A mala sem sonhos

Derin era um daqueles meninos do interior, tão igual a todos os outros: jogava bola na rua, lia gibi, ia ao único cinema de sua pequena cidade e estudava na pequena escola, que para ele e todos os outros, era uma grande escola. A maior de todas com uma única sala de aula, a sala da diretora, o banheiro e todo o resto era o quintal, onde eles brincavam nos intervalos da aula. Única aula, onde eles estudavam todas as sabedorias: a escrita, as contas de somar, dividir, diminuir, multiplicar e as coisas do mundo: as chuvas, as pedras, os bichos...

O cabelo era um ninho de guaxo, quase não via um pente, e crescia ao leo, como mato na beira da estrada, que só acabava quando algum matuto passava por ali fumando e jogava o toco de cigarro na bei-rada e queimava tudo. Para Derin, o toco de cigarro se chamava: João, seu pai. De quando em vez pegava a molecada e iam todos cortar cabelo em Jerômo Gomo, o capador de porco da cidade, que quando não estava praticando o seu ofício de querença, era o barbeiro por alguns trocados. Tinha gosto neste ofício também e se colocava a cortar aqueles cabelos castigados pela falta de trato. Derin adorava aquelas investidas do capador de porco como barbeiro, pois era ali que o tal soltava a língua a contar casos. Nunca repetia um, era sempre um caso novo, recheado de detalhes. Jerômo Gomo não se esquecia da cor da calça do protagonista, no nome de seu cavalo, da cor da janela de sua casa, do tipo de mato que crescia na beirada da estrada onde o tal sujeito passava... e o mundo era muito, muito grande para aquele rapazola da cidade pequena, que pensava enquanto voltava para casa, já com um aspecto lavado de quem corta os cabelo: - que mundão este que o Jerômo anda, será muito longe daqui? E lá se ia matutando até que via seus colegas correndo atrás da bola e aí o mundo já era outro. Para Derin o futebol era uma magia, uma sedução: ninguém, nem nada conseguiam tirá-lo de uma pelada, era uma atração mútua, a bola não ficava sem ele, ele não ficava sem a bola. Muito tempo depois, já adulto e com filhos ele ainda não conseguia se livrar daquela magia.

Mas Derin crescia e sua cidade já se tornara pequena para ele e seu João decidiu levá-lo para estudar na cidade grande. O menino esperou durante um mês, com a ansiedade dos jovens e com os sonhos acu-mulados na bagagem, através de Jerômo Gomo, dos gibis e do cinema. Enfim chegou o dia. Levantou-se muito cedo e foi com seu pai para a rodoviária. O mundo abria ali a suas portas para as aventuras e fan-tasias, era só entrar. A viagem até a capital durou cinco horas. Seu pai ia calado ao seu lado, matutando. Derin, com a mala a seus pés, ia nas nuvens. Ao chegarem à rodoviária, tomaram uma condução até a pensão onde Derin ficaria junto com outros jovens de sua cidade que já estudavam na cidade grande. Chegaram na porta da pensão. Casa grande, avarandada, pintada de branco com as janelas azuis. O menino ficou com a boca aberta diante de tanta beleza. Seu pai o tirou da fantasia com uma grande interjeição: - Derin cadê a mala? O menino olhou perdido para trás, para frente, para o lado. Onde estaria sua mala? O pai perdeu a paciência e começou a esbravejar: - seu miolo mole, aluado. E agora? Ali estava tudo o de melhor que Derin possuía, inclusive os cadernos e lápis novos, comprados na venda de Sr. Custódio, para começar as aulas. Passados os primeiros segundos de aflição de ambas as partes, Sr João adentrou a pensão antes que acontecesse nova aflição. Ia à frente, passos firmes e longos, ao encontro de Dona Maria, a senhoria. Atrás, quase invisível ia Derin, com um sorriso maroto nos lábios e pensava: ainda bem que coloquei meus sonhos aqui dentro do bolso, ao invés de colocar na mala. Meus sonhos se salvaram.

Nafelu
Enviado por Nafelu em 25/10/2009
Reeditado em 25/10/2009
Código do texto: T1886194
Copyright © 2009. Todos os direitos reservados.
Você não pode copiar, exibir, distribuir, executar, criar obras derivadas nem fazer uso comercial desta obra sem a devida permissão do autor.