O Homem de Areia

O Homem de Areia

Cardoso I

Takashi despertou sentindo algo estranho. O quarto ainda estava mergulhado na penumbra, e a claridade tímida da manhã filtrava-se pelas cortinas. Passou as mãos pelo rosto, sentindo a aspereza na pele. Esfregou os dedos e franziu o cenho ao ver os grãos dourados deslizando para o lençol.

Levantou-se, caminhou até o espelho e prendeu a respiração. Sua pele estava seca, repleta de fissuras. Quando tocou a face, sentiu a ponta do nariz se desmanchar em pequenos grãos que caíram suavemente, acumulando-se como pó esquecido sobre a pia.

O coração acelerou.

— Isso não é real... — murmurou, a voz embargada.

Tentou lavar o rosto, mas a água apenas acelerou o processo. Pequenos sulcos surgiam em sua pele, transformando-o, pouco a pouco, em algo que não era mais humano.

Então, a lembrança veio.

Aquela viagem à praia, há tanto tempo. O avô lhe contara histórias sobre os espíritos do vento, antigos seres que vigiavam as areias. Dissera que algumas almas estavam condenadas a se tornar parte do solo, prisioneiras de suas próprias promessas quebradas.

Takashi riu na época. Chamou aquilo de superstição.

Mas ele não deveria ter feito o que fez.

Lembrava-se agora: à beira do mar, numa tarde dourada, fizera uma promessa. Enterrou os pés na areia e disse ao vento que nunca trairia sua palavra, que nunca voltaria atrás em seus juramentos. Mas a vida seguiu seu curso, e ele se esqueceu. Rompeu promessas. Abandonou pessoas. Deixou palavras no vazio.

E o vento não esquece.

Um arrepio percorreu sua espinha ao compreender. Sua pele não estava apenas secando – estava sendo reivindicada. O tempo cobrava sua dívida.

Seus dedos se desmanchavam, como se nunca tivessem existido. O chão ao seu redor estava coberto de areia dourada. Tentou gritar, mas a voz se dissipou como poeira no vento.

O espírito da areia o levava.

A última coisa que viu foi a janela se abrir, enquanto uma brisa se vento o espalhava pela cidade, grao por grão. Finalmente devolvido de volta para a natureza.

Ivonoel cardoso
Enviado por Ivonoel cardoso em 29/03/2025
Código do texto: T8296739
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