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De Olhos (Escancaradamente) Fechados

De Olhos (Escancaradamente) Fechados

Quando o horror é grande, quem o contempla de olhos abertos, os escancara, ficando, como se estivesse de olhos fechados, igualmente exposto a ele, sem defesa. A perplexidade impede uma reação. Como na história de quem se emociona, a ponto de chorar ao contemplar uma obra de arte: quem chora não pode ver com isenção, permite-se ganhar pela emoção, apenas. É o que acontece com o personagem central de Novela Onírica de Arthur Schnitzler.

Ao sair, apenas algumas horas da rotina do consultório, dos atendimentos médicos à domicílio, o jovem dr. William (Tom Cruise), mergulha num oceano de perversões, ameaças, perseguições, violência, espancamentos e assassinatos, e por muito pouco não transa, sem camisinha, com uma garota de programa HIV positivo. Stanley Kubrick insere o espectador nos perigos de viver, uma experiência que seja, fora dos padrões protegidos de um profissional liberal. Na época da globalização sistêmica da sociedade planetária.

O que move o mundo, e o mundo explorado da necessidade, é o desejo e suas distorções. Tio Freud, na época da publicação de “Traumnovelle”, em carta a Schnitzler, declara que nunca quis encontrar-se frente a frente com ele, por considerá-lo um “doppelgänger” (sósia, duplo). São do criador da psicanálise as frases: “Sempre acreditei encontrar em suas esplêndidas criações, as hipóteses, os interesses e os resultados que sabia serem meus. Sua sensibilidade às verdades do inconsciente, da natureza pulsional do homem, sobre a polaridade do amor e da morte, despertou-me um estranho sentimento de familiaridade...”

A identificação entre a obra do cientista e a do escritor é ululante: o diretor de 2001, Uma Odisséia No Espaço, mostra que as “elites” da socidade globalizadae permanece primata. Kubrick expõe a destrutividade incontrolada das pulsões freudianas camufladas de boas maneiras em rituais de perversão promovidos pela “aristocracia” de uma grande cidade européia.

A cultura e a civilização continuam sendo dirigidas, no limiar do século XXI, pela instintividade pré-histórica. A leitura intertextual se faz obrigatória: a novela, o filme, a realidade. As pessoas enquanto seres virtuais à mercê da gerência pulsional dos interesses de grupos econômicos e políticos. Eles gerem destrutivamente a sociedade sob o comando, comunicação e controle de suas perversões. O lucro privado identifica-se com o desejo de poder e de foder.

Esses desejos estão globalizados na mente de qualquer mané que vê a tv, os filmes, lê os quadrinhos, os romances de ação: o planeta está batendo todos os recordes olímpicos de violência generalizada. A ameaça presente em cada passo, em cada traço de suposta sedução nas faces das modelos lindas, oferecidas. Algumas delas nem tanto quanto anorexas.

O poder e o desejo subliminarmente fixados na avalanche de imagens neo-pós-modernas. Tio Freud cantou a bola dessa civilização dos que vivem vidas secas urbanas, das moças de programa que habitam quitinetes miseráveis, diariamente sujeitas às doenças viróticas fatais. Freqüentam as seitas fechadas que celebram a preponderância do mal, a submissão sexual pela necessidade. Todas essas realidades convenientemente socializadas pelo capitalismo canibal.

Dr. William penetra numa reunião sadomazô sem ser convidado. É constrangido a tirar a roupa, quem sabe o que aconteceria com ele depois de estar pelado em meio às dezenas de taras urbanas vestidas à “black-tie”. Que poderiam querer dele, nu com a mão no bolso, as pulsões de horror por sob as máscaras da covardia, da ameaça? Da punição.

Não é mera coincidência a simultaneidade dos acontecimentos ficcionais de “Traumnovelle” com cassações de mandatos, cpis, escândalos financeiros e políticos que explodem no mundo gerido pelas pulsões destrutivas da libido, nas instituições que representam o poder político e econômico financeiro:

As altas autoridades representativas dos três poderes encontram-se profundamente comprometidas com a, não apenas literária, realidade onírica da novela freudiana de Schnitzler. Na Câmara Baixa da metrópole São Paulo, um vereador escapa da cassação ao lembrar a trinta e cinco outros larápios de vereança, em discurso anterior à votação que cassaria seu mandato, que os tinha todos em mãos.
Ameaçou que, se fosse cassado, entregaria o rabo preso de todos à cassação coletiva.

