O APRENDIZ DE DANÇA DE SALÃO
Os longos anos no seminário impediram que Zé Wilson desfrutasse de certas diversões que a vida oferece aos homens durante a juventude. Uma delas foi a dança. Entretanto, agora, depois de abandonar definitivamente a carreira eclesiástica, tinha como objetivo experimentar alguns desses prazeres. .
Não tardou a conseguir um emprego, graças à sua capacidade: foi o primeiro entre 42 concorrentes a uma vaga de auxiliar de escritório numa emissora de televisão. Era uma nova vida e teria que transpor vários obstáculos. Pensava consigo mesmo: “tenho que recuperar o tempo perdido, quero ser igual aos outros rapazes”. Traçou alguns planos: deveria participar de algumas farras, não que tencionasse ser um alcoólatra, mas porque sentia a necessidade de não ser diferente dos outros; teria que vencer a timidez, essa inseparável companheira que o traía com freqüência, impedindo-o de realizar o seu grande sonho que era conquistar uma garota e aprender a dançar.
Sua forma cordial e simples de tratar a todos lhe trouxe rapidamente boas amizades. Nos finais de expediente, passou a participar da inevitável “cervejinha” no bar próximo à empresa. De forma polida conseguia disfarçar que era principiante. Não foi difícil, pois jamais alguém iria imaginar que aos 27 anos um homem iniciaria nos tortuosos mistérios do reino alcoólico. Tentou inutilmente, em algumas oportunidades, fazer uso de outras bebidas, entretanto, encontrou grandes dificuldades para disfarçar as caretas.
No pensionato onde morava, todos os estudantes o tinham como consultor, principalmente quando se tratava da língua portuguesa ou da língua francesa (do qual era profundo conhecedor). A Zé Wilson não faltavam convites para festas. Às vezes ele comparecia; outras vezes recusava, alegando que teria que trabalhar no dia seguinte.
Chegara o mês de outubro. Encontrava-se numa festa no Clube Internacional do Recife, com Gregório, um companheiro do pensionato, quando chegou Edivaldo, o amigo com quem compartilhava o beliche, acompanhado de Telma, a namorada, e de outra moça, cuja casa era vizinha à dela. Feitas as apresentações de praxe, todos se sentaram. Zé Wilson sentiu-se atraído por aquela jovem. O nome dela era Antonieta. Seus longos cabelos negros encobriam parcialmente um belo rosto em perfeita harmonia com um corpo exuberante. Tinha 20 anos, mas aparentava ter bem menos. Gregório ausentou-se por alguns instantes enquanto Edivaldo dirigiu-se ao salão com Telma, para dançar. A sós com Antonieta, Zé Wilson sentiu uma estranha sensação apoderando-se do seu corpo. Sentara-se em frente a ela, cara a cara. Percebera que ela o olhava com atenção. Faltava-lhe a coragem para abordá-la; não era habituado àquela situação. No entanto, ela, decidida a quebrar o silêncio, perguntou:
- Você não gosta de dançar?
- Gosto...É que estou com o pé machucado – respondeu com certa dificuldade.
Para ele foi um momento de extrema aflição, porque inventara uma desculpa para esconder uma realidade que o atormentava, transformando-lhe num minúsculo ser diferente dos outros que sabiam dançar. Já estava cansado de chegar às festas e permanecer quase todo o tempo sentado, olhando os casais dançarem. Não queria deixar transparecer a verdade. Mas Antonieta, além da beleza tinha a compreensão como atributo e, percebendo a timidez estampada no rosto de Zé Wilson, decidiu tomar a iniciativa, procurando conversar com ele. Recusou diversos convites para dançar, inclusive de Gregório. Ao final da festa solicitou o número do telefone do local de trabalho de Zé Wilson.
Cinco dias depois, numa tarde, Zé Wilson foi chamado para atender o telefone. Era Antonieta. Conversaram alguns minutos e combinaram um encontro. Ele estava radiante de alegria. Como sairia com ela para uma festa? Não poderia ficar mentindo a vida toda e tinha que aprender urgentemente a dançar. O acanhamento não o deixava procurar uma escola de dança. Foi então que lhe surgiu uma idéia: comprar um livro que ensinasse a dançar. Sim, por que não? Ele era autodidata, aprendia tudo com facilidade. Já enfrentara obstáculos muito mais difíceis do que aquele e, com certeza, conseguiria sair triunfante. No mesmo dia comprou o livro “Aprenda a dançar sem mestre”.
