POR ONDE ANDAS, GUARDA LUIZINHO?

Deixar, como numa valsa, aonde os parceiros se conduzem sem pensar nos outros e, paradoxalmente, se exibirem para a platéia, assim deve ser o ato da escrita. Não dar extrema importância às palavras; deixá-las fluir qual numa valsa em que percorrer o salão da memória dará vivacidade ao momento sublime. Assim deve ser quando se pretende narrar uma história, por mais simples que seja, deverá quem a compartilha ter em mente que se dirige a outrem e a ele será dado direito ao veredicto final. Não se aborrecer com suas observações, pois, como nos ensina Bakhtin, ao tornar a obra pública essa não pertence mais ao autor, será de tantos quantos com ela terem contato. Noutras palavras, se antes a primazia da interpretação da obra era direito exclusivo do autor, ou seja, o autor era mais importante que a própria obra e o observador ou leitor, com Bakhtin, o destinatário da obra é quem detém o poder da interpretação. O mesmo se dará quando se divide uma lembrança. Não esperar concordância, condescendência ou tornar o destinatário refém das nossas expectativas, apenas agradecê-lo pelo tempo dispensado.

Assim, imbuído dessa certeza e já em dívida com àqueles que a lerão, humildemente me dirijo a vós, caros leitores, e, no atrevimento que me imponho em narrar fato corriqueiro outrora vivido, não mais estenderei a introdução e, com vossas permissões, convido-os a bailar no salão da memória. Então que comece o baile e queiram os bons fluídos saídos da flauta de Hermes, que seja uma noite salutar aonde as ninfas de tempos idos nos conduzem para o que está por vir. Permitam-me esta valsa, senhoras e senhores leitores?

São Paulo, cidade memorável e relembrada por tantos feitos e grandiosa por sua gente, sua arquitetura amalgamada entre carros e gente vinda das mais diversas partes e portos, nos brinda com cenas congeladas na lembrança. E, como numa gestação, pulsa para sair e se misturar. Então, o que se vai à frente não foi uma cena novelesca, não exigiu ensaio de teatro ou equilíbrio de malabarista, apenas e somente aconteceu num dia de sol e correrio de office boy.

Foi lá nos tempos do ano de 1980, eu trabalhava nessa profissão que me ensinou a observar muito da nossa cidade, que conheci o guarda Luizinho.

Luizinho era um guarda diferente: em vez da sisudez característica desse profissional da segurança pública, Luizinho era uma figura amável, simpática e educada. Seu posto de trabalho era no semáforo da Rua Xavier de Toledo, mais precisamente aquele em frente ao antigo Mappin e a antiga Eletropaulo.

Não incomum alguns transeuntes, dentre eles a maioria eram os boys, atravessarem o farol liberado para os carros colocando suas vidas em risco. Guarda Luizinho, como era carinhosamente chamado, não tinha dúvida: ia até o incauto distraído, pegava-o pelas mãos e atravessavam de mãos dadas (era um espetáculo ser pego pelo Luizinho) numa conversa que imagino focada no cuidado que se deve ter ao atravessar uma rua. Feita a travessia, o premiado recebia um bilhetinho reforçando a necessidade do cuidado nas ruas.

Quando acontecia de algum carro parar por sobre a faixa de pedestre, guarda Luizinho se dirigia ao "distraído" condutor e, ao invés de lhe multar, abria as portas do seu carro e mandava os pedestres passarem por dentro do carro, sim, porque se ele estava sobre a faixa impedindo que se atravessasse, e não se podia passar por sobre o carro, era natural atravessar por dentro. Feito a travessia, o condutor, como o pedestre incauto, recebia um bilhetinho reforçando da necessidade de se cumprir as leis evitando aborrecimento e gastos com multas, além do risco de se atropelar alguém.

Esses momentos eram, como disse, um espetáculo. Havia pessoas que "pisavam" na bola só para serem pegos pelo Luizinho. Havia àqueles que praguejavam que jamais seriam pegos pelo Luizinho. Havia entre os boys uma espécie de aposta para quem não seria pego pelo guarda, e quando era fisgado, o sujeito sabedor da derrota não tinha outra alternativa: levantava as mãos à cabeça num gesto de "Meu Deus!, me pegou”. A sarração era geral.

Não pensem que os "mais certinhos" não tinham sua hora. Para esses eram reservados alguns sustos: Guarda Luizinho costumava, com esses, puxar um papo sem compromisso e, quando esses menos esperavam, "Vlau!", e a gargalhada se fazia presente.

Assim era o saudoso Guarda Luizinho. Um guarda diferente e amigo. Tenho saudades dele. Recentemente alguém me disse que tem um bar na Avenida Jabaquara. Não sei.

É, Guarda Luizinho, essa certamente não é a mais cerimoniosa homenagem, sei que recebeu tantas, mas posso afirmar que é sincera como devem ser as lembranças.

Então, caro leitor, ao fim dessa valsa da lembrança, meio trôpega, desajeitada e fora de ritmo, me despeço e dispenso os aplausos se digno sou, pois nada mais fiz que tomar seu tempo na tentativa de rememorar cenas de uma época que teima em ficar e, como numa gestação, há momentos que mexe, mexe e eu saudosamente deixo, tendo, caríssimo leitor, a gratidão como paga pelo tempo dessa leitura.

E se num desses dias virem o Guarda Luizinho, deem-lhe um bilhetinho escrito assim: "Ao Luizinho, com carinho, de um ex-office-boy".

É isso.

Categoria: Personagens

Autor(a): Silvio Lima | história publicada em 3/3/2009, no saopaulominhacidade.com.br