O remédio que não deixava chorar
Aquilo era bem estranho. Só depois de muitos anos, Laura parou para pensar no quê teria sido aquilo. Há mais de uma década, ela passou por uma fase emocional difícil. Um esgotamento, talvez. Até hoje não sabe ao certo, mas o fato é que foi diagnosticada com Depressão. Sim, apenas mais um caso entre tantos.
Não queria ser medicada, mas cansada de se sentir cansada, se convenceu de que seria o melhor. O psiquiatra lhe receitou um tal de Citalopram. Pra não se aloprar ainda mais, aceitou. Cerca de quinze dias depois do início do tratamento, o remédio começou a fazer efeito. Sentia uma empolgação, uma vontade inexplicável de sair, de fazer tudo o que não vinha fazendo nos últimos tempos...passaram o desânimo, a fadiga e os pensamentos infames.
Laura se sentia quase a Mulher-Maravilha. Só que, estranhamente, vivia de maneira meio artificial - era como se aquele remédio a impedisse de mergulhar em seu íntimo. Estava anestesiada de sentimentos, vivendo no raso.
Entre diversões noturnas de fim de semana, viagens e sentimentos líquidos, Laura percebeu que se tornou alguém incapaz de chorar. Mesmo ao pensar em algo triste, ou se lhe contassem algo triste, que antes naturalmente seria capaz de lhe emocionar, isso já não acontecia. E nem era só quanto à chorar. Cá entre nós, disse que, apesar da libido, até o gozar era estranho: como se não conseguisse "chegar lá ".
Seguiu o tratamento por um ano e meio e isso foi muito importante. Mas, um belo dia, ao retornar no médico, questionou se já não seria hora de suspender a medicação. O médico concordou e sugeriu que fosse diminuindo gradativamente a dose até retirar por completo, seria um teste.
Feito. Laura se sentia ótima. O remédio cumpriu seu papel e ela agora estava forte o suficiente para lidar com suas emoções. Estava suficiente forte novamente para voltar a chorar, quando fosse o caso.
E quem disse que lágrimas são sempre de tristeza?
Dia desses chorei de uma emoção sem nome. Assisti a uma peça de teatro sobre a biografia de uma escritora que tanto me inspira e notei lágrimas grossas e contínuas escorrendo pelo rosto e pescoço, silenciosamente. Mas eu estava imensamente feliz. Loucura, não é? Talvez a emoção tivesse alguma relação com o que acabara de acontecer. Minutos antes, na longa fila para entrar e assistir a peça, ouvi que os lugares já haviam se esgotado. A entrada era franca, o teatro escolhido para a apresentação era incompatível com a quantidade de pessoas ali presentes. Eu havia dirigido cinquenta quilômetros, entusiasmada. Clarice merecia. Cheguei com meia hora de antecedência e quando ouvi esse veredito não fiquei indignada, como tantos ali ficaram, mas muito decepcionada. Só que ainda assim não fui embora. Pensei comigo: vou ao banheiro e depois vejo o que faço. Estava com vontade de ir ao banheiro desde a estrada. Eu e minha mania de beber água. Perguntei pelo toilette a um senhor que parecia trabalhar no local e ele me disse para subir as escadas. Fui resignada ao banheiro, mas com aquele ponto de interrogação no meu íntimo: vou embora depois?
Para minha surpresa, ao sair do banheiro e me virar para descer as escadas novamente, passei exatamente em frente ao local da entrada, destino final daquela imensa fila lá embaixo. Nessa entrada, uma moça e um homem estavam fazendo a triagem e de repente me perguntaram: "E você, cadê o ingresso?" Eu, totalmente sem jeito, mas cheia de sinceridade, respondi que não tinha, mas que havia saído de Anápolis para assistir ao espetáculo. A mulher virou pro homem e disse: "ela e mais dois podem entrar, depois disso, já encerra". Que sorte foi essa?
Mesmo sem entender nada, entrei, feliz da vida e assisti sedenta a cada ato daquela peça. Talvez por isso aquelas lágrimas.
Quanto ao remédio que adormece emoções, espero não ter de tomá-lo: seria um desperdício não senti-las.