À noite, esperava que todos dormissem para treinar na sala, sozinho. Segurava o livro com uma mão e com a outra simulava segurar a mão da dama. Dava dois passos para lá, dois para cá. Uma rodada aqui, um breque ali. E tudo isso sem música. Sim, não dispunha de aparelho de som e o jeito era exercitar assim mesmo. A música, para ele, passou a ser um pequeno detalhe, talvez até sem muita importância. Foram dois meses de treino intensivo, mesmo depois de ter sido descoberto pelos amigos e ser motivo de risos incontroláveis por parte de alguns. Não desistiu, tinha um objetivo e era perseverante. Além disso, gostava mais e mais de Antonieta. Não podia decepcioná-la.
O mês de dezembro chega repleto de festividades. Edivaldo convida-o para um baile de formatura. Com certeza Antonieta iria estar lá e dessa vez ele é que a convidaria para dançar. Zé Wilson não pensou duas vezes e confirmou a sua presença.
Habituado a ser pontual, chegara cedo ao clube. Vestido elegantemente com um paletó que arranjara emprestado, estava ali, naquela noite, disposto a “debutar” nos salões do Clube Português, junto a alta sociedade pernambucana. Achava-se preparado, já havia lido todo o livro, sabia de cor todas as particularidades. Quando Antonieta chegou já estava na terceira cerveja. Ela ficou surpresa com o aspecto de felicidade que ele deixava transparecer. Mais surpresa ainda ficou quando ele a convidou para dançar. Educadamente dirigiu-se ao salão, onde, seguindo todas as regras do livro, posicionou-se para iniciar a dança. Começou tropeçando um pouco, equilibrou-se, voltou a errar os passos e parou, coincidindo com o final de uma música. A orquestra começou a tocar um samba e ele recomeçou a dançar, deu dois passos certos e pensou: “agora eu não tenho como errar”. A alegria durou pouco, tropeçou nos pés de Antonieta, ela tentou segurá-lo, porém ele caiu sobre uma mesa, sofrendo forte pancada na cabeça. Ao levantar-se, com a ajuda de Antonieta, olhou em torno e viu diversas pessoas que lançavam os seus olhares de deboche, que mais pareciam punhais penetrando dolorosamente no seu peito. Cadeiras e garrafas quebradas encontravam-se espalhadas pelo chão.
Sentado à sua mesa, cabisbaixo, tendo Antonieta ao seu lado, Zé Wilson permanecia em silêncio. Um guardanapo, enrolando algumas pedras de gelo, parecia uma touca que segurava sobre a cabeça. Levantou o rosto, encheu o copo de cerveja e, depois de um bom gole, desabafou:
- Se não existisse música, eu garanto que não havia errado. Se pelo menos parassem de tocar...
Os longos anos no seminário impediram que Zé Wilson desfrutasse de certas diversões que a vida oferece aos homens durante a juventude. Uma delas foi a dança. Entretanto, agora, depois de abandonar definitivamente a carreira eclesiástica, tinha como objetivo experimentar alguns desses prazeres. .
Não tardou a conseguir um emprego, graças à sua capacidade: foi o primeiro entre 42 concorrentes a uma vaga de auxiliar de escritório numa emissora de televisão. Era uma nova vida e teria que transpor vários obstáculos. Pensava consigo mesmo: “tenho que recuperar o tempo perdido, quero ser igual aos outros rapazes”. Traçou alguns planos: deveria participar de algumas farras, não que tencionasse ser um alcoólatra, mas porque sentia a necessidade de não ser diferente dos outros; teria que vencer a timidez, essa inseparável companheira que o traía com freqüência, impedindo-o de realizar o seu grande sonho que era conquistar uma garota e aprender a dançar.
Sua forma cordial e simples de tratar a todos lhe trouxe rapidamente boas amizades. Nos finais de expediente, passou a participar da inevitável “cervejinha” no bar próximo à empresa. De forma polida conseguia disfarçar que era principiante. Não foi difícil, pois jamais alguém iria imaginar que aos 27 anos um homem iniciaria nos tortuosos mistérios do reino alcoólico. Tentou inutilmente, em algumas oportunidades, fazer uso de outras bebidas, entretanto, encontrou grandes dificuldades para disfarçar as caretas.
No pensionato onde morava, todos os estudantes o tinham como consultor, principalmente quando se tratava da língua portuguesa ou da língua francesa (do qual era profundo conhecedor). A Zé Wilson não faltavam convites para festas. Às vezes ele comparecia; outras vezes recusava, alegando que teria que trabalhar no dia seguinte.
