O peso de uma mão

Juan bebeu um pouco de água antes de entrar no quarto. Sua garganta estava seca e as mãos tremiam. Ja tinha visto Silvana antes dela ser encontrada mas agora ela estava consciente.

O quarto do hospital cheirava a antisséptico e solidão. Silvana jazia na cama, os olhos fixos no teto, como se ali estivesse escrito um segredo que só ela conseguia decifrar. Seus dedos tremiam levemente sobre o lençol, tentando esquecer. Tentando não sentir. O corpo dela era agora um mapa de hematomas e cortes, mas as marcas mais profundas estavam sob a pele, invisíveis e pulsantes.

Juan entrou sem fazer barulho, carregando um copo de água e um sorriso tímido. Ele parou a meio passo, observando-a. Há três dias, ela não falava. Não chorava. Apenas respirava, como se até isso fosse um esforço. Ele se aproximou, colocou o copo na mesa de cabeceira e esticou a mão para acariciar seu ombro.

— Silvana... — sussurrou, tocando-a.

Ela encolheu-se como uma folha ao vento, um gemido abafado escapando de seus lábios rachados. Juan retirou a mão de imedianto, como se tivesse queimado. O ar entre eles ficou denso, carregado de culpa e medo.

— Desculpa — ele disse, a voz quebrada. — Eu só... queria te lembrar que estou aqui.

Silvana virou a cabeça para o lado, evitando seu olhar. No espelho embaçado da janela, Juan viu o reflexo dela: frágil, quebradiça, um vaso de porcelana após a queda. Ele se perguntou quantos cacos ainda restavam.

Naquela noite, enquanto a enfermeira trocava o curativo do pulso de Silvana, Juan notou como ela estremecia a cada toque profissional, mesmo que rápido e impessoal. As mãos da enfermeira eram luvas de látex, frias e funcionais. As dele, ele percebeu, eram quentes demais. Cheias de histórias que Silvana não queria reviver.

Mais três dias se passaram , ele tentou de novo. Não com as mãos, mas com palavras.

— Lembra da nossa primeira viagem? — perguntou, sentando-se no chão, a uma distância segura. — Você disse que odiava praia, que a areia grudava na pele. Mas no final do dia, estava construindo castelos como uma criança.

Silvana não reagiu, mas ele viu seus dedos se contraindo levemente no lençol.

— Eu trouxe sua blusa de lã, aquela vermelha que você ama. Está aqui, se quiser. — Ele a colocou sobre a cadeira, como uma oferenda.

Foi na madrugada do quinto dia que ela falou. A voz dela era um fio, quase imperceptível.

— Ele... usou luvas.

Juan congelou. O suor escorreu por suas costas enquanto ele lutava para não se mover, não assustá-la.

— Luvas de couro — ela continuou, os olhos úmidos fixos nas próprias mãos. — E eu pensei... pensei que se alguém me tocasse de novo, eu desabaria.

Ele engoliu seco.

— Não preciso te tocar — disse, as palavras saindo em um sopro. — Posso ficar aqui. Só aqui.

Silvana olhou para ele então, realmente olhou, pela primeira vez desde o assalto. Viu as olheiras dele, as unhas roídas, a blusa que ele usava há dois dias. Viu o homem que prometeu protegê-la, paralisado por sua própria impotência.

— Juan... — ela chamou, e era um pedido, uma admissão, um fio de esperança.

Ele se aproximou, mas não esticou as mãos. Sentou na beirada da cama e inclinou a cabeça, oferecendo apenas sua presença. Silvana observou-o por um minuto, uma hora, um século. Então, lentamente, como quem se aventura em um lago gelado, ela deslizou a ponta dos dedos sobre o dorso de sua mão.

Juan não moveu um músculo. Não respirava. Aquele toque mínimo — um fio de conexão — pesava mais que qualquer abraço.

— Assim está bom — ela sussurrou.

E pela primeira vez desde que a encontrara sangrando no beco, Juan entendeu: algumas feridas só cicatrizam quando o toque não é exigência, mas escolha.

Ana Pujol
Enviado por Ana Pujol em 27/03/2025
Reeditado em 27/03/2025
Código do texto: T8295228
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