CLEIDE E A CHUVA

A chuva cai impiedosamente numa noite de um frio intenso, rajadas de vento balançam as árvores e arrastam folhas pelas ruas enlameadas e escuras. Na sacada de um casarão um vulto de mulher observa atentamente o efeito devastador do temporal sem se preocupar com a água que molha seu corpo. Imóvel, ela permanece indiferente ao tempo e com olhar fixo para o nada. Seu nome é Cleide e aparenta sinais de uma profunda depressão, nada a deixa feliz.

Cessa um pouco a chuva, o vento ameniza sua força e a lua aproveita uma pequena brecha entre as nuvens para clarear o rosto de Cleide, ainda de pé e tremendo de frio. Várias noites ela tem ficado naquela sacada como a observar os mistérios da noite em momentos de chuva. É como se fosse um martírio para si expondo-se ao frio e às rajadas de vento deixando-se molhar propositadamente. Cleide assim parece se sentir bem sem esboçar qualquer reação. É capaz de permanecer horas nessa situação, retornando ao seu quarto onde se envolve em grosso lençol e se deita, adormecendo em seguida. Joana, sua governanta, já conhece seus hábitos e não interfere, apenas lhe administra os medicamentos necessários, os quais algumas vezes ela não toma.

Todas as manhãs de Cleide são iguais, chova ou faça sol, acordando sempre por volta das nove horas. O café matinal é reforçado, come frutas, se alimenta bem na realidade. As horas passam sem que ela tenha noção do tempo e quando a noite chega se põe a admirá-la da sacada do antigo casarão, herança dos seus pais já falecidos. Sua única companhia a trata com o maior carinho e nada lhe falta. Se não tem chuva ela pouco se demora ali, mas se as noites são chuvosas, o que é constante, ali permanece e não se incomoda em ter um resfriado ou coisa pior, o que dificilmente ocorre, já que seu organismo parece ser imune aos efeitos do tempo.

Moacir Rodrigues
Enviado por Moacir Rodrigues em 23/03/2025
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