo, ele nunca cobrou nada de mim, mas esta é a única forma que encontrei para tentar compensá-lo.
Indócil, não me contive e repliquei:
— Não entendo! Se este te emprestou algo, porque não lhe devolve com o mesmo valor? Tenho certeza que logo quitaria a dívida.
Ouvindo aquilo o homem olhou bem para o céu e passou a me dizer:
— Eu queria poder lhe pagar, mas nem com a minha própria vida eu conseguiria, nem pelo valor e nem pelas circunstancias atribuídas a tal dívida.
Então com os olhos cheios d’água o homem passou a me contar:
— Nós somos ex-combatentes. Eu era um soldado em missão num outro país e este a quem me viste trazendo era um sargento em minha companhia. Lutávamos contra o exército inimigo quando fui gravemente ferido. Eu já não conseguia mais andar e conseqüentemente seria abatido, já que estávamos na zona de combate. Todos os aliados se refugiaram para promover um contra-ataque, mas eu estava debilitado e não conseguia prosseguir e diante disto fui deixado para traz pelos companheiros, afinal eu poderia atrapalhar. Fui abandonado pelo grupo e quando estava quase desfalecendo, percebi que alguém me tomou nos braços, era este homem, o Sargento Ângelo, que num ato de bravura havia voltado para me resgatar. Ele colocou-me em seu ombro e segurando em uma das mãos o fuzil, conseguiu me retirar da linha de fogo. Lembro-me bem das suas palavras, quando me pediu que tivesse forças e disse que não me deixaria, mesmo que lhe custasse a vida.
Eu ouvia tudo aquilo atencioso e o coração chegou a dar um aperto quando engolia a saliva que escorria na garganta, e o rapaz continuou:
— Fui salvo por este bom homem e quando ele já me deixava em segurança, infelizmente ele foi gravemente ferido. Ao perceber uma granada prestes a detonar no perímetro ele abraçou-me e na explosão fomos arremessados para longe. Como um milagre, fomos salvos e o nosso grupamento venceu a guerra, mas ele foi violentamente atingido e encontrava-se desmaiado.
Eu lhe ouvia atentamente, enquanto ele prosseguia:
— Quando nós retornamos, eu já estava bem, fui condecorado e saudado como herói, bem como os membros da minha equipe, todavia ele, o herói que me salvara a vida, este nunca se recuperou e encontra-se nesse estado. Desde então a sua vida não mais foi a mesma, perdeu amigos, sua esposa e até mesmo os seus familiares o abandonaram. Eu não sabia o que fazer quanto a isso, entretanto ao me lembrar das suas palavras “Não vou te deixar garoto, mesmo que isso custe a minha vida”. Entendi que ele me dera mais do que eu poderia lhe pagar e por isso eu lhe tinha uma dívida de gratidão.
Eu até já sentia o meu peito dilacerado, quando num golpe de misericórdia aquele homem me falou:
— Hoje não tenho dúvidas, está aqui diante de nós um verdadeiro amigo e mais do que isso um grande herói, então toda vez que me sinto cansado, fecho os olhos buscando forças e lembro-me daquele momento, o qual minha vida esteve em suas mãos. Hoje tenho uma única certeza, não vou abandoná-lo, mesmo que isso custe a minha vida! Ele não me abandonaria.
Após ouvir o relato os meus olhos estavam marejados e as lágrimas sutilmente rolaram pela minha face. Estava perplexo e condoído, entretanto eu havia aprendido o sentido de duas importantes palavras, “lealdade e gratidão".

A Alma de um Poeta(Pinho Sannasc)
Enviado por A Alma de um Poeta(Pinho Sannasc) em 20/12/2010
Reeditado em 02/11/2012
Código do texto: T2682288
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre o autor
A Alma de um Poeta(Pinho Sannasc)
Salvador - Bahia - Brasil
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