Ansiedade

Normalmente, a Viajante escrevia durante a noite. Eram quando as ideias vinham lhe visitar. Quando os sonhos faziam da sua mente morada e a criatividade aflorava como flores na primavera.

Havia um diferencial no pôr do sol. A despedida do dia e o anúncio da misticidade da noite era algo tão belo e admirável para ela.

Mas, diferente do habitual, a Viajante resolveu escrever durante uma manhã. O nascer do sol trazia um sentimento diferente, nasciam juntas as possibilidades. Tudo o que pode acontecer no decorrer das horas que se seguem estavam ali, prontas para serem descobertas.

Cheia de expectativas e emoções, a Viajante colocou sua caneta em um papel. Respirou fundo, a delicada brisa da manhã encostando em sua pele.

E, foi nesse instante, que sentiu aquela velha sensação lhe encher o peito.

Era como se uma mão tocasse seu ombro. Uma mão magra e pálida mas, ao mesmo tempo, pesada. Era uma sombra sem forma, uma silhueta escura, que tomava cada vez mais espaço.

A Viajante se desesperou. Sentiu que essa figura iria roubar todo o seu ar. Toda sua criatividade. Toda sua lucidez. Tentou lutar contra, mas quanto mais se forçava, mais fraca se sentia.

Não conseguia escrever. A caneta já não estava mais em sua mão. O papel já estava amassado, molhado com lágrimas de alguém. Ela só não sabia se tais lágrimas eram dela ou da silhueta que lhe assombrava.

Havia um tempo em que não se sentia assim. Mas aquela sombra lhe lembrou que sempre estava por perto e iria aparecer de repente, quando menos se esperasse. Bastava um clique, um pequeno gatilho, para tudo desmoronar.

E tudo desmoronou.

Naquela manhã, naquele belo nascer do sol, a Viajante teve que recolher seus próprios cacos mais uma vez. Ela respirou fundo e assim o fez.

Não era a primeira vez e, talvez, não fosse a última. Mas aquela mão pesada e aquela silhueta plúmbea que insistiam em lhe perseguir, nunca conseguiriam lhe derrubar completamente.

A Viajante ainda teria o resto do dia para viver e escrever seus pensamentos. O amanhã também lhe reservava mais um nascer do sol e, com ele, novas oportunidades. No fundo, a Viajante sabia disso e, por essa razão, ela não iria desistir.

Viajante atemporal
Enviado por Viajante atemporal em 23/03/2025
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