Alegou haver votado contra a prorrogação da cpi na Câmara, para não vê-los envolvidos em processos de corrupção generalizada, da qual fazem parte ativa. Resultado: foi absolvido, apesar da avassaladora quantidade de provas documentais reunidas judicialmente contra ele, e de indiciado pela justiça por concussão, formação de quadrilha, prevaricação e peculato. Na Câmara, com meia  dúzia de exceções, se tanto, todos sentiram-se igualmente sujeitos à perda do mandato.

O medo deles de ser posteriormente acusados pelos mesmos crimes que estariam motivando a cassação do mandato de um de seus pares, falou mais alto. Os reflexos da corrupção se manifestam em todos os espelhos da metrópole fritzlangueana. Na esfera federal, juizes e ministros estão mergulhados num mangue que, só não compromete a continuidade e a vigência de seus mandatos, e de suas prelazias porque, moralmente, alguns de seus acusadores têm o rabo preso em pompas e circunstâncias da vida pública, que os nivelam aos acusados.

Um juiz é encontrado morto por ter denunciado desembargadores e outros juÍzes envolvidos com corrupção e tráfico em Mato Grosso. A Novela Onírica filmada por Kubrick é o romance da realidade das compulsões cromagnon. Alice, esposa do dr. William, sonha estar participando das perversões do baile de máscaras da "elite" New World Order, quando vários homens a possuem seguidamente.

Ela desconhece que o baile foi real e o marido havia dele participado. Ignorava, até então, que uma prostituta esteve exposta à essa mesma situação do sonho do qual acabava de despertar, para evitar a punição de Willliam, por este ter sido penetra no ritual privativo da legião das autoridades mascaradas.

A prostituta, no mundo real da novela, foi submersa em uma overdose de sexo e drogas, assassinada, punida, por ter intercedido em favor do doutor. Está cada dia mais perigoso agir motivado pela ética. Ainda que aparente, aleatória. Circunstancial.

Os sonhos da esposa, Alice, estavam sendo sonhados simultaneamente aos eventos da festa dos mascarados. O real, purgante onírico, sobrepõe-se aos sonhos: antecipando-os e sucedendo-os. Os horrores que alimentam a vida alimentam os sonhos. E os sonhos, uma vez que o sonhador é parte, direta ou indireta, desse poder coletivo que emana das pessoas e autoridades que promovem o baile de máscaras da realidade, só pode ser sonhado enquanto ameaça e pesadelo.

As pessoas têm consciência de que são parte dele, do horror conradiano (Joseph Conrad) generalizado, provocado a partir do púlpito dourado dos salários e mordomias institucionalizados pela metodologia informatizada de domínio institucional. Neste contexto de perversidade sadomazoquista, inexiste fronteira entre o real e as representações oníricas.

O sonho alimenta a existência e é por ela realimentado. Para isto acontecer num certo país sulamericano, 180 milhões de pessoas têm de sofrer as injúrias e a realidade dantesca do inferno, para que o ministro Malandro, sua turma, usufruam as mordomias do Planalto Central dos mascarados.

Esta, uma leitura óbvia da sádica insanidade dos que fazem o real e o pesadelo acontecerem num só pacotão político autoritário. A legião secreta que promove e prestigia o baile de máscaras é definida por Victor Ziegler, interpretado por Sydney Pollack, amigo do doutor William, como sendo composta de pessoas especiais, as mais importantes da sociedade.

Os eventos ocorrem próximos ao Natal, sugerindo que esta é uma festa para crianças. O mundo adulto está empenhado em tarefas muito distantes da harmonia e da solidariedade que supostamente deveriam caracterizar as comemorações natalinas.

Crianças no paraíso do consumo das lojas de departamentos, escolhendo presentes. A filha do casal Bill e Alice (Nicole Kidman), ganha a boneca símbolo da prostituta Barbie. Quem mais acreditaria no conto de fadas da Salvação pelo nascimento do Redentor, em fazendo parte de um contexto quotidiano tão escancaradamente satanizado?

As comemorações do Natal incluem apenas o pisca-pisca artificial das luzinhas bregas dos pinheiros iluminados. A parte artificial do marketing das comemorações. A comercialização de mercadorias permeia sobre tudo e todos, como um anjo invisível:

A realidade onírica, gerida pelos rituais sombrios de uma normalidade tenebrosa. Uma normalidade gerenciada por uma hierarquia de autoridades sem a “minima moralia”. Para que serve o Natal, se as razões e motivações natalinas existem apenas para aumentar as vendas de fim de ano fantasiadas de Papai Noel? Estas leituras simultâneas, do filme e da realidade, se unem como gêmeos univitelinos.

