O VOO SOLITÁRIO
O portãozinho de ripa escangalhada foi fechado enquanto o vira-lata – quase um dálmata misturado com um quase pincher, passa por debaixo e acompanha seu dono até ponto do ônibus. Era sábado, seis horas da manhã e, como todo sábado, seu Jeremias saia de seu barraco no bairro do Jardim Ângela para passar o dia no Aeroporto de Congonhas, ritual que cumpria há quase vinte anos, tendo falhado em raras ocasiões.
O ônibus da linha 466 – Praça de Bandeira – chegou quinze minutos atrasado. Seu Jeremias entra, acena com a cabeça para o motorista e logo mais para o cobrador, depois de passar através do corredor já lotado. Com seus 66 anos de idade, encosta-se próximo ao banco reservado aos idosos e espera o rapaz que finge estar dormindo se tocar de sua presença. Uma moça que percebe a manobra do marmanjo, faz um gesto brusco e bate com o cabo do guarda-chuva propositalmente na cabeça do rapaz que desperta assustado e, meio contrariado, cede seu lugar a quem de direito.
São uma hora e vinte e cinco minutos de percurso até a chegada ao Aeroporto. Seu Jeremias desce e ajeita seu surrado terno de gabardine na cor marrom escuro, quer dizer, que um dia fora marrom escuro, provavelmente na década em que o então Presidente da República Figueiredo soltara a célebre frase “ Prefiro a companhia dos cavalos à dos homens”. Passa os braços nas alças da mochila e atravessa o pontilhão em direção á entrada principal do aeroporto.
Antes portava uma maletinha tipo 007 que achava chique, mas agora que todo executivo exibe uma mochila nas costas, porque não seu Jeremias? Fica até mais fácil para carregar a marmita, os saquinhos de amendoim e as bananas que consumirá ao longo do dia, além da escova de cabelos para ajeitar a vasta cabeleira grisalha que lhe escorre sobre os ombros. Vai ao banheiro cinco a seis vezes por sábado, duas delas para ajustar o rabo-de-cavalo e alisar o bigode que lhe cai sobre os lábios tornando-o parecido a um cantor de mariachis mexicano.
Não se sabe ao certo quando começou esta paixão de seu Jeremias pelo aeroporto. Uns dizem que foi nos anos 70 quando ele namorou por anos uma garçonete da lanchonete principal. Outros afirmam que ele teve um filho que era ordenador de bagagens e morreu em um acidente na pista no dia em que houve uma greve geral no país, enquanto todos marchavam pelas Diretas Já, em meados dos anos 80. Ninguém sabe, só conjecturas dos funcionários que até apostas já fizeram para descobrir quem é este velhinho que todo sábado perambula pelas dependências do terminal. O curioso é que ele nem gosta de assistir aos pousos e decolagens., como a legião de pessoas que se postam em locais de boa visibilidade, tirando fotos e vibrando a cada aeronave que pousa ou decola. Alguns ainda se viram para o lado da Av. Washington Luiz e fazem o sinal da cruz em homenagem aos mortos do pior acidente aéreo que já houve por ali. Seu Jeremias não, ele não está nem aí para as peripécias aéreas. O assunto dele no aeroporto é ver gente e ser visto por elas.
Ao adentrar no saguão principal, seu Jeremias já é outro. Enche o peito e sai fazendo a perambulação de reconhecimento costumeira. Primeiro vai até a área de desembarque e se enfia entre aqueles que estão ao redor cordão, como se esperasse por alguém que desembarcaria. Aprecia cada rosto sorridente, cada semblante de cansaço, cada gesto de alegria. Chega mesmo a sorver mentalmente as lágrimas de felicidade de alguns passageiros ao reencontrarem seus parentes. Houve uma época em que até plaquinha com nome ele levantava como se estivesse ali para receber alguém. Hoje já não faz mais isto, somente curte aproveitar os eflúvios das emoções dos que circulam naquele local. Ainda voltaria naquela área mais quatro a cinco vezes neste sábado. Vez por outra alguém tenta puxar conversa com ele que apenas sorri e acena levemente com a cabeça.
