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Clube De Mães

CLUBE DE MÃES

Sai de casa cedo. A filha de dezoito meses no colo com problemas de respiração. Dirige-se ao pronto socorro do hospital municipal da Vila Sésamo. As dezesseis horas ainda na fila para ser atendida. Almoça biscoitinhos, bebe refrigerante, enquanto a garotinha suga leite do seio destro.

Lembra da filha de quinze anos sozinha em casa. Teme que seja novamente espancada pelo marido viciado em “crack”. A garota de tanto apanhar na cabeça, meio lelé da cuca. Leninha atende pelo apelido Lelé. Fica a matutar na vida, olha outras mães na fila. Caras de quem enfrentam problemas para além das forças. Balzacas mal entradas nos trinta, com expressões desalentadas, dos que não têm mais direito à esperança: aparência ressecada, tufos de cãs pelos cabelos.

Uma delas, incansável, como se os braços fossem de mola, há horas embala a criança que não dá sinal de vida. A vida as jogara na condição de mães. Tinham de aprender a lidar com isso, na marra. Permanece matutando, como se descobrindo a pólvora: todas as demais mães se parecem, de algum modo, com ela. Acha banal e estranho. Ninguém as preparou para nada, foram lançadas no mundo, mal saídas da zorra total da praça da alegria, para se virarem de qualquer jeito.

A bolsa d’água de outra mulher da fila, rompe-se. Ela dá luz no chão, socorrida por outras da fila. A criança nasce morta. Cortam o cordão umbilical, limpam-na na pia do banheiro com papel higiênico da bolsa de uma delas. Felizmente das torneiras sai água. Não aparece uma enfermeira para ajudar. Talvez estivessem muito ocupadas reclamando dos salários, atendendo outras urgências nas condições precárias do hospital.

A mulher embala a criança, entrebraços, como se estivesse viva: soluça a emoção da perda. As outras comovem-se, apesar de acostumadas a situações semelhantes. Marina olha na mulher marcas de espancamento no rosto. Talvez tivesse levado chutes na barriga. O corredor do hospital, uma casa de horrores. E se a criança estivesse viva? Crescesse, ia se lembrar de que tinha sido espancada quando ainda nem sequer havia nascido? Melhor estar morta mesmo.

Há males que vêm pra bens. Busca, sempre que pode, ser otimista. Viu num programa de tv: para o pessimista meio copo d’água quer dizer meio copo vazio, para o otimista, ele está meio cheio. A mulher apresentava o programa risonhamente cacarejante, a conversar com uma ave postiça ao lado. Dizia que na vida se deve pensar sempre da melhor maneira, “pra cima”. Sorria outra vez, sempre cacarejando, desbregada, em conversas de comadres contando e ouvindo piadas do  papagaio verde-amarelo.

Não sabe como, mas busca vê em toda dificuldade, a providência atuando em favor das vítimas. Não fosse assim, como guentar tanta penúria? O marido anterior, trabalhador, carteira assinada, morto pelos traficantes: recusava-se a consumir drogas e a vendê-las. Esse outro, fraco, sobrevivente, que espanca a Lelé, consome. E vende.

Olha a filha no colo com olhos mareados. Pensa nas dificuldades que terá de enfrentar, nas noites e dias sem fim vivendo de expedientes. Olha com piedade a garotinha: o coração palpitando no descompasso. Não quer que ela cresça igual a Lelé, sujeita aos espancamentos, sem outro futuro que não o da adolescente excepcional, atoleimada. Lelé ao nascer tinha sido motivo para ela lutar pela vida, uma tábua de salvação a encorajá-la no mar de incertezas.