O universo referencial do filme é a elite anglo-saxã. Nesse universo circulam William/Alice. O casal sonho americano. O casal que deu certo. Mesmo para eles é perigoso circular em ambientes da elite anglo-saxã, exceto se forem devidamente convidados. Exceto se se mantiverem devidamente comportados.

O doutor William bancou o penetra no baile ritual de máscaras. Imediatamente começou a punição dele, e de pessoas a ele vinculadas, às quais causou supostamente a morte, o espancamento, o desaparecimento. A senha para a entrada no ritual secreto dos mascarados, “Fidelio”, é a mesma de Leonore na ópera beethoveana.

Para salvar seu casamento ela tem de fantasiar-se de Fidelio. Esse disfarce permitirá a Leonore penetrar nos subterrâneos do poder, com todos os riscos implícitos. A força da pulsão do desejo é mais forte do que todos os riscos e ameaças.

Dr. William precisa inserir-se incógnito no mundo fechado da elite anglo-saxã. É seu ato máximo de heroísmo. Precisa dele para afirmar-se enquanto indivíduo que dá conta do objeto de desejo: a jovem e bela esposa. Após a festa a qual são convidados, no foro íntimo da cama, Alice desdobra-se numa crise histérica de riso. Após fumarem um baseado, numa discussão confessional, ela ouve do marido o voto de confiança em sua fidelidade.

Ele, ingenuamente, está seguro que ela não o trairá, por ser sua esposa, mãe de sua filha, pelas amizades que os unem, pela segurança fornecida por posição social emergente dos que têm QI (quem indique). Ela replica a argumentação boba do marido: todas essas coisas não passam de bobagens.

O simples olhar de um oficial de marinha, bebum de bar, a fez tremer. A pulsão do desejo enquanto mola mestra do comportamento sexual instintivo, facilmente a faria ter seguido o marinheiro para onde quer que ele a resolvesse levar. A sugestão de que o instinto é mais forte que tudo o mais. E que os rituais de comportamento civilizado são apenas farsas a preservar e esconder a soberania total da instintividade.

Como na história do escorpião que vai de carona nas costas do sapo. No meio da travessia o artrópode destila veneno no sapo. Ambos vão morrer, o sapo quer saber: por quê? A resposta folclórica: ele simplesmente não pode evitar, é instintivo. A partir desta revelação, dr. William precisa de um ato de heroísmo para se afirmar enquanto macho. A pulsão do desejo, irracional, irresistível, pode ser escancaradamente destrutiva. Afinal, o desejo insere-se perigosamente a todo momento, desafia o médico a ir além dos limites.

Alice, a esposa, não tem meias palavras, ri sarcástica no rosto dele de suas certezas de posse, respeitabilidade e segurança. Escancarou na cara dura a fragilidade freudiana do sonho americano. Como aquela personagem feminina de Faulkner (Absalão, Absalão), Alice poderia fornecer um milhão de razões falsas, válidas para as mulheres, todas produzidas pela natural inconsistência feminina do desejo, da esperança de riqueza, de posicionamento social, pelo medo de morrer sem um homem. Todos esses sentimentos considerados muito naturais nas donzelas que clamam desesperadamente por prazer. Por serem possuídas por alguém que as supostamente as pudesse proteger.

Anterior a Faulkner, Brás Cubas, personagem de Machado de Assis, comenta sobre a amante Virgília, mulher do amigo Lobo Neves, que ela tem um amor cordial pela nobreza, um fraco por certo pilantra diplomata da delegação da Dalmácia, o conde B. V. Ele transtornou a cabeça dela enquanto a namorou por três meses.

Felizmente, segundo Brás Cubas, estourou uma revolução em seu país, e o conde foi chamado de volta pela embaixada. Não obstante os horrores da revolução, as cabeças cortadas, o sangue a banhar de vermelho os noticiários dos jornais, Brás Cubas abençoou a tragédia por levar o concorrente, conde da Dalmácia, pra muito longe do Rio de Janeiro, de sua amada, a volúvel Virgília.

