Ela entrou no restaurante e se sentou ao meu lado.

 

– Você é a única pessoa com tamanha cara de idiota que acho que eu vou me sentar e ir embora sem receber uma cantada.

 

Eu estava distraído lendo um livro do meu mestre Jorge, chamado “Fundamentos do Kaos” e ela se sentou com um vestido florido. Sua voz mesmo sendo feminina era mais grave que a minha. Cheirava a flores, mas também a tabaco e uísque.

 

Porque não podia ser ela… FALANDO PORTUGUÊS?! Era uma alucinação… das boas. Ou talvez um espírito. Talvez Lana tivesse falecido e eu ninguém tivesse me contado. Quem me contaria sobre a morte de Lana…? Aqui…?!

– Rum, ok…

– Você não vai nem me olhar?

– Seria legal, já que você é a Lana Del Rey… que me pagasse alguma comida, porque eu mesmo só ia tomar um café e sair.

 

“'Cause you're just a man

It's just what you do-ooo…

Your head in your hands

as you color me blu-u-u-uuuueee…"

 

Esse canto fez meu coração disparar. Por mais que ela, pra mim, não fosse real. A VOZ estava presente com aquela visagem. Fechei os olhos por uns instantes. Tentei me concentrar… meditar um pouco. Abri os olhos e ela continuava lá. Mascava um bubbaloo e fazia sons irritantes com ele. Brincava com o chiclete tirando-o da boca.

 

“Você chega em seu carro veloz

assobiando meu nome

abre uma cerveja

e você diz: Venha até aqui e jogue um videogame

estou usando o seu vestido de verão favorito”

– Ué? Voltou pro português? Cê tava quase me convencendo...! Amiga assombração você errou em QUASE TUDO; eu não bebo cerveja, eu não sei dirigir nem mobilete, eu não tenho televisão então não tenho videogame ninhum... e NUNCA APRENDI A ASSOBIAR DIREITO… Só pra dentro. Um horror… riam de mim na escola. Ok? A única coisa que eu sei, porque sou fã da "TRUE LANA" é que esse vestido é sim, o que você mais gosta.

 

– OK. Só tem um jeito de prova pra você.

 

Ela segurou minhas duas mãos e me encarou. “alucinação sensorial”, respondi.

 

– Acho que era menos chato que dessem em cima de mim.

– Uai… muda de mesa.

– Já sei, GARÇOOOM!!!

 

O garçom se aproximou, eu arregalei os olhos. Mas ele podia ser parte da alucinação. “estou esquizofrênico… tá, tá… era questão de tempo… vou ter que ligar pra minha mãe e meu pai… avisar que tô esquizofrênico.”.

 

– O silêncio ficou constrangedor. Mas não havia motivo pra ficar constrangido ora… Eu estava sozinho na mesa.

 

De repente o garçom chegou e pôs alguns acompanhamentos. Arroz, purê de batata, legumes. Tudo cheirava magnificamente bem e as cores eram fortes. Alguns minutos depois um filé a parmegiana invadiu a mesa como um navio transatlântico. Tomou conta de toda a mesa… Eu tive que encolher meu livro e meus braços. Levantei o rosto e olhei para Lana. Ela dava um largo sorriso de “tá vendo aí?!”

 

– Vamos comer?

– Er… só um minutinho, vou no toalete, coisa rápida… Agora acredito em você.

– NOSSA… FINALMENTE…

 

Me levantei parecendo calmo e fazendo movimentos lentos. Ela me olhou e sorriu mais uma vez. Seu cheiro era incrivelmente intoxicante. Piscou pra mim. Sem que ela visse, peguei uma faca de serra e fui ao banheiro. Chegando no banheiro, meu coração disparou… de repente comecei a me mover como se estivesse na velocidade da luz. “meu Deus, meu Deus...Meu Deuuuus!!! ÉÉ ELA!!!”

Sentei por alguns poucos segundos na privada tentando pensar nos meus próximos passos. “Ai… ai, ai, ai… É a Lana Del Rey!!!”. Abri as notícias sobre ela no celular e quase desmaio de pânico: “A CANTORA AMERICANA LANA DEL REY ESTÁ PASSANDO FÉRIAS NA CHAPADA DIAMANTINA!”

 

– Filha da puta… socorroooo…

 

Peguei a faca e fui até um pequeno vasculhante. Uma janelinha que tinha no banheiro. Com a faca fui desparafusando todos os pregos. Não eram muitos… eram um seis. A janela saiu e arranquei-a com cuidado e pus em cima do lavabo junto com os pregos para que encontrassem depois. Depois disso… tomei um fôlego, puxei uma cestinha de lixo pra me ajudar a subir e passei pela janela, caindo num gramado do lado de fora do restaurante.

 

Não podia sair correndo. Tinha que sair apressadamente mas não podia correr. Quando estava já do lado de fora passando pela porta da frente do restaurante Lana Del Rey me esperava. Ela parecia possessa de raiva.

 

– Mas você é um covarde mesmo…

 

Lana desferiu um tapão em minha cara. Me fazendo rodopiar umas duas vezes e caiu sentado no chão. Um monte de gente olhou, inclusive fotógrafos e fãs. “Meu Deus do céu é ELA MESMO!”.

 

– Er… é que eu achei que você fosse um espíri…

– CALA A BOCA.

– A gente ainda pode comer então…

– Eu vou comer SOZINHA! Babaca.

 

Virou de costas e saiu andando, enquanto eu a observava do meio-fio.

 

Se chorei? Provavelmente…

 

 

Henrique Britto
Enviado por Henrique Britto em 27/03/2025
Reeditado em 29/03/2025
Código do texto: T8295869
Classificação de conteúdo: seguro
Copyright © 2025. Todos os direitos reservados.
Você não pode copiar, exibir, distribuir, executar, criar obras derivadas nem fazer uso comercial desta obra sem a devida permissão do autor.