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Invejoso Come Cru

O escritor amador faz hora numa Oficina de Contos, no Museu da Casa Mário de Andrade, bairro da Barra Funda, em São Paulo. Instado pelo orientador, leu seu trabalho para os demais participantes. Surpreso, ouve de uma adolescente a absurda avaliação: “Acho que você tem inveja de vagina”. A frase, provocação, sugere a carência de recursos de um inventário cultural de quem não sabe, ou tem, outra coisa menos boba para dizer.

O contista fica numa situação paradoxal: mencionar que tal interpretação é quase uma mostra de insanidade, grosseria. Afinal, vagina é coisa boa, talvez não haja nada melhor. Mas não é de meu conhecimento que alguma pessoa tenha acusado alguém de ter inveja da dita.

No Brasil, no princípio da década de sessenta, divulgou-se o livro de Simone de Beauvoir, O Segundo Sexo, dois volumes, sobre a sexualidade feminina. Nele, a escritora garante, do alto de sua notória experiência, que o inverso é verdadeiro: a mulher, ela faz questão de provar com uma argumentação fluida e inteligente, baba de inveja do e sobre o pênis. Os motivos são óbvios.

Vagina é incômodo danado. Para o homem é um apetrecho bom de ser usufruído, a sensação de que possui a mulher que a conduz. O vai-vém, o orgasmo: beleza, o fuque-fuque cativa. A mulher também deve ter uma sensação semelhante de posse e gozo, senão não gemeria, berraria de prazer, provocando, por vezes, verdadeiros escândalos. Um dos incômodos: o vinco vaginal sangra de quatro em quatro semanas, vigência do período menstrual.

Como se não bastassem alguns dias vertendo plasma entrepernas, noventa por cento de suas portadoras têm uma encucação danada: dores e cólicas crônicas que permanecem até a menopausa, quando completam, aproximadamente, meio século de libido, por vezes útil, cessam os períodos cíclicos sangüíneos. Até chegarem a essa idade, as mulheres, nesses dias, vivem encanadas.

Usar absorvente, não diminui em nada o valor combativo da dona desse carma. Como se não bastassem esses dias todo mês, de sangue de origem uterina, a vagina provoca o que se costuma chamar nos consultórios de ginecologia, e em telefonemas íntimos entre elas, de TPM. A TPM designa nada menos que a tensão pré-menstrual, por vezes, a tensão pós-menstrual. É dose dupla de mau humor. Causa não poucas vezes surtos psicóticos de verbalização. Delírios.

Como se não bastasse o fluxo pinga-pinga, há também o pinga-fogo emocional das duas tensões. Isso torna quem carrega esse “drive” da tecnologia fisiológica da mulher, um enorme inconveniente periférico, para qualquer cristão que esteja por perto a ouvir poucas e boas. Claro que a Talita estava “naqueles dias” quando fez a impensada observação.

Reza o folclore das comadres medievais, que a “caça às bruxas” da inquisição, começou com uma insuportável insurreição de áspero humor por parte das mulheres: dentro dos lares e nos locais de trabalho. É como se todas elas estivessem menstruando ao mesmo tempo. Os maridos, filhos, netos, os comerciantes, cardeais, padres, a nobreza, os militares e até o Papa, resolveram, por unanimidade, acabar com parte delas, do contrário acabariam todos no manicômio.

Qualquer trivialidade se transformava em motivações para elas deflagrarem todo espécie de conflitos: sentimentais, emocionais, domésticos, religiosos e institucionais dentro dos larbirintos. Era abrir a boca e o pau quebrar. Houve, entre os marmanjos, um surto geral de brochura. Na testa, não mais havia lugar para tantos cornos.

A intenção feminista de milhares delas, provocou a famigerada reação canônica da Igreja: o Tribunal Eclesiástico começou a promover a queima milhares de mulheres nas fogueiras do Santo Ofício. Em As Farpas, Ramalho Ortigão escreveu que Torquemada queimou, em dezoito anos, dez mil pessoas, ambos sexos, e promoveu crueldades homéricas e diversas, em cem mil outras. Os tribunais da inquisição precederam o nazismo também na incineração de livros.