Voltando à festa do amigo do dr. William, duas insinuantes modelos agarram o médico pelos braços, conduzem-no, dirigindo-se para algures. Ele pergunta: — Para onde estamos indo? — Para o fim do arco-íris. — O que tem no fim do arco-íris? — Temos de estar lá para saber. Posteriormente o personagem William dirige-se até uma loja de fantasias e máscaras, onde vai alugar os apetrechos para poder penetrar sorrateiramente no evento dionisíaco, ao qual não foi convidado.

O nome do brechó? Arco-Íris. Sugere que tudo que pode haver no fim do arco-íris são fantasias, máscaras e taras. A bela ninfeta filha do dono da loja (Leelee Sobieski), é por ele explorada sexualmente. As leituras da adaptação kubrickiana de “Traumnovelle” são muitas. Todas elas conduzem facilmente à tradução motivada pela empatia com os atos e fatos do mundo real.

No centro de tudo, localizando-se o espectador geopoliticamente no Planalto Central da Novela Onírica, ou Novela do Trauma (à vontade) está a realidade de uma criminalidade institucional que sempre abre as porteiras da Praça dos Três Poderes e da Esplanada dos Ministérios, para os “pobrezinhos” dos banqueiros. Os desejos deles são ordens de comando institucional (sistêmica): têm de se realizar.

Enquanto as necessidades do resto da sociedade, habitação (o pulgueiro onde moram as moças de programa), saúde (uma delas está com aids), segurança (uma garota é morta supostamente de overdose, o pianista espancado desaparece), desemprego: os artistas da noite, representados pelo pianista e pelas garotas de programa, fazem qualquer coisa para sobreviverem mal.

A elite política tropical quer-se tão sofisticada como a anglo-saxã. Defende, em primeiro lugar, os interesses do nicho social ao qual pertence. As autoridades que deveriam estar empenhadas no comando, comunicação e controle da criminalidade, investem nela sadicamente, com todos os requintes da perversidade institucional globalizada. 80% da população do país sob a gerência dessa gente “importante” e mascarada, permanece eternamente deitada no berço esplêndido, de olhos escancaradamente fechados. Veja-se o Estado sucateando fanaticamente a educação.

É o que sugere as belas cenas do filme. Valeu Kubrick, seu Réquiem equivale ao de Mozart, ao de Schnitzler, ao do tio Freud. “Requiem aeternam dona eis”: Dai-lhes o repouso eterno. Eles merecem. Os patriarcas da novela de Schnitzler, do filme de Kubrick, são metáforas dos patriarcas mascarados da ONU, que promovem, indiretamente, o atual genocídio em curso no Timor Leste. Os timorenses votaram pela independência, ganharam a eleição, em seguida foram entregues pela ONU à sanha sanguinária do exército indonésio.

Os eleitores embarcaram no Bateau Mouche da democracia promovida pela ONU. Depois das eleições foram abandonados pelos patriarcas do baile de máscaras da comunidade internacional. Agora, os eleitores estão sendo vítimas do autoritarismo homicida da ditadura: centenas de mortos, chacinas todos os dias, milhares de milhares de fugitivos do genocídio refugiando-se em outros países. Essa técnica de controle populacional não é nada civilizada. Muito tempo depois a Força de Paz, sob o comando da Austrália, vai desembarcar em Timor. A atual situação deste país faz justiça aos versos do poeta:

“Tino, Timor, Temor Leste
Dos ruminados por anacondas
Devorados por tubarões.”

Mais uma leitura da realidade a partir do filme de Kubrick: Dia Sete de Setembro o Empire States prestou uma homenagem à dependência do país Brasil ao FMI. A crise social brasileira entra num pique nunca dantes alcançado, enquanto o Planalto Central dos mascarados, com 65% de rejeição popular, foi homenageado com milhares de luzinhas verde-amarelinhas piscando, piscando, carnavalescas, bonitinhas, com aquele fundo musical tropical que homenageia os cinco séculos de dependência: “Brasil, você é lindo, 500 anos te destruindo”.

Quem mais poderia prestar homenagens ao Planalto na terra do tio Sam? A essa pátria amada, mãe gentil dos banqueiros, dos conchavos, das mutretas institucionais, e madrasta do resto da população? Quem mais, senão o pessoal do baile de máscaras, seus representantes em Brasília? A Casa Grande do Planalto Central exultou com a homenagem brega.
Decio Goodnews
Enviado por Decio Goodnews em 01/04/2010
Reeditado em 17/02/2017
Código do texto: T2172211
Classificação de conteúdo: seguro

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Decio Goodnews
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