Antigamente
Entrei naquele lugar recém-inaugurado sentindo um cheiro gostoso de bebida recém-passada.
Surpresa descobri ali , sem querer, uma mistura de peças antigas, livros, comidinhas boas, embalagens lindas de marcas com torras especiais, surpresa vi em um canto uma caixa com discos de vinil, relíquias que eu não via há tempos, música boa tocando na caixa de som, pequenos mimos espalhados que mereciam registros caprichados e virtuais que agora sei, servirão para recordações não apenas minhas mas daqueles colegas queridos que adoram arte, os conheci enquanto comia um pedaço de bolo tomando minha bebida quente favorita da vida.
O tempo passa e como é bom rever fotos. Como será gostoso visitar os registros de cada cantinho, desse lugar perfumado por aromas diferentes e que vai deixar de existir. Fechar as portas é uma alegoria para encerrar um ciclo,
Devemos fotografar mais! Essa frase escrita recentemente por um sensível e talentoso cantor/produtor porto-riquenho mexeu diretamente com aquela criança que ainda habita minha essência e continua apaixonada por máquinas fotográficas (daquelas manuais com filme que precisava ser revelado!) e que usa o celular para fazer centenas de cliques.
Os artistas são aqueles que captam o que muita gente está sentindo e filtram de modo poético nossos desejos para depois apresenta los ao mundo. Um poeta escreveu no século passado essa antiga teoria que segue sendo a base para reflexão para tantos de nós.
Compartilhar as imagens com colegas que lembrar do aroma de caramelo do café (que tantas vezes bebi) , dos itens como relógios de parede, o caixa, daqueles de botões e manivela, barulhento, o gramofone, a geladeira com formato arredondado fabricada na década de 1950, ou antes, que cuidadosamente que carregam consigo marcas daqueles que viveram antes de nós.
Olhando pela última vez para a cristaleira, logo na entrada, me lembro das tantas vezes que ouvindo música da vitrola, escrevi no bloco de notas as tramas que inventei e que desejo que futuramente sejam lidas, conversei sobre a semana enquanto tomava um drink preparado com suco de laranja, café e gelo, conheci novos rostos, escutei conversas do grupo da mesa ao lado (não resisto, sou curiosa) ou sentei acomodada numa das cadeiras de madeira por preciosas horas vagas e simplesmente permaneci ali. Que delícia é ter tempo para fazer nada. Isso não deveria ser um privilégio.
As transformações da vida encerram portas de aço, abrem novas lojas, alteram a paisagem do bairro, amassam sonhos de uns enquanto propiciam novos projetos, novos comerciantes alugam salas, trazem gente nova para circular pelas ruas, afastam colegas que se mudam de endereço, deixam marcas afetivas e em nossas memórias.