Em Salamanca, Torquemada autorizou a combustão pública de seis mil exemplares da melhor produção literária oriental. O febril surto de TPM, na época concentrado na Europa, serviu de inspiração ao movimento feminista do século XX, nos anos setenta, centrado, a princípio, nos Estados Unidos da América. Desta vez as feministas mostraram que não tinham medo de inquisições modernas: seus neurônios estavam mais aquecidos que o mormaço do meio dia na Cidade Verde.

Em todo mundo ocidental, acusadas de bruxaria, naqueles dias sombrios do médio medievo, as mulheres ainda não contavam com as descobertas mais recentes da melhor ciência feminina: o fio dental e a mini-saia. Esta, invenção da inglesa Mary Quant, na interminável década de sessenta.

Estudos de ONGs machistas, provaram, recentemente, que recomeçaram a arder, nas fogueiras da tensão pré-mestrual coletiva da neomodernidade, quando os períodos voltaram a coincidir em massa, o “marketing” da insurreição feminista. Desta vez, milhares de supostos machos, foram suplantados pela concorrência feminina, na corrida do hipódromo empresarial pelas vagas abertas nos classificados dos jornais, nas ofertas públicas e privada de empregos.

A final do programa “No Limite”, da Globo, só deu mulher. Ainda hoje os historiadores não sabem explicar bem o porquê de tanta bílis segregada pelas mulheres naqueles dias negros da “caça às bruxas”.

Ainda nos dias de agora, quando uma mulher sente-se atraída, e seduz um marmanjo em direção à cama, quem paga é a perereca. É aí então que ela vira uma espécie de pilão: freqüentemente marretada pelo pênis porrete. Ainda há a quantidade razoável de doenças venéras da neo-modernidade, que podem assolar uma xereca, sem que a dona dela fique sabendo da infecção, exceto muito tempo depois, quando corre o risco de tornar-se crônica. Pergunto: Que marmanjo poderia “ter inveja de vagina?”

Excetuando a procriação e o prazer, para que mais serve ela, se nem pode mijar pra cima, a desafiar a lei da gravidade? Tem sempre de estar de vinco voltado pro chão toda a vida. E os incômodos do aborto e da gravidez? Esses, são por demais tantos...por consideração às suas crias, abstenho-me de comentá-los.

Talita, querida, não digo que vagina seja defeito de fabricação, mas pelo amor do Criador, seria a última coisa na vida de que um homem teria inveja. Ao falar tal tolice, sei que você estava em plena vigência do período cíclico de perda de sangue de origem uterina. Como invejar essa condição? Se  não estavas “naqueles dias” poderias estar em plena vigência da Tensão Pós Menstrual.

Até os insetos sabem: existem outras formas, menos incivilizadas, de chamar a atenção dos feromônios do macho, que não a sagregação de substâncias químicas, por vezes verbais, provenientes da privação de informações culturais motivadas pelo baixo nível educacional das escolas: as públicas, as privadas.

Talvez uma Oficina Literária não seja o lugar mais adequado para esse nível de provocação. Tio Freud 100 vezes explicou essa atitude. Dê uma lida nas linhas da Interpretação dos Sonhos. Quem sabe você se veja lá. Sou mais você, quando superar esse estágio primitivo de provocação libidinal na linha do histerismo.
De qualquer forma, garota, se continuas carente, lembre: Estou disponível pra lhe prestar outro favorzinho nesse sentido. Com afeto incansável, e aquele inestimável carinho. Que tudo pode ser seu céu. Que tudo pode ser seu. Que tudo pode ser querer. Que tudo pode ser. Que tudo pode. Que tudo. Que tu. Que. Qu. Q. QI? Nem pensar.
Decio Goodnews
Enviado por Decio Goodnews em 01/04/2010
Código do texto: T2170710
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Sobre o autor
Decio Goodnews
São Paulo - São Paulo - Brasil
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