Chegara o mês de outubro. Encontrava-se numa festa no Clube Internacional do Recife, com Gregório, um companheiro do pensionato, quando chegou Edivaldo, o amigo com quem compartilhava o beliche, acompanhado de Telma, a namorada, e de outra moça, cuja casa era vizinha à dela. Feitas as apresentações de praxe, todos se sentaram. Zé Wilson sentiu-se atraído por aquela jovem. O nome dela era Antonieta. Seus longos cabelos negros encobriam parcialmente um belo rosto em perfeita harmonia com um corpo exuberante. Tinha 20 anos, mas aparentava ter bem menos. Gregório ausentou-se por alguns instantes enquanto Edivaldo dirigiu-se ao salão com Telma, para dançar. A sós com Antonieta, Zé Wilson sentiu uma estranha sensação apoderando-se do seu corpo. Sentara-se em frente a ela, cara a cara. Percebera que ela o olhava com atenção. Faltava-lhe a coragem para abordá-la; não era habituado àquela situação. No entanto, ela, decidida a quebrar o silêncio, perguntou:
- Você não gosta de dançar?
- Gosto...É que estou com o pé machucado – respondeu com certa dificuldade.
Para ele foi um momento de extrema aflição, porque inventara uma desculpa para esconder uma realidade que o atormentava, transformando-lhe num minúsculo ser diferente dos outros que sabiam dançar. Já estava cansado de chegar às festas e permanecer quase todo o tempo sentado, olhando os casais dançarem. Não queria deixar transparecer a verdade. Mas Antonieta, além da beleza tinha a compreensão como atributo e, percebendo a timidez estampada no rosto de Zé Wilson, decidiu tomar a iniciativa, procurando conversar com ele. Recusou diversos convites para dançar, inclusive de Gregório. Ao final da festa solicitou o número do telefone do local de trabalho de Zé Wilson.
Cinco dias depois, numa tarde, Zé Wilson foi chamado para atender o telefone. Era Antonieta. Conversaram alguns minutos e combinaram um encontro. Ele estava radiante de alegria. Como sairia com ela para uma festa? Não poderia ficar mentindo a vida toda e tinha que aprender urgentemente a dançar. O acanhamento não o deixava procurar uma escola de dança. Foi então que lhe surgiu uma idéia: comprar um livro que ensinasse a dançar. Sim, por que não? Ele era autodidata, aprendia tudo com facilidade. Já enfrentara obstáculos muito mais difíceis do que aquele e, com certeza, conseguiria sair triunfante. No mesmo dia comprou o livro “Aprenda a dançar sem mestre”.
À noite, esperava que todos dormissem para treinar na sala, sozinho. Segurava o livro com uma mão e com a outra simulava segurar a mão da dama. Dava dois passos para lá, dois para cá. Uma rodada aqui, um breque ali. E tudo isso sem música. Sim, não dispunha de aparelho de som e o jeito era exercitar assim mesmo. A música, para ele, passou a ser um pequeno detalhe, talvez até sem muita importância. Foram dois meses de treino intensivo, mesmo depois de ter sido descoberto pelos amigos e ser motivo de risos incontroláveis por parte de alguns. Não desistiu, tinha um objetivo e era perseverante. Além disso, gostava mais e mais de Antonieta. Não podia decepcioná-la.
O mês de dezembro chega repleto de festividades. Edivaldo convida-o para um baile de formatura. Com certeza Antonieta iria estar lá e dessa vez ele é que a convidaria para dançar. Zé Wilson não pensou duas vezes e confirmou a sua presença.
Habituado a ser pontual, chegara cedo ao clube. Vestido elegantemente com um paletó que arranjara emprestado, estava ali, naquela noite, disposto a “debutar” nos salões do Clube Português, junto a alta sociedade pernambucana. Achava-se preparado, já havia lido todo o livro, sabia de cor todas as particularidades. Quando Antonieta chegou já estava na terceira cerveja. Ela ficou surpresa com o aspecto de felicidade que ele deixava transparecer. Mais surpresa ainda ficou quando ele a convidou para dançar. Educadamente dirigiu-se ao salão, onde, seguindo todas as regras do livro, posicionou-se para iniciar a dança. Começou tropeçando um pouco, equilibrou-se, voltou a errar os passos e parou, coincidindo com o final de uma música. A orquestra começou a tocar um samba e ele recomeçou a dançar, deu dois passos certos e pensou: “agora eu não tenho como errar”. A alegria durou pouco, tropeçou nos pés de Antonieta, ela tentou segurá-lo, porém ele caiu sobre uma mesa, sofrendo forte pancada na cabeça. Ao levantar-se, com a ajuda de Antonieta, olhou em torno e viu diversas pessoas que lançavam os seus olhares de deboche, que mais pareciam punhais penetrando dolorosamente no seu peito. Cadeiras e garrafas quebradas encontravam-se espalhadas pelo chão.
Sentado à sua mesa, cabisbaixo, tendo Antonieta ao seu lado, Zé Wilson permanecia em silêncio. Um guardanapo, enrolando algumas pedras de gelo, parecia uma touca que segurava sobre a cabeça. Levantou o rosto, encheu o copo de cerveja e, depois de um bom gole, desabafou:
- Se não existisse música, eu garanto que não havia errado. Se pelo menos parassem de tocar...