Saindo da área de desembarque, segue para o saguão do andar térreo onde perambula pela livraria La Selva, como se buscasse um livro que contivesse as respostas para todas as suas angústias. Depois de trinta minutos folheando revistas e livros, compra um chiclete Trident e sai.
Entra na galeria das lojas e ao passar em um quiosque de perfumes, vez por outra, uma mocinha lhe oferece a prova de uma fragrância que ele prontamente concorda em receber estendendo os pulsos e exibindo as bordas puídas dos punhos da camisa. Camisa esta que ainda guarda um branco inacreditável.
Entra na loja de artigos musicais e gasta ali mais vinte minutos. Olha um álbum, sorri, derruba alguns CDs e sai meio que se desculpando. O vendedor o aniquila com o olhar.
Na loja de roupas, as vendedoras fazem cara feia quando seu Jeremias entra. Aquele senhor, baixinho, que alguns até confundiam com o radialista Pedro de Lara – hoje falecido - não era bem vindo naquele momento, pois havia dois clientes, um turista alemão e uma distinta senhora paulistana que estavam fazendo compras. Seu Jeremias entende o recado e sai de fininho.
Ás dez horas da manhã acontece seu primeiro grande momento em cena - la premier bonheur du jour. Seu Jeremias vai até a lanchonete e pede um cafezinho puro. “Bem forte”- diz ele com uma voz troante de Zé do Caixão. Pega a xícara e o pires e se ajeita em uma mesinha escolhida á dedo. Tem que ser em frente ás escadas rolantes. Abre a mochila e pega um pedaço generoso de bolo de fubá, envolto em um guardanapo vermelho e vai sorvendo o café lentamente enquanto mordisca pedaços pequenos do quitute, observando o vai-e-vem de passageiros subindo para a ala de embarque doméstico. Faz cara de artista e sorri para todos os que o veem, mesmo aos que lançam-lhe olhares de escárnio. Depois, sacode o guardanapo na lixeira e, triunfalmente sobe a escada-rolante , não sem antes fazer pose de galã da Globo, com a mochila na parte da frente do corpo, virando a cabeça lentamente. Tudo meticulosamente estudado, ensaiado anos á fio.
A cada dois meses, seu Jeremias se dá ao luxo de aparar as pontas de seu cabelo na barbearia que fica na parte superior, na mencionada área de embarque doméstico. São trinta e oito paus que ele paga sem regatear. Senta-se na cadeira e faz cara de nobre. Os barbeiros já o conhecem e, por um misterioso acordo tácito, efetuam o corte com toda a pompa possível.
Recém tosquiado, encharca-se com água de colônia barata – faz questão de entornar o vidro no corpo todo. E lá se vai seu Jeremias aboletar-se em uma cadeira sem braços, bem próximo á porta de vidro do embarque.
Em um gesto rápido, saca seu aparelho iPod da mochila – aparelhinho mágico que encontrou abandonado em um banco do setor de Check-In há meses atrás - enfia os fones nos ouvidos e põem-se a balançar a cabeça ao som de Simply Red. É, seu Jeremias não é bobo, não. Ás vezes solta um grunhido no meio da música, enquanto bate os pés compassadamente. Naquela manhã, para acompanhar o som da banda inglesa, abre um pacotinho de amendoim japonês e fica desfrutando a visão do entra-e-sai de gente no saguão superior. As pessoas se abraçam, dão beijos apaixonados, choram nas despedidas, propiciam desfiles de moda, jogam charme e até tem ataques de faniquito. Muitas vezes estas pessoas apressadas esquecem objetos nas cadeiras. Até maço de notas de dólar seu Jeremias já encontrou. É uma maravilha saguão de embarque e seu Jeremias entendia disto como um doutor em psico-sociologia. Ali gastava um quarto do tempo total do dia.
