Ser ou não ser

Sim, sou um leão ou se preferir, uma leoa. Leoa que luta e quer tudo e não quer nada. Confusa seria talvez uma melhor definição mas sabe aqueles dias que nem a gente consegue se definir? Pois é. Esse é um daqueles. Então, enquanto me preparo pra dormir, olho no espelho a imagem de uma mulher cansada querendo colo , querendo a sua presença, seus beijos e abraços.

O telefone toca. Será você? Não, é a amiga de sempre querendo sair mas hoje, não estou com vontade. Quero olhar as estrelas no céu, o brilho da Lua e até ser capaz de ver São Jorge. Acho que quero mais é um encontro comigo mesma dentro da solidão do momento. O cachorro late e peço que ele se aquiete. O que o síndico dirá? A hora já vai adiantada e o prédio dorme, aqui não se admite nenhum barulho após às 22horas. No apartamento ao lado ouço risadas e sei exatamente onde elas irão levar.

Pego um antigo livro pra ler “Hamlet” de Willian Shakespeare e me deixo envolver na história conhecida em que o fantasma do pai o assombra e a angústia de saber a verdade o faz ser visto como louco. “Ser ou não ser”. Quantas vezes me pergunto a mesma coisa. O apartamento vizinho silenciou.

O vento insiste em invadir meu espaço. Já fechei todas as janelas, portas...

Creio que o melhor é me enfiar debaixo das cobertas e continuar minha leitura, caminhando a passos lentos pelo castelo sinistro de Hamlet onde os amigos vivenciam seu drama e sua solidão.

O cachorro rosna distraindo-me. Silencio apenas acompanha a melodia do vento que regido pelo grande maestro das estações sem fim faz com que eu retorne ao castelo onde sei que nenhum príncipe me resgatará...

O elevador parou. Posso ouvir a porta abrir e passos pelo corredor. O cachorro rosna novamente. A chave na porta...

Não acredito! Você? Lindo ramalhete de rosas vermelhas sangue, lindo sorriso e com roupa impecavelmente elegante. Ah! O cheiro do perfume inebriante penetra minhas narinas. Atônita permaneço imóvel. Sinto o arfar de sua respiração, próxima ao meu ouvido. Lambida no rosto? Abro os olhos e deixo o livro cair de minhas mãos. O cachorro abana o rabo dizendo em sua linguagem canina que não estou só. Levanto vagarosamente, ainda sonolenta, verifico as travas das portas e vou dormir.

Denize Nelli
Enviado por Denize Nelli em 14/07/2009
Reeditado em 01/09/2009
Código do texto: T1699739