Tormento
Gotas do chuveiro caem no chão. O reflexo da água incide na retina. Os raios de luz fornecem visibilidade ao palácio da memória. Amarrado a correntes, é levado a um quarto sombrio aos fundos. A porta abre-se , imediatamente, os livros nem pedem licença e já abrem na páginas mais escabrosas. Tenta tirar o olho, revira o rosto, bate a mão na cabeça, mas não consegue deixar de ler. Pega o sabão, esfrega os olhos, ouvidos. Talvez isso tenha sido uma má ideia, agora os olhos ardem e só se escuta ecos. As ondas longitudinais que ecoam na mente ficam cada vez mais intensas (''o som tá muito alto'' diriam os populares). Não adianta ignorar, tentar apagar. Tudo está escrito à caneta. O relógio no quarto o olha com desprezo devido ao tempo desperdiçado. O xampu cai, um estrondo que permite uma súbita saída do palácio, mas as correntes não se dissolvem. Tenta gritar, mas não tem como, mamãe não pode saber o que se passa, é melhor ficar em silêncio. Pergunta aos livros o porquê de estarem mostrando isso tudo. Já não era passado? Que tormento é esse? O martelo da consciência chega e prega o selo do eterno arrependimento no peito. Calado, enxagua os olhos vermelhos, as correntes se soltam. Seca-se . O espelho embaçado não permite que se veja.