Ao meio dia, seu Jeremias parte triunfante para o almoço. Vai até a capela ecumênica que fica na galeria das lojas, instala-se bem diante do altar, abre sua marmita e disfarçadamente devora o rango todo, em companhia de uma garrafinha térmica de suco de goiaba, colhida em seu quintal.
Durante estes anos, ele já fizera refeições em quase todos os locais do aeroporto e sempre um vigia o surpreendia e o mandava sair; mas na capela, não, ninguém liga. Por isso agora só faz as refeições na capelinha. Após o almoço ele faz uma prece em silêncio e sai para enfrentar prazeirosamente a tarde.
Volta ao pavimento superior onde certa vez encontrou um cartão de embarque junto com um documento de identidade e, na maior cara de pau, entrou na área de embarque pela primeira vez em quase vinte anos de perambulação aeroportuária. Foi a glória aquele dia. Naquela ocasião ficou toda a tarde zanzando pelas salas de embarque. Não teve coragem para embarcar no vôo de seu cartão, temendo ser descoberto e arrastado para a delegacia que fica em um canto do térreo, atrás da cafeteria lateral. Já presenciara muita gente que se achava esperta levando porrada dos policiais militares ao serem encaminhados para a tal salinha. Não, já bastava estar ali, perscrutando cada cantinho, cada ambiente daquela área mágica.
Depois, desceu e saiu pela ala de desembarque, onde se sentiu como um jogador de futebol famoso ao caminhar através da longa fila, examinando rosto por rosto, avistando as plaquinhas erguidas, ufa! – foi um dia magnífico aquele!
Por volta das quatro da tarde, o suburbano senhor finalmente sai do aeroporto e caminha ao longo da calçada externa onde os taxis ficam estacionados. Vez por outra, um taxista novato lhe oferece seus serviços, mas seu Jeremias apenas balança a cabeça e segue caminhando como um imperador.
Ainda encostado na parede lateral, abre a mochila e puxa uma banana bem madura que prosaicamente descasca e devora, sem nenhum constrangimento, com o olhar ao longe, observando a guerra dos carregadores de bagagem em meio aos veículos que despejam dezenas de passageiros ao mesmo tempo.
Por último, novamente no banheiro, troca a presilha do rabo-de-cavalo, ajeita as madeixas, urina, fechando os olhos e erguendo a cabeça e por fim, penteia os bigodes livrando-os das migalhas de pão e filetes de banana. “Mais um sábado que se foi” - pensa.
Agora do outro lado da avenida, nosso personagem aguarda no ponto de ônibus o retorno do 466 que o levaria para casa. Começa uma chuva fina e seu Jeremias abre a mochila para pescar o guarda-chuva. Neste instante, um trombadinha vê o iPod no interior da bolsa e parte para o ataque empurrando seu Jeremias e puxando o cobiçado aparelho da mochila. Como um corisco, o garoto some ladeira abaixo. Seu Jeremias se levanta e corre atrás do pivete por uns duzentos metros, mas pára ofegante. Um forte suor banha seu rosto, da mochila aberta salta a marmita já sem tampa que fica rodopiando sobre o asfalto, esparramando migalhas de arroz. As pessoas vão olhando seu Jeremias cair de joelhos, a chuva aumentando, o coração batendo descompassadamente e a dor no peito ficando insuportável. Os cabelos desgrenhados escondem o rosto agoniado. Seu Jeremias, estirado na calçada, ainda vê um Boeing 737 iniciando um pouso. Uma pomba em busca de alimento faz uma acrobacia em sua frente e então seu Jeremias fecha os olhos e se despede da vida. Ele embarca em um voo sem volta. Um voo muito solitário.
Roberto Lopes Jesus
São Paulo - SP