Vai usar também essa inocente criatura como muleta pra motivar a vida? Que direito tem de fazê-la penar sobrevivência adentro, afora? Ser mãe é isso que fez com a filha? Sem escola, teto de zinco, sem juízo, mal alimentada, existe pra fazer companhia a seus momentos sem fim de ermo cerco dos vizinhos. Sem ela sentir-se-ia mais sozinha, desamparada. Ser mãe talvez seja mais que parir filhotes no mundo, combustíveis do mercado. Subir escadas morro abaixo favela acima, sempre cercada da violenta compulsão do tráfico.

De memória lembra a fala da mulher do programa de tv dizendo: “Coisas positivas acontecem com gente positiva”. Dito isso, cacarejava outra vez, em direção à ave plastificada na contracena. Talvez não soubesse nada de gente como ela. Adianta ser positiva, se lhe negam condições mínimas necessárias para exercer cidadania? Sente-se, mais que nunca, indefesa, dependente, nas mãos dos outros. Sem condições de proteger a filha dos perigos do larbirinto doce larbirinto:

Das incertezas das ruas, balas perdidas, lesões. É justo criar essa menina para estar à mercê de tudo quanto é coisa ruim? Compreende, súbito, que botar filhos no mundo nessas condições, quer dizer abrir caminhos para faze-los sofrer, almas penadas no inferno da necessidade. Contempla a filha com grandes olhos compreensivos, piedosos. Os homens que desceram na lua diziam que a Terra é azul. Não é: a Terra é cinza. A terra dela.

A ternura da emoção verte-se em fluxo, as gotas pingam, inúteis, pelas faces. Aconchega o rosto à esquerda do peito, soluça várias vezes. Os dedos da mão direita pressionam a indefesa cabecinha para dentro dos panos. A criança quer reagir, respirar, busca virar o pescoço, o rostinho, para fora do sufoco. Até que não mais há sinal de vida. Um vazio do tamanho da alma do mundo abre-se nela. Os sofrimentos amadureceram a sensibilidade.

O silêncio transforma-se em oração: lágrimas alimentam o perdão. Um lamento animal liberta-se, de repente, do fundo do coração. Traduz toda a mágoa, lucidez e ternura: a criança livre dos malefícios do mundo. A enfermeira vem dizer que hoje ninguém mais vai ser atendido: “Voltem amanhã, cheguem mais cedo”. Que desprezo pelas pacientes. Quanta falta de respeito.

Sai do posto de atendimento médico. Na esquina as luzes de néon faíscam em clima de aventura no ar quente da noite. O maldito sapato apertado esfrega-se insistente no calo do calcanhar do pé direito. Ela nem sente mais dor. Os dedos comprimidos, ferem-se. Que é a dorzinha de um calo, de mil calos, comparada à intensidade dessa chama? Ele queima as entranhas: a cabeça, o estômago, as pernas, os braços. Nada é mais ela: o rosto, os olhos veem o mundo com outro sentimento do mundo. A condição de mãe, mulher que doa a vida, saqueada.

Os desejos, um pântano minimalista, sem acordes. Acredita-se parte mínima dessa Terceira Guerra Mundial: lenha miúda, combustível barato pra fazer arder a imensa fogueira dessa grande noite a consumir-se. Dessa grande noite, mais treva do que as trevas. Abafa os soluços, sim, sem arrependimentos. Acredita não ter direito de fazer crescer uma criança para fazer companhia ao hábito, pessoal e coletivo, de sofrer as aflições, o desdém, as incertezas. Humilhação é rotina.

Nada de fotografias, diz para uma vizinha que quer documentar o derradeiro sorrisinho, as azinhas do mais puro branco. A vida da criança não repetirá a dela. Secou o pranto antes mesmo que mareasse o lacrimejar. Pela última vez observa o rosto, enquanto deposita sobre o féretro um buquê. Repete de si para consigo, na intenção de orar por ela, tímido e último adeus: Essas flores, amarelas e medrosas, não farão parte da poeira dos retratos.
Decio Goodnews
Enviado por Decio Goodnews em 02/04/2010
Código do texto: T2172553
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Sobre o autor
Decio Goodnews
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